Padrinho no AA e no NA: o que faz e como escolher

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026

Padrinho (ou madrinha) no AA e no NA é um membro com mais tempo de recuperação que acompanha o recém-chegado de perto: ajuda a trabalhar os 12 passos, escuta nos dias difíceis e divide a própria experiência. Não é terapeuta, médico nem responsável pela recuperação de ninguém. A escolha é livre, se faz com um pedido simples e pode ser trocada.

“Arranja um padrinho” é uma das primeiras frases que se ouve nas reuniões, e muita família fica sem entender quem é essa pessoa que passou a ligar para o filho ou para o marido.

Quem é o padrinho nos grupos de 12 passos?

É alguém do próprio grupo, que também é uma pessoa em recuperação e vive o programa. O folheto oficial do NA sobre o tema, o Folheto informativo nº 11, “O apadrinhamento”, descreve essa relação como pessoal, reservada e de mão dupla: o afilhado recebe apoio, e o padrinho reforça a própria recuperação ao ajudar.

No AA a lógica é a mesma, ligada à ideia que sustenta o programa: quem já parou de beber tem uma facilidade especial para ajudar quem ainda está no começo. Para entender o roteiro que o padrinho ajuda a percorrer, veja os 12 passos do AA e do NA explicados.

O que o padrinho faz e o que ele não faz?

A confusão mais comum que chega à nossa equipe é a família achar que o padrinho “cuida” da pessoa ou que vai resolver a vida dela. Não é esse o papel. A tabela ajuda a separar:

O padrinho costumaO padrinho não é
Acompanhar o afilhado nos 12 passos, um de cada vezTerapeuta, psicólogo ou médico
Atender o telefone em momentos de vontade de usarResponsável por manter alguém sem usar
Explicar o jeito das reuniões, as palavras e as tradições do grupoAdvogado, banqueiro ou conselheiro de casal
Contar como ele mesmo atravessou situações parecidasUm profissional pago
Ser sincero, mesmo quando a verdade incomodaAlguém que repassa à família o que ouviu

O folheto do NA para pais e responsáveis (Folheto informativo nº 27) reforça dois pontos: o padrinho não responde pela capacidade do afilhado de ficar limpo, e a relação depende de sigilo.

Como escolher um padrinho ou uma madrinha?

Não existe fórmula, mas a experiência dos grupos aponta alguns critérios práticos. Vale procurar alguém que:

  • tenha mais tempo de recuperação do que você e esteja de fato vivendo o programa;
  • tenha uma história parecida com a sua, para entender suas dificuldades sem precisar de muita explicação;
  • transmita confiança e com quem você consiga falar de assuntos que não falaria em reunião aberta;
  • seja, para muita gente, do mesmo sexo, o que torna a relação mais segura;
  • não desperte atração amorosa, porque isso desvia o foco e atrapalha a honestidade entre os dois.

Se alguém se oferecer antes de você ter decidido, não há obrigação de aceitar. Assistir a várias reuniões antes ajuda a perceber com quem você se sente à vontade.

Como fazer o pedido: um roteiro em 5 passos

Para quem passou anos sem confiar em ninguém, pedir ajuda pode parecer mais difícil do que parar de usar. Este roteiro simplifica:

  1. Frequente as reuniões por algumas semanas e observe quem fala com honestidade e quem você gostaria de ouvir mais.
  2. Puxe conversa no fim de uma reunião. Um café, uma pergunta sobre como a pessoa começou. Sem pressa.
  3. Faça o pedido com palavras suas, curto e direto: “Você aceitaria ser meu padrinho?”.
  4. Combinem o básico: com que frequência vão se falar, por telefone, mensagem ou em reunião, e o que cada um espera.
  5. Se a resposta for não, peça a outra pessoa. A recusa costuma ter a ver com a vida de quem foi convidado, não com você.

Enquanto o padrinho não chega, anote o telefone de outros membros. Ter a quem ligar numa noite difícil é parte do plano contra os gatilhos de recaída.

