Minha filha está namorando um usuário de drogas: como agir sem afastá-la

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 18/10/2026

Quando a filha está namorando um usuário de drogas, proibir sem conversar costuma afastá-la e deixar o namoro escondido, longe dos seus olhos. O que mais protege é manter o vínculo: conversar sem atacar o rapaz, combinar regras claras de segurança, saber o que a lei diz se ela for menor de idade e agir rápido diante de violência, aliciamento ou uso de drogas por ela.

O que está acontecendo quando a filha se apaixona por alguém que usa?

Na maioria das vezes, a sua filha não está escolhendo as drogas. Está escolhendo uma pessoa que, para ela, é carinhosa, divertida ou precisa de ajuda. Muitas jovens enxergam no namorado alguém que “só precisa de amor para mudar”, e essa ideia é bonita, mas pesada demais para ela carregar.

Também é comum que ela já saiba do uso e minimize (“é só um baseado no fim de semana”) ou que não saiba de tudo. Antes de qualquer conversa, vale separar o que você viu do que você ouviu dizer. Fatos abrem diálogo; boatos abrem briga.

Se a preocupação maior hoje é com o próprio rapaz e não com a sua filha, o artigo sobre o que fazer quando o namorado é dependente químico mostra o mesmo problema do ponto de vista de quem namora.

Por que proibir o namoro costuma sair pela culatra?

Quando os pais proíbem de forma brusca, o namoro não acaba: ele muda de endereço. A filha passa a mentir sobre onde está, apaga mensagens e deixa de contar justamente o que vocês mais precisariam saber, como uma agressão ou um convite para usar junto.

Há ainda um ponto que poucos pais consideram. Um estudo americano que acompanhou 939 jovens de 18 a 20 anos, publicado no Journal of Studies on Alcohol and Drugs, encontrou aumento do consumo excessivo de álcool, do uso de maconha e do cigarro depois do fim de um namoro, e também entre quem trocava de parceiro em pouco tempo. Os autores apontam como explicações parciais os sintomas depressivos e a aproximação de amigos que usam. Em linguagem simples: um rompimento forçado, sem apoio, pode deixar a sua filha mais vulnerável, e não menos.

Isso não quer dizer que o namoro deva continuar a qualquer custo. Quer dizer que o fim, se vier, funciona melhor quando é decisão dela, com vocês por perto, do que quando é imposto e vivido em segredo.

Como conversar com sua filha sem virar o inimigo?

A meta da primeira conversa não é convencer. É mostrar que você continua do lado dela. Um roteiro que costuma funcionar:

  1. Escolha a hora. Nada de conversa depois de uma briga, de madrugada ou na frente do namorado. Um passeio de carro ou uma tarefa feita juntos diminui a tensão.
  2. Comece pelo afeto. “Eu te amo e percebo que você gosta muito dele.”
  3. Fale do que viu, sem rótulos. “Na festa de sábado ele chegou alterado e você voltou chorando.” Evite “drogado”, “vagabundo” ou “marginal”: cada palavra dessas faz ela defender o rapaz.
  4. Pergunte e escute mais do que fala. “Como você se sente quando ele usa?” “Ele já te ofereceu?” Deixe o silêncio trabalhar.
  5. Diga o que preocupa você, em primeira pessoa. “Eu fico com medo de você estar num carro com alguém que usou.”
  6. Combine uma regra de segurança, não um castigo. Por exemplo: ela pode ligar a qualquer hora para alguém buscá-la, sem sermão naquela noite.
  7. Termine com a porta aberta. “Você não precisa decidir nada hoje. Eu vou estar aqui.”

Se a conversa desandar, pare e retome outro dia. Para mais ideias, veja como conversar com quem usa drogas sem brigar. E se a filha é casada, e não namorando, a orientação muda em alguns pontos: leia o que fazer quando o genro é dependente químico.

E se ela for menor de idade? O que a lei diz

Aqui o papel dos pais é maior, porque vocês são os responsáveis legais. Alguns pontos da lei que toda família deve conhecer:

SituaçãoO que a lei prevêOnde procurar
Filha com menos de 14 anosO art. 217-A do Código Penal trata como crime qualquer relação sexual com menor de 14 anos, e o consentimento dela não afasta o crime (§ 5º)Delegacia, Conselho Tutelar ou Disque 100
Namorado oferece ou entrega droga ou bebida a elaO art. 243 do Estatuto da Criança e do Adolescente pune quem fornece a criança ou adolescente bebida alcoólica ou produto que cause dependênciaDelegacia ou Conselho Tutelar
Ameaça, controle, agressão ou humilhaçãoA Lei Maria da Penha vale para namoro, mesmo sem morar junto (art. 5º, III), em qualquer idadeDelegacia da Mulher, Ligue 180
Ela começou a usar ou foi envolvida no tráficoO ECA prevê medidas de proteção, como orientação e tratamento (art. 101)Conselho Tutelar, CAPS AD, Defensoria

Na prática, poucas famílias precisam chegar à delegacia. Mas saber que a lei existe muda a conversa: vocês não estão “se metendo na vida dela”, estão cumprindo o dever de proteção.

