Como fazer novas amizades na recuperação sem álcool nem drogas
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026
Fazer amizades na recuperação é trocar, aos poucos, a turma que girava em torno do uso por pessoas e lugares em que a bebida e a droga não são o centro. Na prática, isso começa por atividades que se repetem toda semana, como grupos de apoio, esporte, curso, igreja ou voluntariado, e por pequenos passos para transformar conhecidos em amigos, sem pressa e sem cortar todo mundo de uma vez.
“Se afaste das más companhias” é o conselho que quase todo mundo ouve ao sair do tratamento. O que quase ninguém explica é o que colocar no lugar. Para muita gente, o mais difícil não é parar, é o silêncio do celular no sábado à noite.
Por que a turma pesa tanto na recuperação?
Durante o uso, a vida social costuma encolher até sobrar quase só quem usa junto. Os encontros, as piadas e até a rotina do fim de semana passam a depender da substância. Quando a pessoa para, essas relações viram um dos gatilhos mais fortes. O Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA (NIDA) lembra que pessoas, lugares e coisas ligados ao uso estão entre os disparadores mais comuns de recaída. Para entender o mecanismo, veja o nosso guia sobre gatilhos de recaída.
O outro lado é animador: a rede de pessoas em volta também pode proteger. Um estudo da Universidade de Connecticut, o Network Support Project, publicado no Journal of Consulting and Clinical Psychology, acompanhou 210 pessoas com dependência de álcool em tratamento ambulatorial. Quem recebeu um tratamento voltado a mudar a rede social teve até 20% mais dias sem beber dois anos depois do que os outros grupos. Os autores também relatam, de uma etapa anterior da mesma pesquisa, que acrescentar uma única pessoa que não bebia à rede social aumentou em 27% a chance de abstinência no ano seguinte. Em linguagem simples: um amigo novo que não bebe não é detalhe, é parte do tratamento.
Afastar-se de todos os amigos antigos é obrigatório?
Não existe uma regra única. O que ajuda é separar as relações antigas em três grupos, com honestidade:
| Tipo de relação | Exemplo | O que costuma funcionar |
|---|---|---|
| Quem usa junto ou fornece | O parceiro do “último gole”, quem vende ou oferece | Afastamento claro, inclusive no celular e nas redes |
| Quem não usa, mas só encontrava você no bar | O colega do futebol que sempre terminava na barraca | Manter a amizade, mudando o local e o horário do encontro |
| Quem apoia a sua decisão | O primo que nunca bebeu, a vizinha que pergunta como você está | Aproximar mais, contar com essa pessoa nos dias difíceis |
Muitas famílias perguntam se devem proibir certas amizades. Para um adulto, proibir raramente funciona; conversar sobre essa tabela juntos, sim. A decisão precisa ser dele para durar.
Onde conhecer gente nova sem álcool nem drogas?
O segredo é escolher lugares com uma atividade em comum e frequência fixa. É a repetição que transforma um rosto conhecido em amigo. Algumas portas possíveis, muitas delas gratuitas na região de Salvador e no interior da Bahia:
- Grupos de apoio. As reuniões de Narcóticos Anônimos e de Alcoólicos Anônimos reúnem pessoas que vivem a mesma luta, e o cafezinho antes e depois da reunião é onde muitas amizades nascem. Veja também como funciona o padrinho no AA e no NA.
- CAPS e serviços da rede pública. Os Centros de Atenção Psicossocial oferecem atendimento em grupo e oficinas, um ambiente com gente que entende o momento.
- Esporte em grupo. Caminhada na orla, futebol de bairro sem a resenha regada a cerveja, academia ao ar livre, capoeira, corrida. O treino marca hora e cria assunto.
- Comunidade de fé. Para quem tem religião, grupos de jovens, de homens ou de serviço na igreja ou no terreiro costumam ter encontros semanais e acolhimento.
- Cursos e estudos. Curso técnico, supletivo, aula de música ou de artesanato colocam você ao lado das mesmas pessoas toda semana.
- Voluntariado. Ajudar em uma ação social, num mutirão ou numa associação de moradores aproxima pessoas por um objetivo, não pela bebida.
Um cuidado típico da Bahia: muitas festas e programas de fim de semana giram em torno da cerveja, do paredão e da barraca de praia. Não é preciso fugir de tudo, mas nos primeiros meses vale preferir programas de dia, com hora para acabar e com alguém de confiança junto.
Como transformar um conhecido em amigo, passo a passo
Ninguém precisa virar outra pessoa para fazer amigos. Este roteiro simples ajuda quem ficou anos socializando só com a substância por perto:
- Escolha duas atividades fixas por semana e vá mesmo quando estiver sem vontade. Presença repetida é o que cria confiança.
- Chegue alguns minutos antes ou fique um pouco depois. É nesses intervalos que as conversas acontecem.
