Como falar sobre drogas com criança de 6 a 10 anos

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026

Falar sobre drogas com criança de 6 a 10 anos é, antes de tudo, falar de corpo, de remédio, de escolhas e de confiança. Nessa idade não se ensina nome de droga nem efeito: responde-se com frases curtas e verdadeiras às perguntas que ela faz, combinam-se regras simples de segurança e mostra-se que em casa qualquer assunto pode ser conversado.

Muitos pais só pensam no tema quando o filho chega à adolescência, e aí a conversa começa do zero, com mais medo dos dois lados. Começar cedo tira o peso.

Por que começar antes da adolescência?

Os padrões internacionais de prevenção do UNODC e da OMS tratam a faixa de mais ou menos 6 a 10 anos, a dos anos iniciais da escola, como uma fase própria de prevenção. É quando a criança passa mais tempo longe da família, começa a dar peso aos colegas e desenvolve autocontrole, tomada de decisão e resolução de problemas. A família, diz o documento, continua sendo a principal referência.

O mesmo texto aponta como um dos fatores de proteção mais fortes contra o uso de substâncias um jeito de criar com afeto, em que os pais definem regras, acompanham o tempo livre e as amizades, ajudam a desenvolver habilidades sociais e servem de exemplo. Repare que nenhum desses itens é “dar uma palestra sobre drogas”. A prevenção na infância é feita, em grande parte, de vínculo e rotina.

Há também um efeito mais adiante. Um estudo brasileiro com estudantes do ensino médio, publicado na Revista Brasileira de Epidemiologia, encontrou menor consumo entre os jovens que disseram ter aprendido sobre drogas com os pais ou com professores. A criança que se acostuma a conversar com você aos 8 anos tem mais chance de continuar conversando aos 14.

O que a criança dessa idade consegue entender?

Entre 6 e 10 anos, a criança pensa de forma concreta. Ela entende o que vê, o que toca e o que acontece com pessoas conhecidas. Ideias abstratas, como “dependência” ou “efeito no cérebro”, precisam virar imagem do cotidiano.

Idade aproximadaO que costuma funcionarO que evitar
6 e 7 anosRegras de segurança: remédio só com adulto, não pegar nada do chão, não provar bebida de ninguémExplicações longas e nomes de drogas
8 e 9 anosConversar sobre cenas que ela viu: o tio que bebeu demais, o cigarro na porta do bar, a propagandaSermão e histórias de terror
10 anosComeçar a falar de escolha, de pressão dos colegas e de como dizer não a um amigoAchar que ela “ainda é muito nova” para qualquer conversa

As idades são uma referência, não uma regra: cada criança tem o seu ritmo. O que vale para todas é responder ao que ela perguntou, do tamanho da pergunta.

Como responder às perguntas que a criança faz?

As perguntas aparecem nas horas mais inesperadas: no carro, no banho, na fila do mercado. Ter algumas frases pensadas ajuda a não travar.

  • “O que é droga?” “É uma coisa que muda o jeito como o corpo e a cabeça funcionam e pode fazer muito mal. Remédio receitado pelo médico é diferente, porque é usado do jeito certo, com um adulto cuidando.”
  • “Por que o vovô fuma, se faz mal?” “Ele começou quando era jovem e o corpo acostumou. Agora é difícil parar. Por isso é melhor nem começar.”
  • “Cerveja é droga?” “A bebida alcoólica tem uma substância que mexe com o corpo e com a cabeça. Para criança faz muito mal, e por isso a lei não deixa vender nem dar para menores de 18 anos.”
  • “Por que aquele moço está deitado na rua?” “Talvez ele esteja doente e precise de ajuda. Algumas pessoas usam coisas que fazem mal e não conseguem parar sozinhas.”
  • “Você já bebeu?” Responda com honestidade e sem detalhes. “Já. Adulto pode escolher beber pouco, mas criança não, porque o corpo ainda está crescendo.”

Uma dúvida que chega muito à nossa equipe é “e se eu não souber a resposta?”. Pode dizer “boa pergunta, vou me informar e te conto”. E cumprir. Isso ensina que o assunto não é proibido e que você leva a pergunta dela a sério.

Quais regras de segurança combinar com a criança?

Nessa faixa de idade, a prevenção mais concreta é a segurança do dia a dia. Algumas combinações simples, repetidas sem drama:

  1. Remédio só com um adulto da família dando. Nunca pegar sozinho, nem que pareça bala.
  2. Não provar bebida de ninguém, mesmo em festa, mesmo que um adulto ofereça “só um golinho”.
  3. Não pegar nada do chão na rua, na praia ou na escola: papelote, cigarro, comprimido, seringa.
  4. Se alguém oferecer alguma coisa estranha, dizer não e contar para você. Deixe claro que contar não é “dedurar” e que ela não vai levar bronca por isso.
  5. Ter uma pessoa de confiança na escola a quem recorrer se algo esquisito acontecer.

Na Bahia, algumas cenas pedem atenção especial. No São João, é comum o licor ser oferecido às crianças como se fosse doce. Na festa de largo e no Carnaval, a bebida está em toda parte, inclusive na televisão. O Estatuto da Criança e do Adolescente proíbe vender a criança ou adolescente bebida alcoólica e produtos que possam causar dependência (art. 81), e o art. 243 trata como crime vender, fornecer ou servir esses produtos a menores, mesmo de graça. Ter essa informação ajuda a sustentar o “não” diante do parente que insiste.

O que os adultos fazem também ensina. Se o tema da bebida em casa pesa para você, vale ler o que a criança aprende quando os pais bebem na frente dela.

