Como tirar meu filho das drogas: por onde começar
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 20/10/2026
Para tirar seu filho das drogas, o primeiro mês tem três tarefas: parar de alimentar o uso sem brigar, levar ele a uma avaliação com profissional de saúde e cuidar de você. Ninguém tira ninguém das drogas à força, mas a família que muda o jeito de agir muda o rumo da história. E, quando há risco de vida e ele se recusa, a lei permite pedir a internação sem o consentimento dele.
Este é o plano do primeiro mês. O mapa completo, de menor a maior de idade, está no guia para pais de filho dependente químico.
Quem digita “como tirar meu filho das drogas” no Google quase sempre está de madrugada, com o coração na mão. Este texto é para você, mãe, pai, irmã ou avó, e mostra o que fazer hoje, nesta semana e até o fim do mês.
O que a lei diz sobre internar um filho que não quer
Quando o filho já fez 18 anos, ele é quem decide sobre a própria vida, inclusive sobre se tratar ou não. É o que está no art. 5º do Código Civil: a maioridade começa aos 18 anos completos. Por isso a mãe não consegue “assinar por ele” numa clínica como assinaria por uma criança.
Mas a lei abre uma porta para os casos graves. O art. 23-A da Lei nº 11.343/2006, incluído pela Lei nº 13.840/2019, diz que a família pode pedir a internação involuntária. As condições são estas:
- precisa de um médico avaliando e formalizando a decisão, nunca só a vontade da família;
- só cabe quando outros caminhos, como o CAPS AD e o tratamento sem internar, não deram conta;
- dura só o tempo necessário para a desintoxicação, com limite de 90 dias, e quem diz quando termina é o médico;
- a família pode pedir ao médico a interrupção a qualquer momento;
- a internação tem de ser comunicada ao Ministério Público e à Defensoria Pública em até 72 horas.
A Lei nº 10.216/2001 completa: toda internação exige laudo médico com os motivos, e a pessoa internada tem direito a ser tratada com respeito, a receber informação sobre a própria doença e a ser tratada, de preferência, em serviço perto da comunidade. Se ele for menor de 18, a decisão é dos pais, mas a avaliação médica continua obrigatória. Quem quiser os detalhes pode ler se a internação involuntária é legal.
Por que gritar, trancar e ameaçar não tira ninguém das drogas
A primeira reação de quase toda mãe é a mesma: esconder a chave, revirar o quarto, gritar, chorar, ameaçar botar para fora. É humano. O problema é que nada disso toca no que está mantendo o uso.
A dependência muda o cérebro. O Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos Estados Unidos explica que, com o uso repetido, a pessoa perde o controle sobre a decisão de usar e continua mesmo vendo o estrago. Não é falta de vergonha na cara. É uma doença que tem tratamento, e o tratamento começa quando a família para de brigar com o sintoma e vai atrás da causa.
Tem um detalhe que poucos contam. Um estudo que juntou pesquisas sobre um método de treinamento de familiares (chamado CRAFT, que ensina a mãe e o pai a reagir de outro jeito em casa) mostrou que a família treinada consegue levar ao tratamento uma parte grande das pessoas que estavam recusando ajuda. Ou seja: a mudança começa em quem está lendo este texto, não em quem está usando.
Como tirar meu filho das drogas: o passo a passo do primeiro mês
Pense no mês como quatro semanas com uma tarefa principal cada. Não precisa fazer tudo perfeito. Precisa começar.
Primeira semana: respire e feche as torneiras
- Não tenha a grande conversa no calor da hora. Se ele chegou alterado, deixe ele dormir. Fale no dia seguinte, de manhã, com ele sóbrio.
- Pare de dar dinheiro vivo. Passagem, lanche e conta de celular você paga direto, não entrega a nota. Veja dar dinheiro para o filho que usa: ajuda ou alimenta?.
- Guarde documentos, cartões e senhas. Não é castigo, é proteção da casa inteira.
- Anote num caderno o que você viu: dia, hora, como ele estava, o que sumiu de casa. Isso vai servir na consulta médica e, se um dia precisar, no pedido de internação.
- Conte para uma pessoa de confiança. Vergonha não protege ninguém; isolamento, sim, piora tudo.
Segunda semana: a primeira conversa que não vira briga
Escolha um momento calmo, sem plateia, sem ele estar sob efeito. Fale do que você sente e do que você viu, não do que ele é. Compare:
| Em vez de dizer | Diga |
|---|---|
| “Você virou um viciado” | “Eu vi você chegando mal três vezes essa semana e fiquei com medo” |
| “Você está matando sua mãe” | “Eu não sei mais o que fazer e quero que a gente procure ajuda junto” |
| “Ou se trata ou sai de casa” | “Eu marquei uma avaliação. Você vai comigo?” |
Se ele negar tudo, não insista naquele dia. Diga que a porta está aberta e volte ao assunto em dois ou três dias. Tem um roteiro mais completo em como convencer alguém a se tratar.
Terceira semana: avaliação com profissional, com ou sem ele
Marque uma avaliação com um médico, de preferência psiquiatra, ou procure o CAPS AD da sua cidade. O Ministério da Saúde descreve o CAPS como um serviço aberto e comunitário do SUS, e o CAPS AD é o voltado a quem tem problemas com álcool e outras drogas. Dá para chegar lá e perguntar, e a família pode ir primeiro, sozinha, para ser orientada. Nem toda cidade da Bahia tem CAPS AD; onde não tem, a porta de entrada é o posto de saúde do bairro, que encaminha. Veja como funciona o CAPS AD.