- Faça uma pergunta concreta. “Faz tempo que você vem aqui?” ou “Onde você comprou esse tênis?” rendem mais do que esperar o assunto cair do céu.
- Lembre de um detalhe e retome na semana seguinte. Mostrar que prestou atenção aproxima.
- Proponha algo pequeno e sem álcool. Um café, um açaí, uma caminhada, ver o jogo na casa de alguém que não bebe.
- Troque contato com duas ou três pessoas confiáveis e combine que pode ligar nos dias difíceis.
- Tenha uma resposta pronta para a oferta de bebida. Ela vai aparecer em algum momento; veja como recusar bebida na recuperação sem constrangimento.
Se a semana ainda parece comprida demais, combine este roteiro com o planejamento do tempo livre que mostramos em tédio e tempo livre na recuperação.
O que a família pode fazer para ajudar?
A família não consegue escolher os amigos de um adulto, mas pode abrir portas. Convidar para programas sem bebida, oferecer carona para a reunião do grupo, receber em casa um amigo novo com um almoço simples e evitar comentários como “esses seus amigos de grupo são estranhos” fazem diferença. Também ajuda não transformar cada saída em interrogatório: perguntar “como foi?” com interesse funciona melhor do que “com quem você estava?” em tom de cobrança.
Quando a solidão pede ajuda profissional?
Sentir-se sozinho no começo é comum. Procure a equipe que acompanha o tratamento, ou um serviço de saúde, quando:
- o isolamento dura semanas e a pessoa deixou de sair de casa, de ir ao grupo ou de atender o telefone;
- a única companhia que aparece é a antiga turma de uso, e a vontade de voltar a ela cresce;
- a timidez virou medo forte de qualquer contato social, a ponto de travar a vida;
- a solidão vem junto com tristeza profunda, falta de esperança ou falas sobre não querer viver.
Se surgirem falas sobre não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).
Reconstruir a vida social faz parte do caminho depois da alta, como mostramos ao explicar cada etapa do tratamento da dependência química.
Como podemos ajudar
No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, o plano terapêutico individual inclui pensar com a pessoa e com a família a rede de apoio para depois da alta, com avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas e sigilo. Conheça o tratamento para dependência química. Recebemos famílias de Lauro de Freitas e de toda a Bahia.
Em resumo
- A antiga turma de uso é um dos gatilhos mais fortes, e a nova rede de amigos é parte da proteção.
- Não é preciso cortar todo mundo: separe quem usa junto, quem só encontrava você no bar e quem apoia.
- Atividades fixas toda semana, como grupo de apoio, esporte, curso, fé ou voluntariado, são o melhor caminho para conhecer gente.
- Amizade nasce da repetição e de pequenos convites sem álcool.
- Isolamento que dura semanas ou vem com tristeza profunda pede ajuda profissional.
Perguntas frequentes
Preciso cortar todos os amigos antigos de uma vez?
Não necessariamente. O afastamento mais urgente é de quem usa junto, fornece ou insiste para você voltar. Amigos antigos que respeitam a sua decisão podem continuar por perto, de preferência em encontros longe do bar e do ponto de uso.
Só posso ter amigos que também estão em recuperação?
Não. Os grupos de apoio ajudam muito porque reúnem gente que entende o que você vive, mas amizades do trabalho, da igreja, do esporte ou do curso também protegem. O que importa é que a convivência não gire em torno da bebida ou da droga.
O que dizer para a antiga turma quando eu me afastar?
Uma frase curta e verdadeira basta, como “estou cuidando da minha saúde e não vou mais para esses lugares”. Você não deve explicações detalhadas a ninguém. Se a pessoa insistir ou zombar, isso mostra que aquele vínculo hoje é mais risco do que apoio.
Sou tímido e travo para puxar conversa sem beber. Por onde começar?
Comece por lugares onde existe uma atividade em comum, porque a tarefa puxa o assunto por você: um treino, um curso, um serviço voluntário. Chegar um pouco antes, voltar sempre no mesmo dia e fazer uma pergunta simples já basta. Se a ansiedade social for forte, vale levar o tema para a terapia.
Quanto tempo leva para ter amigos de verdade de novo?
Não há prazo certo; amizade se constrói com repetição, e isso leva meses. Por isso ajuda escolher atividades fixas, toda semana, em vez de esperar um encontro marcante. Nos primeiros tempos, ter dois ou três contatos confiáveis já faz muita diferença.
Mais sobre tratamento e recuperação
- Como funciona o tratamento da dependência química, etapa por etapa
- Familiar internado em outra cidade: como acompanhar o tratamento de longe
- Fé e espiritualidade na recuperação da dependência química: o que dizem os estudos
- Festa de família sem bebida: aniversário, casamento e batizado com quem está em recuperação
- Filmes sobre dependência química para ver em família
- Equipe multidisciplinar na dependência química: quem é quem e o que cada um faz