O que fazer agora: um plano para esta semana

  1. Anote fatos com data. O que você viu, sem interpretar. Isso ajuda na conversa e, se for preciso, na orientação jurídica.
  2. Alinhe pai, mãe e quem mais cuida dela. Um diz “pode” e o outro diz “não pode” é a brecha que mais desgasta a família.
  3. Combine regras de segurança explicadas: horários, encontros em casa ou em lugar conhecido, nada de carro com quem usou, celular com bateria e um contato de confiança.
  4. Conheça o rapaz, se for seguro. Quando ele vira um rosto e não um fantasma, fica mais fácil para a sua filha ouvir o que vocês observam. Isso não vale se houver ameaça ou ligação com o tráfico.
  5. Cuide de quem cuida. Grupos para familiares, como o Nar-Anon, ajudam pais a não decidir tudo no susto. A página para famílias reúne outros caminhos.
  6. Volte ao assunto com calma. Uma conversa raramente resolve. Dez conversas curtas, sem ataque, costumam fazer mais.

Quando é hora de buscar ajuda profissional ou agir com urgência?

Procure orientação (CAPS AD, psicólogo, Conselho Tutelar se ela for menor, ou um advogado) quando:

  • ela passou a usar álcool ou drogas, ou você suspeita disso;
  • ela mudou muito: isolamento, queda brusca na escola ou no trabalho, perda de amigos antigos;
  • o namorado controla o celular, as roupas, o dinheiro ou com quem ela fala;
  • surgem dívidas, objetos sumindo de casa ou contato com pessoas ligadas ao tráfico.
Se houver agressão, ameaça de morte, sinal de overdose ou risco imediato à vida, ligue 190 (polícia) ou 192 (SAMU). Se sua filha falar em se machucar ou em não querer viver, procure ajuda na hora: o CVV atende pelo 188, 24 horas e de graça.

Como podemos ajudar

Nossa equipe conversa com famílias que estão vivendo exatamente essa dúvida e ajuda a montar um plano de conversa e de segurança. Se o namorado aceitar tratamento, orientamos a chegada, com avaliação psiquiátrica presencial, plano terapêutico individual e enfermagem 24 horas; pergunte se o serviço atende o perfil dele. Tudo com sigilo. Veja também o atendimento à região de Salvador.

Em resumo

  • Proibir de forma brusca costuma esconder o namoro, não acabar com ele.
  • Converse com fatos e afeto, sem rótulos, e combine regras de segurança em vez de castigos.
  • Se a filha é menor de idade, a lei dá aos pais o dever e os meios de proteger: ECA, Código Penal e Lei Maria da Penha.
  • Violência, uso de drogas por ela ou envolvimento com tráfico pedem ajuda profissional, e risco à vida pede 190, 192 ou 188.
  • Cuide também de você: decisões tomadas no susto afastam mais do que aproximam. Para entender esse peso na família, leia sobre codependência.

Perguntas frequentes

Posso proibir minha filha de 16 anos de namorar um rapaz que usa drogas?

Como responsáveis, vocês podem colocar regras de horário, de lugar e de convivência dentro de casa. Uma proibição total, sem diálogo, costuma levar o namoro para a clandestinidade, onde vocês enxergam menos. Regras claras e explicadas protegem mais do que um “nunca mais”.

Devo procurar a família do namorado para contar o que sei?

Pode ajudar, desde que seja uma conversa de preocupação e não de acusação, e de preferência com o conhecimento da sua filha. Os pais dele podem não saber do uso e ser aliados. Se houver ameaça ou envolvimento com tráfico, não vá sozinho: procure orientação antes.

Ela começou a usar junto com o namorado. O que muda?

Muda a prioridade: agora a saúde dela também está em jogo, e não só o namoro. Fale do que você observou, sem rótulos, e proponha uma avaliação de saúde, por exemplo no CAPS AD da sua cidade. Se ela for menor de idade, o Conselho Tutelar pode orientar a família.

Ele quer se tratar. Devo apoiar o namoro a partir de agora?

Apoiar o tratamento dele é diferente de liberar tudo de uma vez. Vocês podem reconhecer o passo com sinceridade e, ao mesmo tempo, manter as regras combinadas enquanto observam se a mudança se sustenta. Confiança se reconstrói com tempo e atitudes, não com uma promessa.

Minha filha já é adulta. Ainda tenho algum papel?

Tem, e ele é grande: o de porto seguro. Você não decide o namoro de uma filha adulta, mas pode dizer o que vê, deixar a porta de casa aberta e combinar um sinal para ela pedir ajuda sem precisar explicar. Isso costuma valer mais do que qualquer ultimato.

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