Como prevenir o uso de drogas em casa: o que a família faz antes do problema

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026

Para saber como prevenir o uso de drogas em casa, comece pelo básico: a família não precisa de palestra nem de vigilância: precisa de vínculo, rotina, regras claras, exemplo dos adultos e conversa adequada a cada idade. Esses são os chamados fatores de proteção. Eles não garantem nada sozinhos, mas atrasam a primeira experiência e diminuem a chance de o uso virar problema, e a casa é o lugar onde começam.

Muitas mães e pais nos procuram depois do primeiro susto. Este texto é para o momento de antes, quando ainda dá para construir com calma.

O que significa prevenir o uso de drogas dentro de casa?

Prevenir não é só dizer “não use”. É fortalecer aquilo que deixa a criança e o adolescente menos vulneráveis e reduzir o que os empurra para o uso. Os padrões internacionais de prevenção do UNODC e da OMS descrevem a prevenção como um trabalho que começa na gestação e na primeira infância e segue por toda a adolescência, com metas realistas: evitar ou adiar o início do uso.

A lei brasileira pensa do mesmo jeito. O art. 19, VI, da Lei nº 11.343/2006 diz que o “não-uso”, o “retardamento do uso” e a redução de riscos são resultados desejáveis da prevenção. Na prática: cada ano a mais sem álcool e sem drogas conta.

Do outro lado da balança estão os fatores de risco, como histórico na família, sofrimento emocional e acesso fácil. Eles estão explicados em fatores de risco da dependência química.

Quais fatores de proteção a família consegue construir?

Alguns fatores dependem do bairro, da escola e da política pública. Outros estão nas mãos de quem cria. Os padrões internacionais apontam como eficazes os programas que ajudam pais e responsáveis a serem afetuosos, presentes, coerentes nos limites e bons exemplos. Traduzindo para o dia a dia:

Fator de proteçãoO que significaComo aparece na rotina
VínculoA criança sente que é querida e pode contar o que viveuDez minutos por dia de atenção sem celular, no café ou antes de dormir
RotinaHorários previsíveis de sono, comida, estudo e lazerJantar juntos alguns dias da semana, hora combinada para voltar
Regras clarasLimites conhecidos, explicados e cumpridos pelos adultosCombinado escrito sobre festas, dinheiro e celular
AcompanhamentoSaber com quem, onde e fazendo o quê, com interesse e não com interrogatórioConhecer os amigos e os pais dos amigos pelo nome
ExemploOs adultos mostram, no próprio comportamento, como lidar com estresse e festaComemoração de família em que beber não é o centro
Sentido e pertencimentoA criança se sente capaz e parte de algoEsporte, capoeira, música, igreja, grupo de dança, curso

O exemplo merece uma atenção especial. A criança aprende mais com o que vê do que com o que ouve. Se todo churrasco termina em bebedeira, se o adulto diz “preciso de uma cerveja para aguentar o dia” ou toma calmante sem receita, a mensagem que fica é que se resolve sentimento com substância. Ninguém precisa ser perfeito; vale perceber o hábito e conversar sobre ele.

Como prevenir o uso de drogas em cada idade

A conversa muda conforme a criança cresce. O que serve aos 5 anos não serve aos 15. Um guia por fases:

  • Até 5 anos: a prevenção é afeto, rotina e segurança. Ensine a nomear sentimentos (“você está com raiva”, “ficou triste”) e mostre jeitos de se acalmar. Remédios, bebidas e produtos de limpeza ficam fora do alcance.
  • De 6 a 10 anos: responda às perguntas com frases curtas e verdadeiras, sem filme de terror. Explique que remédio só se toma com adulto e receita. Elogie quando a criança diz “não” a algo que a incomoda: é o treino para depois.
  • De 11 a 14 anos: é a fase em que a turma começa a pesar mais do que a família. Treine juntos situações concretas: “se alguém oferecer cerveja no aniversário, o que você diz?”. Fale das consequências que importam agora, como vergonha, briga, acidente e queda nas notas, mais do que de doenças distantes.
  • De 15 a 17 anos: negocie mais e imponha menos, mas mantenha os combinados de horário, de transporte e de “me liga que eu busco, sem sermão na hora”. Converse sobre pressão do grupo, redes sociais e festas.
  • 18 anos ou mais: a autoridade dá lugar ao diálogo entre adultos. Ainda dá para combinar regras da casa e mostrar preocupação sem humilhar.

O dado da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar mostra por que não dá para esperar: o IBGE encontrou que seis em cada dez estudantes de 13 a 17 anos já tinham experimentado bebida alcoólica em 2019. A primeira oferta costuma vir antes do que os pais imaginam, e quase sempre é de álcool. Roteiros de conversa para essa fase estão em como conversar com seu filho sobre drogas.

O que a lei diz sobre o papel da família?

A lei não deixa a prevenção só nas costas da família, mas dá a ela um papel claro:

  • Estatuto da Criança e do Adolescente, art. 4º: é dever da família, da comunidade, da sociedade e do poder público garantir, com absoluta prioridade, os direitos da criança e do adolescente, entre eles a saúde.
  • ECA, art. 243: vender, fornecer, servir ou entregar bebida alcoólica ou outra substância que possa causar dependência a criança ou adolescente é crime, inclusive quando quem oferece é um adulto da família, de graça. Vale lembrar isso no Carnaval de Salvador, no São João do interior, nas festas de largo e no “paredão” da rua.
  • Lei nº 11.343/2006, art. 19, IX: coloca entre as diretrizes da prevenção o investimento em alternativas esportivas, culturais, artísticas e profissionais. Pergunte na escola, na associação do bairro e no CRAS quais atividades gratuitas existem perto de casa.

