Como explicar para a criança que o pai ou a mãe vai se internar

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 18/10/2026

Para explicar à criança a internação do pai ou da mãe, conte a verdade com palavras simples: ele está doente, vai a um lugar se tratar, vai voltar, e ela continua cuidada. Deixe claro que a culpa não é dela e que ela pode perguntar o que quiser. Uma conversa curta e honesta, repetida quantas vezes for preciso, protege mais do que o silêncio ou uma história inventada.

Quem está organizando uma internação tem mil coisas na cabeça, e a pergunta “o que eu falo para as crianças?” costuma ficar para a última hora. Ela merece um pouco de preparo.

Por que não dá para esconder da criança?

Muitas famílias nos perguntam se não é melhor dizer que o pai “foi trabalhar fora” ou “viajou”. A intenção é proteger, mas a criança já sente que algo mudou: o clima pesado, as brigas, o adulto que sumiu de uma hora para outra. Quando ninguém explica, ela completa a história sozinha, e quase sempre de um jeito pior. É comum que pense que fez algo de errado ou que o pai foi embora por causa dela.

A verdade contada com cuidado faz o contrário: dá nome ao que ela já percebeu e tira dela um peso que não é seu. Isso não significa contar tudo. Significa não mentir e escolher o tamanho certo da informação para cada idade.

Este artigo trata da conversa em si. Para entender o impacto da dependência na vida dos filhos de forma mais ampla, veja filhos de pais alcoólatras ou com dependência.

O que a criança precisa ouvir, em qualquer idade

Uma associação norte-americana dedicada aos filhos de pessoas com dependência, a NACoA, resume em sete mensagens o que ajuda a criança: ela não causou o uso de drogas ou álcool do adulto, não consegue controlar esse uso e não tem como resolver a doença do outro; e ela pode cuidar de si, falando do que sente, fazendo escolhas saudáveis e valorizando quem ela é.

Na prática, a conversa sobre a internação gira em torno de cinco recados:

  1. O pai (ou a mãe) tem uma doença. A dependência é uma condição de saúde que tem tratamento, como explica o Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA (NIDA).
  2. Ele foi para um lugar onde vão ajudá-lo a cuidar dessa doença. Não é castigo, não é prisão.
  3. A culpa não é sua. Nada do que a criança disse, fez ou deixou de fazer causou isso.
  4. Você continua cuidado. Diga quem vai levar à escola, quem vai fazer a comida, quem dorme em casa.
  5. Você pode perguntar e pode sentir o que sentir. Tristeza, raiva e saudade são permitidas.

Como adaptar a conversa à idade da criança

Não existe frase perfeita, mas existe linguagem que cabe em cada fase. Use a tabela como ponto de partida e troque pelas palavras da sua família.

IdadeO que ela entendeExemplo do que dizer
Até 5 anosAusência, rotina, “dodói”“O papai está doente e foi para um lugar onde vão cuidar dele. Ele te ama. A vovó vai te buscar na escola.”
6 a 9 anosDoença, regras, justiça“O papai tem uma doença que faz ele ter muita vontade de beber, mesmo quando faz mal. Ele foi se tratar e vai ficar um tempo lá. Não foi culpa sua.”
10 a 12 anosCausa e efeito, vergonha diante dos amigos“A mamãe tem dependência química, que é uma doença. Ela decidiu se tratar, e isso é coragem. Você escolhe para quem contar; ninguém é obrigado a saber.”
AdolescentesO tema por inteiro, com opinião própriaFale abertamente de dependência e de tratamento, ouça a raiva sem rebater e pergunte o que ele quer saber.

Com crianças pequenas, a conversa costuma ser curta e repetida muitas vezes, às vezes na mesma semana. Isso é normal: é o jeito delas de digerir. Com adolescentes, o mais comum é a irritação ou o “tanto faz”. Vale deixar a porta aberta e não exigir reação. Para eles, os grupos Alateen, ligados ao Al-Anon, reúnem jovens que vivem a mesma situação.

O que evitar dizer

Algumas frases saem no calor do momento e machucam mais do que parece:

  • “Seu pai é um viciado.” Rótulo vira identidade, e a criança pode sentir vergonha do pai e de si.
  • “Se você se comportar, ele melhora.” Coloca nela uma responsabilidade que não é dela.
  • “Ele vai voltar curado e tudo vai ser como antes.” A dependência é crônica; se houver recaída, a criança se sente enganada.
  • “Não conta para ninguém.” Segredo pesado demais para uma criança. Melhor combinar com quem ela pode falar.
  • Detalhes de brigas, dívidas ou episódios graves. Ela não precisa saber o que os adultos estão resolvendo.

