Apagão alcoólico (blackout): por que é sinal de alerta

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 18/10/2026

Apagão alcoólico (blackout) é um buraco na memória sobre o que aconteceu enquanto a pessoa bebia. Ela estava acordada, falava e agia, mas o cérebro parou de gravar. Não é desmaio e não é “normal de festa”: é sinal de que a quantidade de álcool passou do ponto em que o corpo ainda se protege, e merece atenção mesmo que tenha acontecido uma vez só.

Quem acorda sem lembrar como chegou em casa costuma sentir vergonha e medo; quem está do lado sente raiva e preocupação. Dá para conversar sobre isso sem briga.

O que é o apagão alcoólico?

O Instituto Nacional sobre Abuso de Álcool e Alcoolismo dos EUA (NIAAA) explica que o álcool, em quantidade suficiente, bloqueia por um tempo a passagem das lembranças da memória de curto prazo para a de longo prazo, num processo que acontece no hipocampo, a região do cérebro que “arquiva” o que vivemos. A pessoa vive a cena, mas ela não é guardada.

Existem dois tipos:

TipoComo aparece no dia seguinteDá para lembrar depois?
Parcial (o mais comum)“Ilhas” de lembrança com pedaços faltando: lembra do bar, não lembra da voltaÀs vezes, com fotos ou o relato de alguém
CompletoHoras inteiras em brancoEm geral não, porque a lembrança nunca foi gravada

A diferença para o desmaio é importante. No desmaio a pessoa apaga de vez e perde a consciência. No apagão ela continua de pé, pode dirigir, discutir, gastar dinheiro ou mandar mensagens, e ninguém em volta percebe que ela não está gravando nada.

Por que o apagão acontece com algumas pessoas?

Segundo o NIAAA, qualquer pessoa que bebe pode ter um apagão, seja qual for a idade ou a “experiência” com bebida. O risco aumenta quando a concentração de álcool no sangue sobe rápido, o que costuma acontecer quando a pessoa:

  • bebe de estômago vazio;
  • bebe muito em pouco tempo;
  • emenda uma rodada atrás da outra num mesmo dia;
  • mistura bebida com remédios para dormir ou para ansiedade.

O mesmo órgão aponta que as mulheres, em média, atingem um nível de álcool no sangue mais alto por dose, e mais depressa, o que pode explicar por que parecem ter risco maior.

Uma ideia comum que ouvimos das famílias é que “quem aguenta muito não tem apagão”. Não é bem assim: aguentar beber mais sem parecer bêbado pode ser sinal de tolerância, um dos sinais de que o corpo já se adaptou ao álcool, como explicamos em como saber se alguém é alcoólatra.

Por que um apagão é sinal de alerta?

O NIAAA afirma que o apagão não é, por si só, prova de alcoolismo, mas que um único episódio já é motivo de preocupação e de conversa com um profissional de saúde. O alerta vem por três caminhos:

  1. Risco no momento. O apagão está ligado a mais risco de acidentes e machucados. Em níveis altos de álcool no sangue, o NIAAA descreve que ao apagão podem se seguir a perda de consciência e até a morte por intoxicação. A Organização Mundial da Saúde lembra que o álcool está entre as causas de lesões, violência e acidentes de trânsito.
  2. Consequências que ficam. Entre jovens, os apagões frequentes andam junto com faltas no trabalho ou na escola, idas à emergência e problemas com a polícia, segundo o NIAAA.
  3. O padrão de consumo. Se os apagões se repetem, a pessoa está bebendo, de forma habitual, em quantidade que o cérebro não consegue acompanhar. Isso, somado a outros sinais, pode indicar dependência. Vale ler também se beber todo dia é alcoolismo.

Há ainda o lado legal, que pouca gente considera: não lembrar não livra ninguém da responsabilidade. O Código Penal, no art. 28, inciso II, estabelece que a embriaguez voluntária ou culposa pelo álcool não exclui a imputabilidade penal. Uma briga, uma agressão ou um acidente de carro durante o apagão continuam sendo de quem os causou.

O apagão no Carnaval e nas festas da Bahia

Muitas famílias nos procuram logo depois do Carnaval de Salvador, do São João no interior ou de uma festa de largo. O relato se repete: dias seguidos de bebida, pouca comida, sol forte, e a pessoa volta para casa sem saber onde esteve. O ritmo dessas festas junta exatamente o que o NIAAA aponta como risco, beber rápido e de estômago vazio, por horas.