Leve o caderno da primeira semana. Diga ao profissional o que ele usa, desde quando, se já desmaiou, se ficou agressivo, se tem outra doença. Esse é o momento em que alguém com formação vai dizer se dá para tratar em casa, com consultas, ou se o caso pede internação.
Quarta semana: decidir o caminho e cuidar de você
Com a avaliação na mão, o caminho fica mais claro:
- Ele aceitou ajuda: mantenha as consultas, tire bebida e droga de casa e monte uma rotina simples. Não espere milagre em trinta dias.
- Ele recusa, mas não há risco imediato: continue com o CAPS AD ou com o psiquiatra orientando a família, entre num grupo de familiares e mantenha as regras da casa.
- Ele recusa e há risco sério (overdose, agressão, fugas de dias, dívida com traficante): converse com o médico sobre a internação involuntária. Se o uso é de crack, leia também filho usuário de crack: o que fazer.
E a sua tarefa da quarta semana é ir a uma reunião do Nar-Anon, grupo gratuito para familiares de quem usa drogas, ou do Amor-Exigente. Você vai ouvir mães contando a sua história com outro nome.
O que não fazer no primeiro mês
É comum a família perder meses tentando o que não funciona. Esta lista poupa tempo e sofrimento:
- Não pague dívida de droga. Quem paga uma vez vira o banco do traficante. Se houver ameaça, veja o que fazer com dívida com traficante.
- Não dê remédio escondido na comida. Além de perigoso, pode ser crime.
- Não minta para ele que “é só uma consulta” para levá-lo a uma internação. A confiança quebrada demora anos para voltar.
- Não feche contrato com clínica por telefone, de madrugada, sem visitar. Um bom serviço mostra a casa, a equipe e o plano de tratamento antes de qualquer pagamento.
- Não espere o “fundo do poço”. Ele pode ser a morte. Quanto antes a família age, melhor.
- Não carregue tudo sozinha. Chame o pai, o irmão, a tia, o pastor, a vizinha de confiança. A família que adoece junto, o que os profissionais chamam de codependência, deixa de ter força para ajudar. Leia quando a família adoece junto com quem usa.
Quando é emergência e não dá para esperar a semana que vem
Existem situações em que o passo a passo para e a emergência entra:
Ligue 192 (SAMU) ou vá à emergência mais próxima se ele desmaiou e não acorda, está com convulsão, vomitando sem parar, com dor forte no peito ou respirando muito devagar. Se falar em se matar, não deixe ele sozinho e ligue para o CVV, no 188, gratuito e 24 horas. Se houver agressão dentro de casa, 190.
Também é caso de procurar atendimento no mesmo dia, mesmo sem ser emergência, quando ele some por dias seguidos, chega com sinais de ter apanhado, fala em dívida com traficante ou perdeu muito peso em pouco tempo.
Como podemos ajudar
O Centro Terapêutico Amor em Cristo fica em Monte Gordo, Camaçari, na região metropolitana de Salvador. O tratamento é particular, com avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas, plano terapêutico individual e a família participando desde o início. O Diretor Jurídico orienta as famílias sobre a parte legal da internação involuntária. Conheça o tratamento para dependência química e a clínica de reabilitação em Camaçari. Pergunte se o serviço atende o perfil do seu filho.
Em resumo
- Ninguém tira um filho das drogas à força, mas a família que muda de postura muda o rumo.
- Primeiro mês: fechar as torneiras do dinheiro, conversar sem brigar, levar a uma avaliação e cuidar de você.
- Filho maior de 18 anos decide por si; em risco sério, a lei permite a internação involuntária com laudo médico, por até 90 dias.
- O CAPS AD é a porta do SUS para álcool e drogas e orienta a família mesmo sem o filho.
- Desmaio, convulsão, ameaça de suicídio ou agressão: 192, 188 ou 190 na hora.
Perguntas frequentes
Tem como tirar meu filho das drogas se ele não quer?
Ninguém para de usar porque a mãe mandou, mas a família tem mais força do que imagina. Mudar o jeito de conversar, parar de bancar o uso e deixar a porta do tratamento sempre aberta aumenta a chance de ele aceitar ajuda. Quando ele é maior de idade e há risco sério, a lei permite pedir a internação involuntária, com avaliação médica.
Meu filho tem 17 anos. Posso internar ele mesmo sem ele querer?
Até os 18 anos quem responde por ele são os pais ou responsáveis, e a decisão sobre o tratamento é de vocês. Mesmo assim, a internação depende de avaliação médica e só cabe quando o atendimento fora do hospital não deu conta. Pergunte ao serviço se ele atende adolescentes, porque nem todo lugar atende.
Em quanto tempo dá para ver se o tratamento está dando certo?
O primeiro mês serve para começar, não para medir resultado. O que você consegue ver cedo é se ele está indo às consultas, se a casa ficou mais calma e se ele consegue falar do assunto sem explodir. A dependência é uma doença que vai e volta, então um tropeço no caminho não quer dizer que nada funcionou.
Devo largar o trabalho para cuidar do meu filho no primeiro mês?
Em regra, não. Quem larga tudo costuma adoecer junto e, sem renda, a família perde a condição de sustentar o tratamento. O que ajuda é organizar: dividir tarefas com outras pessoas da casa, marcar as consultas em horários possíveis e, se precisar faltar, conversar com a empresa e pedir ao serviço de saúde uma declaração de acompanhante.
E se eu já tentei de tudo e ele voltou a usar?
Voltar a usar faz parte da doença e não apaga o que foi conquistado. O que muda da próxima vez é o plano: entender o que disparou a volta, ajustar o tratamento com a equipe e rever o que a família estava fazendo. Pedir orientação para você mesma, num grupo de familiares ou com um profissional, também conta como tratamento.
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