Como perdoar um dependente químico (e o que perdoar não significa)
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 18/10/2026
Perdoar um dependente químico é deixar de cobrar dele, todos os dias, a dívida das mágoas antigas. Não é esquecer, não é fingir que nada aconteceu e não é tirar os limites. Dá para perdoar e, no mesmo dia, continuar sem emprestar dinheiro, sem aceitar uso dentro de casa e sem tolerar agressão. O perdão olha para o passado; os limites protegem o presente.
Muitas mães, esposas e irmãos nos dizem a mesma frase: “eu quero perdoar, mas tenho medo de ser feita de boba outra vez”. Esse medo não é falta de amor nem de fé. É a memória de quem já se machucou.
O que é perdoar quando quem feriu é alguém que usa drogas ou bebe?
Na família de uma pessoa com dependência, as feridas costumam ser muitas e repetidas: o dinheiro que sumiu da bolsa, a televisão vendida, o aniversário em que ele não apareceu, a madrugada em claro, a palavra dura dita na frente das crianças. Com o tempo, a mágoa vira uma conta que nunca fecha.
Perdoar, aqui, é decidir que essa conta não vai mais comandar a sua vida. Você para de reviver as cenas, de jogar o passado na cara a cada discussão e de esperar que a pessoa “pague” por tudo antes de você voltar a respirar. Quem ganha primeiro com isso é quem perdoa.
Também ajuda saber o que a ciência diz sobre a doença. O NIDA, instituto de pesquisa sobre drogas do governo dos Estados Unidos, trata a dependência como uma condição crônica, em que a recaída pode acontecer e indica a necessidade de retomar ou ajustar o tratamento. Isso não desculpa o que foi feito, mas explica por que tantas promessas sinceras foram quebradas.
O que perdoar não significa?
Boa parte do sofrimento vem de achar que perdoar obriga a abrir mão de se proteger. Não obriga. Veja a diferença:
| Perdoar é | Perdoar não é |
|---|---|
| Parar de cobrar o passado em cada conversa | Esquecer o que aconteceu |
| Reconhecer que a pessoa está doente e pode se tratar | Dizer que o que ela fez “não foi nada” |
| Deixar a porta aberta para a reconstrução | Devolver de imediato a chave, o cartão e a senha |
| Uma decisão sua, no seu tempo | Uma obrigação que a pessoa pode exigir |
| Querer o bem dela | Assumir as dívidas, as mentiras e as consequências dela |
Perdoar também não é o mesmo que voltar a confiar. A confiança se reconstrói com atos ao longo de meses, e esse caminho, visto do lado de quem está se tratando, está em como reconquistar a confiança da família depois do vício.
Por que o perdão não pode apagar os limites?
Quando a família perdoa e, junto com o perdão, retira todas as regras, a pessoa com dependência muitas vezes entende que tudo voltou a ser como antes. E “como antes” era exatamente o cenário em que o uso cresceu.
Um estudo publicado na Revista Mineira de Enfermagem descreve como familiares de dependentes químicos passam a viver em função do outro, deixando de lado a própria vida. É a codependência. Um perdão que vem com o pacote “vou voltar a resolver tudo por você” alimenta esse ciclo, em vez de quebrá-lo. Entenda melhor em codependência: quando a família adoece junto.
A frase que costuma ajudar é simples: “Eu te perdoo, e a regra continua.” Os limites mais comuns, e como sustentá-los sem briga, estão em como colocar limites em um familiar dependente químico.
Como perdoar sem voltar a ser enganado?
O perdão fica mais leve quando você não precisa adivinhar se cada palavra é verdade. Para isso, troque a confiança “no escuro” por combinados que dá para conferir:
- Dinheiro: perdoar não inclui emprestar. Se for ajudar, pague a conta direto, no nome de quem presta o serviço.
- Promessas: em vez de aceitar “nunca mais”, peça combinados pequenos, como ir ao grupo toda semana ou à consulta marcada.
- Mentiras: quando aparecerem, fale do fato concreto, sem sermão. Há um guia para isso em quando o dependente químico mente.
- Chaves, cartões e senhas: devolva por etapas, conforme o tempo de tratamento e os combinados cumpridos, nunca tudo de uma vez.
Esses cuidados não são desconfiança disfarçada. São o que permite perdoar sem viver em alerta.
O que fazer agora: um roteiro para começar a perdoar
- Separe a pessoa da doença, sem apagar a responsabilidade. Ela está doente e, ao mesmo tempo, responde pelo que fez. As duas coisas são verdade.
- Escreva o que dói. Uma lista sincera das mágoas, só para você. Nomear ajuda a parar de remoer.