Se o seu familiar já teve apagões, planejar a festa com antecedência ajuda. Veja o roteiro em como atravessar o Carnaval sem recair.

O que fazer no dia seguinte a um apagão

Para a família, um roteiro simples:

  1. Primeiro, confira se a pessoa está bem. Machucados, dor de cabeça forte, confusão que não passa ou vômitos repetidos pedem avaliação médica.
  2. Espere a ressaca passar para conversar. Conversa com a pessoa ainda alterada vira briga.
  3. Descreva fatos, sem acusar. “Você chegou às 4h, sem a carteira, e não lembrava do caminho. Fiquei com medo.” Fatos são mais difíceis de negar do que rótulos.
  4. Não exija que ela lembre. No apagão completo, a memória não existe. Cobrar só aumenta a vergonha e a vontade de esconder.
  5. Pergunte se já aconteceu antes. Apagões repetidos mudam o tamanho da conversa.
  6. Combine um próximo passo concreto: uma consulta, uma ida a um grupo como os Alcoólicos Anônimos ou uma avaliação com equipe especializada.

Se quem bebe é o companheiro ou a companheira e os apagões já viraram rotina, veja também o que fazer quando o marido bebe demais.

Quando é emergência?

O apagão pode ser o começo de uma intoxicação grave. O NIAAA lista como sinais de intoxicação por álcool: confusão mental forte, dificuldade de se manter acordado ou não conseguir acordar, vômitos, convulsão, respiração lenta ou irregular, pele fria, pálida ou azulada.

Nessas horas:

  • não deixe a pessoa sozinha nem a coloque para “dormir para passar”, porque o nível de álcool no sangue pode continuar subindo depois que ela para de beber;
  • se estiver deitada ou desacordada, vire-a de lado, para não engasgar com o vômito;
  • banho frio, café e caminhar não resolvem e podem piorar.
Diante de qualquer sinal de intoxicação grave, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU). Se surgirem falas sobre não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a pessoa passa por avaliação psiquiátrica presencial e recebe um plano terapêutico individual, com enfermagem 24 horas, a família participando e sigilo. Conheça o tratamento para alcoolismo. Recebemos famílias de Salvador e de toda a Bahia.

Em resumo

  • Apagão alcoólico é uma falha de gravação da memória: a pessoa estava acordada, mas não guarda o que viveu.
  • Não é desmaio, mas pode evoluir para perda de consciência, que é emergência.
  • Beber rápido, de estômago vazio ou misturado com remédios aumenta o risco.
  • Um único apagão já é sinal de alerta; apagões repetidos pedem avaliação profissional.
  • Não lembrar não tira a responsabilidade pelo que foi feito, segundo o art. 28 do Código Penal.

Perguntas frequentes

Ter um apagão uma única vez já significa alcoolismo?

Não necessariamente. O apagão sozinho não fecha diagnóstico, mas mostra que naquela ocasião a pessoa bebeu a ponto de o cérebro parar de gravar. Mesmo um episódio já é motivo para repensar a relação com a bebida e conversar com um profissional de saúde.

Apagão alcoólico é a mesma coisa que desmaiar de bêbado?

Não. No apagão a pessoa continua acordada, anda, conversa e toma decisões, mas o cérebro não forma lembranças. No desmaio ela perde a consciência. Conforme o quanto bebeu, um apagão pode evoluir para a perda de consciência, que é emergência.

Dá para recuperar a memória do que aconteceu durante o apagão?

No apagão parcial, algumas cenas podem voltar com ajuda de fotos ou do relato de outras pessoas. No apagão completo, as lembranças daquele período em geral nunca chegaram a ser gravadas e não voltam. Por isso não adianta pressionar a pessoa a “lembrar”.

Quem fez algo errado durante um apagão responde pelo que fez?

Em regra, sim. O Código Penal, no art. 28, inciso II, diz que a embriaguez voluntária ou culposa pelo álcool não exclui a responsabilidade penal. Não lembrar do que aconteceu não apaga as consequências, inclusive no trânsito, no trabalho e em casa.

Perdi a memória depois de beber pouco. Pode ter sido outra coisa?

Pode. Perder a memória com pouca bebida, ou junto de sonolência muito forte e mal-estar estranho, pode indicar que alguém colocou alguma substância na bebida, ou ainda mistura com remédio para dormir ou ansiedade. Nesses casos, procure atendimento médico o quanto antes e, se houver suspeita de crime, registre ocorrência.

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