O que costuma atrapalhar a conversa?

Algumas atitudes bem-intencionadas acabam fechando a porta:

  • Assustar. Fotos chocantes e histórias de terror geram medo, não compreensão, e o efeito some depressa.
  • Mentir ou exagerar. Dizer que “uma vez só mata” pode desmoronar quando a criança vir um adulto beber sem cair na hora. Aí ela deixa de confiar no resto.
  • Rotular. Usar “drogado” ou “cachaceiro” para falar de alguém ensina que quem tem o problema é ruim, e não doente. Se um dia alguém da família precisar de ajuda, a criança vai ter vergonha de contar.
  • Mudar de assunto. “Isso não é conversa de criança” ensina que ela deve perguntar para outra pessoa, geralmente um colega ou a internet.
  • Despejar tudo de uma vez. Uma conversa de cinco minutos, repetida, vale mais do que uma hora de explicação.

A escola pode ajudar com atividades em grupo que treinam habilidades sociais, mas não substitui a conversa de casa.

E quando a droga ou a bebida está dentro de casa?

Esta é a situação mais delicada, e aparece com frequência nas conversas com as famílias que nos procuram. Quando pai, mãe, irmão ou avô tem dependência, a criança percebe, mesmo que ninguém diga nada. O silêncio costuma fazê-la imaginar que a culpa é dela.

Uma associação americana de apoio a filhos de famílias com dependência, a NACoA, resume em frases simples o que a criança precisa ouvir: ela não causou o problema, não consegue controlá-lo nem resolvê-lo sozinha, e pode cuidar de si falando sobre o que sente e fazendo escolhas saudáveis. Dá para dizer algo como: “O papai tem uma doença que faz ele beber demais. Não é culpa sua. Os adultos estão cuidando disso, e você pode me contar sempre que ficar com medo ou triste.”

Para esse cenário há orientações próprias em filhos de pais com dependência, e o cuidado com a família inteira aparece em codependência: quando a família adoece junto.

Quando procurar ajuda profissional?

A conversa em casa é prevenção. Ela não substitui o cuidado de um profissional quando aparecem sinais como:

  • a criança encontrou, guardou ou experimentou bebida, cigarro, vape ou outra substância;
  • ela demonstra medo, tristeza persistente, ansiedade ou mudança forte de comportamento ligada ao uso de alguém da casa;
  • há violência, negligência ou uso de drogas perto dela;
  • ela conta que um adulto ou colega mais velho ofereceu alguma substância.

O pediatra, a unidade de saúde e a escola são bons primeiros passos. O SUS tem os Centros de Atenção Psicossocial, incluindo os CAPS voltados a crianças e adolescentes, que podem orientar a família. Em caso de violência ou negligência, o Conselho Tutelar do município deve ser acionado.

Se a criança engoliu remédio, bebida ou qualquer produto desconhecido, ou está sonolenta, confusa ou passando mal, não espere: procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).

Como podemos ajudar

O Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, conversa com famílias que querem proteger os filhos e cuidar de quem já tem dependência. Orientamos sobre conversas difíceis e caminhos de cuidado, com sigilo. Veja como apoiamos as famílias. Recebemos famílias de Lauro de Freitas e de toda a Bahia.

Em resumo

  • Com crianças de 6 a 10 anos, prevenção é falar de corpo, remédio, escolhas e confiança, não de nomes e efeitos de drogas.
  • Diretrizes do UNODC e da OMS colocam afeto, regras claras e acompanhamento da rotina entre os fatores que mais protegem.
  • Responda ao que a criança perguntou, com frases curtas, verdadeiras e sem susto.
  • Combine regras simples de segurança e diga que contar nunca rende bronca.
  • Se há dependência em casa, explique que a culpa não é dela e procure apoio para a família.

Para quando o seu filho crescer, o próximo passo está em como conversar com o filho adolescente sobre drogas.

Perguntas frequentes

Meu filho de 7 anos perguntou o que é droga. O que eu respondo?

Uma resposta curta e verdadeira basta: “é uma coisa que muda o jeito como o corpo e a cabeça funcionam e pode fazer muito mal”. Depois, pergunte onde ele ouviu a palavra. Quase sempre a dúvida vem de uma cena concreta, e é dela que vale falar.

Devo mostrar vídeos ou fotos fortes para a criança ter medo das drogas?

Não é uma boa ideia. Nessa idade, imagens chocantes costumam gerar medo e pesadelo, não compreensão, e o susto passa rápido. Funciona melhor uma conversa calma, repetida, ligada ao que a criança vive no dia a dia.

A criança viu alguém usando droga na rua. Como tocar no assunto?

Pergunte primeiro o que ela viu e o que sentiu, sem pressa. Explique que aquela pessoa está doente e precisa de ajuda, e que a criança fez bem em contar. Reforce a regra de segurança: não chegar perto, não pegar nada do chão e chamar um adulto.

Criança de 6 anos já consegue entender o que é vício?

Entende a ideia, se a explicação for simples. Dá para dizer que algumas coisas fazem o corpo “pedir mais” mesmo quando fazem mal, e que aí a pessoa precisa de médico e de ajuda para parar. O conceito completo vem com o tempo, em conversas que voltam ao assunto.

Meu filho chamou alguém de “drogado” ou “cachaceiro”. Devo corrigir?

Vale aproveitar a hora, sem bronca. Explique que a pessoa tem uma doença, que apelidos machucam e que ninguém melhora sendo xingado. É uma forma de ensinar respeito e de deixar claro que, se um dia alguém da família precisar de ajuda, ele pode falar sem vergonha.

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