O que a família precisa saber sobre o padrinho?

Muitas mães e esposas nos perguntam se podem ligar para o padrinho e “saber como ele está”. A resposta honesta é: não é o caminho. O padrinho guarda o que ouve, e essa reserva é justamente o que faz o afilhado se abrir. O folheto do NA para pais conta que alguns jovens marcam um encontro entre o padrinho e os pais para que a família conheça a pessoa, mas sem que isso vire canal de informação.

A família também precisa de apoio próprio. Al-Anon e Nar-Anon têm grupos para familiares; o endereço do grupo mais perto, em Salvador ou no interior, se procura nos sites oficiais de cada um. Veja como funcionam em grupos de apoio para familiares.

Quando o grupo e o padrinho não bastam?

Os grupos de 12 passos têm estudos a favor: uma revisão Cochrane de 2020 concluiu que a participação no AA, em programas bem estruturados, ajuda a manter a abstinência do álcool. Mas o padrinho é apoio entre pares e não substitui o tratamento. Procure ajuda profissional quando:

  • o uso voltou ou está aumentando, mesmo com reuniões e padrinho;
  • há tristeza profunda, ansiedade forte, insônia persistente ou outro transtorno mental junto;
  • a pessoa bebe muito todos os dias ou usa remédios calmantes: parar de uma vez, sem médico, pode ser perigoso e pede avaliação médica urgente;
  • a família está esgotada e não sabe mais como agir.
Se surgirem falas sobre não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).

Os grupos entram como uma das peças do caminho, ao lado de outras, como mostramos em as etapas do tratamento da dependência química.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, o plano terapêutico individual prepara a vida depois da alta, incluindo a ligação com grupos de apoio, com avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas, a família junto e sigilo. Conheça o tratamento para dependência química. Atendemos famílias de Camaçari e de toda a Bahia.

Em resumo

  • O padrinho é um membro mais experiente do AA ou do NA que acompanha o recém-chegado nos 12 passos.
  • Ele não é profissional, não é pago e não responde pela recuperação de ninguém.
  • Escolha alguém com mais tempo de programa, história parecida e sem envolvimento amoroso.
  • O pedido é simples, a escolha é livre e pode ser trocada.
  • O que se fala com o padrinho fica entre os dois; a família tem seus próprios grupos.

Perguntas frequentes

O padrinho conta para a família o que o afilhado fala com ele?

Não deveria. O apadrinhamento se apoia em confiança e sigilo, e a literatura do NA avisa que pedir ao padrinho informações sobre o afilhado pode estragar essa relação. Se a família quer notícias, o caminho é conversar com a própria pessoa ou com a equipe de tratamento, com autorização dela.

Dá para trocar de padrinho depois de escolher?

Dá. A escolha é livre e pode mudar com o tempo. Quem ajudou muito no começo nem sempre é a pessoa certa para uma fase mais adiante, e trocar não é ofensa nem fracasso.

O padrinho cobra alguma coisa ou recebe dos grupos?

Não. O padrinho é um membro voluntário do grupo, não um profissional pago. Os grupos de AA e NA se mantêm com contribuições espontâneas dos próprios membros.

Posso ter dois padrinhos ao mesmo tempo?

Alguns membros têm, mas a literatura do NA desaconselha. Com dois padrinhos, fica tentador perguntar a um e a outro até ouvir a resposta que se queria ouvir. Ter vários companheiros de grupo para ligar é outra coisa e costuma ajudar muito.

E se a pessoa que eu convidei disser não?

Acontece e quase nunca é pessoal. Ela pode estar com a vida corrida, com muitos afilhados ou passando por uma fase difícil. A orientação dos próprios grupos é não desistir e fazer o convite a outro membro.

Mais sobre tratamento e recuperação

Ver todos os artigos sobre tratamento e recuperação

Preencha a ficha de acolhimento online