A escola também tem a sua parte, e a família pode cobrar e participar. O lado do professor e da escola está em prevenção às drogas na escola.

O que a família pode fazer a partir desta semana

Um passo a passo simples, para começar sem fazer disso um projeto pesado:

  1. Escolha um momento fixo de conversa. Pode ser o caminho para a escola ou o jantar de domingo. Pergunte sobre o dia, os amigos e o que preocupa, e escute mais do que fala.
  2. Escreva três combinados da casa. Por exemplo: horário de volta, avisar onde está e nada de bebida alcoólica antes dos 18 anos. Explique o motivo de cada um e o que acontece se não for cumprido.
  3. Olhe para o exemplo dos adultos. Repare quanto se bebe em casa e em que situações. Se alguém da família tem problema com álcool ou drogas, o cuidado com essa pessoa também protege as crianças.
  4. Guarde bebidas e remédios. Calmantes, remédios para dormir e analgésicos fortes ficam trancados ou fora da vista. Sobras de tratamentos antigos podem ser descartadas em ponto de coleta.
  5. Conheça a turma. Saiba o nome dos amigos, receba-os em casa, troque contato com outros pais. Combinem juntos as regras das festas da turma.
  6. Abra espaço para atividades com sentido. Um esporte, um instrumento, um grupo da igreja ou do bairro. O objetivo é pertencimento, não encher a agenda.
  7. Ensine a pedir ajuda. Deixe claro que, numa situação ruim, o filho pode ligar a qualquer hora e será buscado. A conversa difícil fica para o dia seguinte.

Quando a prevenção já não basta?

Prevenção não é garantia. Mesmo em casas cuidadosas, o uso pode aparecer. Procure ajuda profissional quando houver:

  • mudança brusca de amizades, notas, sono ou humor, que dura semanas;
  • sumiço de dinheiro, objetos ou remédios da casa;
  • uso que se repete, mesmo depois de conversas e combinados;
  • tristeza profunda, isolamento ou falas de desesperança junto com o uso.

O primeiro passo pode ser a unidade básica de saúde ou o CAPS AD da sua cidade, que atendem pelo SUS e orientam a família. E cuide de você também: a família que adoece junto tem menos força para ajudar, como explicamos em codependência: quando a família adoece.

Se alguém estiver muito sonolento, sem responder, vomitando sem parar ou com dificuldade para respirar depois de beber ou usar alguma substância, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, conversamos todos os dias com famílias que querem entender o que está acontecendo em casa. Quando o uso já é um problema, a pessoa tem avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas e plano terapêutico individual, com a família junto e sigilo. Pergunte se o serviço atende o perfil do seu familiar e conheça a orientação para famílias. Recebemos famílias de Salvador e de toda a Bahia.

Em resumo

  • Prevenir é construir fatores de proteção: vínculo, rotina, regras claras, acompanhamento e exemplo.
  • Adiar o primeiro uso já é um resultado desejado, e a lei reconhece isso.
  • A conversa muda com a idade: afeto na infância, treino de situações no início da adolescência, negociação depois.
  • Dar bebida a criança ou adolescente é crime pelo ECA, inclusive em festa de família.
  • Se o uso aparecer, a prevenção dá lugar ao cuidado: procure a rede de saúde cedo.

Perguntas frequentes

Prevenção funciona quando um dos pais já tem problema com álcool ou drogas?

Funciona e é ainda mais importante, porque a criança convive com um fator de risco a mais. Ajuda falar do assunto com honestidade, sem esconder o que a criança já percebe, e procurar tratamento para quem usa. Cuidar do adulto também é prevenção para os filhos.

Proibir tudo e vigiar o tempo todo previne o uso de drogas?

Regras claras protegem, mas controle sem afeto costuma gerar segredo e mentira. O que os padrões internacionais de prevenção valorizam é a combinação de carinho, acompanhamento próximo e limites coerentes com a idade.

Filho que pratica esporte está protegido das drogas?

Esporte, arte, música e trabalho voluntário ajudam, porque ocupam o tempo, criam vínculos com adultos e dão sentido ao dia. Mas nenhuma atividade sozinha garante proteção: o ambiente do grupo e a relação em casa continuam pesando muito.

Remédio controlado guardado em casa entra na prevenção?

Entra. Calmantes, remédios para dormir e analgésicos fortes devem ficar guardados, fora do alcance e longe da vista, e sobras de tratamentos antigos podem ser devolvidas em farmácias ou unidades de saúde que recebem medicamentos para descarte. Nunca use remédio de outra pessoa nem ofereça sem prescrição.

Onde a família pode buscar orientação gratuita sobre prevenção na Bahia?

A unidade básica de saúde do bairro, o CRAS e o CAPS AD do município podem orientar e encaminhar. A escola do seu filho também pode informar se participa de ações de prevenção junto com a saúde.

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