- Escolha um limite para cada ferida maior. Se a mágoa é o dinheiro que sumiu, o limite pode ser não deixar dinheiro à vista. A ferida vira cuidado, não vingança.
- Pare de usar o passado como arma. Nas discussões, fale do que está acontecendo hoje. Trazer de volta o que foi perdoado reabre a ferida dos dois lados.
- Procure apoio para você. Grupos como Nar-Anon, Al-Anon e Amor-Exigente, listados nas fontes ao fim deste artigo, reúnem familiares que passaram pelo mesmo dilema. Muitas famílias contam que foi ali que entenderam a diferença entre perdoar e ceder.
- Respeite o seu tempo. Haverá dias de perdão e dias de raiva. Isso é normal e não apaga o caminho feito.
E quando houve violência?
Se houve agressão física, ameaça ou medo de ficar em casa, a prioridade é a segurança, antes de qualquer conversa sobre perdão. Perdoar não obriga ninguém a voltar a conviver com quem agride.
Para mulheres agredidas em casa, a Lei Maria da Penha prevê medidas protetivas, e o art. 24-A trata como crime descumprir essas medidas. Pelo art. 16, nos casos em que a lei permite desistir da representação, isso só vale diante do juiz, em audiência marcada para esse fim e com o Ministério Público ouvido. Ou seja: o perdão dado em casa não encerra o processo, e nenhuma vítima deve ser pressionada a “retirar a queixa” para provar que perdoou. O Ligue 180, a Central de Atendimento à Mulher, orienta de graça.
Em risco imediato, ligue 190 (Polícia Militar). Em emergência de saúde, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).
Quando procurar ajuda profissional?
Vale buscar acompanhamento quando a mágoa tira o seu sono há meses, quando você percebe que só consegue perdoar abrindo mão de tudo, quando a família está dividida entre quem quer perdoar e quem não quer, ou quando o uso continua e o tratamento ainda não começou. Pelo SUS, o caminho é o CAPS, que tem unidades voltadas para álcool e drogas; veja como funciona no Ministério da Saúde. Para conhecer o apoio voltado aos parentes, veja a nossa página para famílias. Se vocês estão em Salvador ou arredores, há orientação sobre a clínica de reabilitação em Salvador.
Como podemos ajudar
No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a família participa do tratamento. Cada paciente tem um plano terapêutico individual, com equipe identificada por nome e função, enfermagem 24 horas e avaliação psiquiátrica presencial. As conversas são feitas com sigilo e com espaço para a família falar das próprias mágoas, não só das do paciente.
Em resumo
- Perdoar é parar de cobrar o passado; não é esquecer nem aceitar tudo de novo.
- Perdão e limites andam juntos: “eu te perdoo, e a regra continua”.
- Perdoar não é o mesmo que confiar; a confiança volta por etapas.
- Se houve violência, a segurança vem primeiro, e o perdão não obriga a retirar medida protetiva.
- Quem perdoa também precisa de apoio: grupos de familiares e acompanhamento ajudam.
Perguntas frequentes
Sou obrigada a perdoar só porque a dependência é uma doença?
Não. Entender que a dependência é uma doença ajuda a olhar com menos raiva, mas não transforma o perdão em dever. Cada pessoa tem o seu tempo, e há feridas que demoram anos. Você pode apoiar o tratamento mesmo antes de conseguir perdoar.
Eu perdoei e ele recaiu. Fui ingênua?
Não. Perdoar não era uma aposta de que ele nunca mais usaria; a recaída faz parte do risco de uma condição crônica. O que protege a família não é deixar de perdoar, e sim manter os limites e os cuidados combinados enquanto o tratamento continua.
Posso perdoar e manter a medida protetiva?
Pode. Perdão é um movimento interno seu; a medida protetiva é uma decisão da Justiça para garantir a sua segurança. Uma coisa não depende da outra. Se pensar em mudar algo no processo, converse antes com a Defensoria ou com um advogado, e nunca sob pressão.
A Bíblia fala em perdoar setenta vezes sete. Isso quer dizer aceitar tudo?
Para muitas famílias de fé, perdoar é um valor central, e isso merece respeito. Mas perdoar sempre não é o mesmo que aceitar sempre. É possível perdoar de coração e, ainda assim, não dar dinheiro, não aceitar uso dentro de casa e não tolerar agressão.
Preciso dizer a ele que perdoei?
Não é obrigatório. Algumas pessoas sentem alívio em dizer; outras preferem mostrar no jeito de tratar, sem tocar no passado. Se for falar, escolha um momento calmo e deixe claro que o perdão não muda os combinados que continuam valendo.
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