Roteiro prático: o que fazer antes, no dia e depois da saída

  1. Combine a versão entre os adultos. Quem fica, quem vai se internar e os avós precisam contar a mesma história, sem contradições.
  2. Escolha um momento calmo. Nunca no meio de uma crise, de madrugada ou na porta de casa com o carro esperando. Em casa, num horário tranquilo, sem pressa.
  3. Se for possível, deixe o pai ou a mãe se despedir. Uma despedida breve e serena (“vou me cuidar e volto”) costuma ser melhor do que um sumiço. Se a saída for em meio a uma crise, a conversa pode vir depois, com quem fica.
  4. Mostre como vai ser a rotina. Um calendário na geladeira com escola, quem busca e os dias de notícia dá segurança, principalmente aos menores.
  5. Avise a escola o necessário. Basta dizer que a família está passando por um momento difícil e pedir atenção ao comportamento da criança.
  6. Crie um canal com o pai ou a mãe. Desenhos, cartas e áudios guardados para entregar ou enviar quando a equipe permitir. Para preparar a primeira visita, veja o que falar e o que evitar na visita durante a internação.
  7. Volte ao assunto. Pergunte de tempos em tempos como ela está. Uma conversa só não basta.

E os direitos da criança nesse período?

O Estatuto da Criança e do Adolescente garante, no art. 4º, o direito à convivência familiar, e no art. 19, o direito de ser criada e educada no seio da sua família. A internação de um dos pais para tratamento não rompe esse vínculo: é uma ausência temporária por motivo de saúde. Uma dúvida que chega muito à equipe é se quem se interna perde a guarda dos filhos; explicamos o que a lei diz em guarda dos filhos quando o pai ou a mãe tem dependência.

Organizar quem cuida das crianças enquanto alguém se trata também faz parte do cuidado com a família inteira. Quando a casa toda gira em torno do uso, o adoecimento costuma ser coletivo, como mostramos em codependência: quando a família adoece junto.

Quando procurar ajuda profissional para a criança

Tristeza, choro e perguntas repetidas nas primeiras semanas são esperados. Procure o pediatra, a psicologia da unidade de saúde ou o CAPS infantil da sua cidade se a criança:

  • passa a ter medo intenso de dormir sozinha, pesadelos frequentes ou volta a fazer xixi na cama por muito tempo;
  • muda muito na escola, com queda forte das notas, isolamento ou brigas;
  • assume tarefas de adulto, como cuidar dos irmãos ou “vigiar” quem fica;
  • fala em se machucar ou diz que seria melhor não existir.
Se a criança ou o adolescente falar em não querer viver, procure ajuda no mesmo dia. O CVV atende 24 horas pelo 188, de graça, e em risco imediato à vida ligue 192 (SAMU). Suspeita de violência contra criança pode ser denunciada pelo Disque 100.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a família participa do plano terapêutico individual, e a equipe orienta como falar com os filhos e como organizar visitas e contatos, sempre com sigilo. Conheça a internação para tratamento. Recebemos famílias de Camaçari, de Salvador e de toda a Bahia.

Em resumo

  • Conte a verdade em palavras simples: é uma doença, ele foi se tratar e vai voltar.
  • Repita à criança que a culpa não é dela e diga quem vai cuidar dela no dia a dia.
  • Ajuste o detalhe à idade; para os pequenos, poucas frases repetidas.
  • Evite rótulos, promessas de que “nunca mais vai acontecer” e segredos pesados.
  • Fique atento a sinais que pedem ajuda profissional e volte ao assunto sempre.

Perguntas frequentes

Posso dizer que o pai está viajando ou trabalhando fora?

É melhor não. A criança costuma descobrir a verdade por uma conversa de adulto, um primo ou uma ligação, e aí aprende que não pode confiar no que a família diz. Uma versão curta e verdadeira, como “o papai foi para um lugar se tratar de uma doença”, protege mais do que uma história inventada.

Com que idade a criança já consegue entender a internação?

Desde pequena ela percebe a ausência e o clima da casa, mesmo sem entender a palavra internação. O que muda com a idade é a quantidade de detalhe: para os menores, uma ou duas frases bastam; para adolescentes, dá para falar abertamente de dependência e de tratamento.

A criança pode falar com o pai ou a mãe durante a internação?

Depende das regras do serviço e do momento do tratamento. Pergunte à equipe como funcionam ligações, cartas e visitas. Enquanto isso, desenhos e bilhetes guardados para entregar depois ajudam a criança a sentir que o vínculo continua.

E se a criança perguntar se o pai vai voltar “bom”?

Seja honesto sem tirar a esperança: diga que ele está aprendendo a cuidar da doença, que o tratamento ajuda muito e que a família vai continuar se cuidando quando ele voltar. Evite prometer que “nunca mais vai acontecer”, porque uma recaída depois pode parecer uma traição à criança.

Quem deve conversar com a criança?

De preferência um adulto em quem ela confia e que vai continuar por perto, como a mãe, o pai que fica, a avó ou quem cuida no dia a dia. Quando possível, quem vai se internar participa da conversa antes de sair, de forma calma e breve.

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