Beber na frente dos filhos: o exemplo pesa mais que o sermão
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026
Beber na frente dos filhos ensina sobre álcool mais do que qualquer conversa. A criança aprende observando para que o adulto bebe, quanto bebe e como fica depois. Um copo eventual, com calma e sem mudança de comportamento, é bem diferente de beber para aliviar o estresse ou até ficar alterado. O exemplo de casa é a primeira aula de prevenção, para o bem ou para o mal.
Este texto não é para gerar culpa. Muitos pais só percebem o peso do próprio copo quando o filho repete uma frase ou um gesto.
O que a criança aprende vendo os pais beberem?
Antes de entender qualquer palavra sobre drogas, a criança já observa a rotina dos adultos e tira conclusões. Ela não decora regras: ela copia funções. Se a cerveja aparece sempre que o pai chega cansado, ela aprende que álcool serve para aguentar o dia. Se a festa só “começa” quando abrem a bebida, aprende que não existe alegria sem copo.
Por isso o sermão perde para o exemplo. Um discurso firme contra as drogas, dito com uma lata na mão, ensina a contradição. Os padrões internacionais de prevenção do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime e da Organização Mundial da Saúde (UNODC e OMS) colocam o fortalecimento do papel dos pais, com afeto, regras claras e atenção à rotina dos filhos, entre as estratégias de prevenção com respaldo em pesquisa.
Beber na frente dos filhos é sempre um problema?
Não necessariamente. O que pesa é o modo. A Organização Mundial da Saúde lembra que o álcool é uma substância psicoativa, capaz de causar dependência e ligada a muitas doenças, então não há motivo para tratá-lo como algo banal diante das crianças. Veja a diferença entre as cenas:
| O que a criança vê | O que ela tende a aprender |
|---|---|
| Um copo no almoço de domingo, sem mudança de humor | Bebida é coisa de adulto, com limite |
| “Hoje eu preciso de uma cerveja” depois de um dia ruim | Álcool resolve tristeza e cansaço |
| Adulto rindo de quem “deu PT” no churrasco | Ficar bêbado é engraçado e normal |
| Briga, grito ou choro depois da bebida | Casa insegura; medo do próprio pai ou mãe |
| Adulto que recusa bebida e ninguém insiste | Dizer não é possível e respeitado |
| Volta para casa dirigindo depois de beber | Regras de segurança valem só às vezes |
Muitas famílias nos perguntam se precisam virar abstêmias para dar exemplo. Não é isso que se pede. O que se pede é coerência: o que você fala sobre limite precisa aparecer no que você faz.
Quais atitudes pesam mais do que o copo?
Na Bahia, a bebida está em quase toda comemoração: churrasco de laje, barraca de praia, São João no interior, Carnaval em Salvador. Não dá para esconder o álcool do mundo da criança, mas dá para mostrar outro jeito de conviver com ele:
- Não usar a bebida como remédio emocional na frente dos filhos. Falar “estou nervoso, vou dar uma volta” ensina mais do que “vou tomar uma para relaxar”.
- Não fazer graça com bebedeira, nem a sua nem a dos outros.
- Não envolver a criança no ritual: buscar a cerveja, abrir a lata, “provar a espuma”.
- Mostrar que dá para se divertir sem copo, inclusive em festa.
- Nunca dirigir depois de beber, principalmente com os filhos no carro.
O que a lei diz sobre bebida e criança em casa?
O Estatuto da Criança e do Adolescente proíbe a venda de bebida alcoólica a menores de 18 anos (art. 81) e torna crime vender, fornecer, servir ou entregar bebida alcoólica a criança ou adolescente, mesmo de graça (art. 243). A lei não pune o adulto por beber em casa, mas deixa claro que o copo não pode chegar à mão do filho. Os detalhes estão em vender bebida para menor é crime?.
O que fazer a partir de hoje
- Observe uma semana do seu próprio consumo. Quando bebe, com quem, por que e como fica depois. Só anote, sem se julgar.
- Combine regras de casa com o outro adulto, como não beber em dia de semana ou não beber até ficar alterado diante das crianças.
- Converse com o filho de acordo com a idade. Para os pequenos, “bebida é de adulto e faz mal ao corpo de criança”. Para os maiores, fale de limite, pressão do grupo e por que você escolhe beber pouco. Veja ideias em como conversar com o filho sobre drogas.
- Reconheça excessos em voz alta quando acontecerem. Admitir um erro ensina responsabilidade.
- Aproveite o que a escola já faz. A prevenção funciona melhor quando casa e escola falam a mesma língua, como explicamos em prevenção às drogas na escola.
O NIAAA, instituto do governo dos EUA dedicado ao álcool, destaca que pais e responsáveis têm um papel importante para adiar e prevenir o consumo de bebida antes da idade adulta.
Quando o beber dos pais pede ajuda profissional?
Às vezes, a pergunta “estou dando mau exemplo?” esconde outra: “será que eu, ou meu companheiro, perdemos o controle?”. Procure avaliação quando:
- a bebida aparece quase todo dia ou só “fecha” o dia com ela;
- já tentou diminuir e não conseguiu;
- há brigas, agressividade, esquecimentos ou acidentes depois de beber;
- os filhos têm medo, se escondem ou cuidam do adulto alterado;
- surgem tremores, suor ou mal-estar quando fica sem beber. Parar de uma vez, sem médico, pode ser perigoso e pede avaliação médica.
Quando o problema está no outro adulto da casa, a família também adoece. Entenda esse processo em codependência: quando a família adoece junto. Grupos como o Al-Anon acolhem familiares de quem bebe.
Em risco imediato à vida, como intoxicação grave ou violência em casa, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).
Como podemos ajudar
No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, o tratamento para alcoolismo tem plano terapêutico individual, avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas e a família participando, com sigilo. Recebemos famílias de Salvador e de toda a Bahia.
Em resumo
- A criança aprende sobre álcool mais pelo que vê do que pelo que ouve.
- O que pesa é o motivo e o efeito: beber para aliviar o estresse ou até ficar alterado ensina muito.
- Não envolva a criança no ritual da bebida e nunca ofereça um gole; a lei proíbe fornecer álcool a menores.
- Reconhecer um exagero em voz alta também é exemplo.
- Se o próprio consumo saiu do controle, a melhor prevenção para os filhos é buscar ajuda.
Perguntas frequentes
Posso tomar uma taça de vinho no jantar com meu filho por perto?
Uma dose com calma, junto da comida, sem ficar alterado, passa uma mensagem bem diferente de beber até mudar de comportamento. O que a criança registra é o motivo e o efeito: se a bebida aparece como acompanhamento ou como remédio para o estresse. Se você está em dúvida sobre o próprio consumo, vale conversar com um profissional de saúde.
Meu filho pequeno pediu para provar a minha cerveja. O que eu respondo?
Responda com tranquilidade e sem rir da situação: “isso é bebida de adulto e faz mal para o corpo de criança”. Não ofereça nem um gole. Além do risco para a saúde, o Estatuto da Criança e do Adolescente proíbe fornecer bebida alcoólica a menores de 18 anos.
Pedir para o filho buscar uma cerveja na geladeira tem problema?
Parece pequeno, mas coloca a criança no papel de servir a bebida e normaliza o álcool como parte da rotina dela. O mais seguro é o adulto mesmo pegar a própria bebida e deixar a criança fora desse vai e vem.
Já bebi demais na frente dos meus filhos. Ainda dá para consertar?
Dá. Crianças entendem quando um adulto reconhece um erro com palavras simples, sem dramatizar. Dizer que exagerou, que aquilo não foi bom e mostrar mudança nos meses seguintes ensina mais do que fingir que nada aconteceu. Se os episódios se repetem, é sinal de procurar avaliação.
Meu marido bebe muito na frente das crianças. Como falar com ele?
Escolha um momento em que ele esteja sóbrio e fale do que as crianças viram, sem acusar o caráter dele. Proponha acordos concretos, como não beber em casa durante a semana. Se ele não consegue cumprir, pode ser dependência, e você também pode buscar apoio em grupos como o Al-Anon.
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