Filho fuma maconha e largou os estudos: por onde começar

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 20/10/2026

Se o seu filho fuma maconha e largou os estudos, comece pela saúde dele, não pela matrícula. O uso frequente mexe com a memória e a atenção, e é por aí que a escola vai ficando para trás. Primeiro uma avaliação, depois um combinado em casa, e só então o caminho de volta: a escola tem obrigação de receber, a lei garante educação de jovens e adultos e o Enem acontece todo ano.

A gente sabe como essa história chega: o cheiro no quarto, o boletim que some, o menino que dorme de dia e vive de noite. O pai grita, a mãe chora, ele some para a casa de um amigo.

O que a lei diz quando o filho fuma maconha e largou os estudos

Educação é um direito que não vence. A Lei de Diretrizes e Bases (Lei 9.394/1996) diz, no art. 37, que a educação de jovens e adultos é para quem não conseguiu estudar ou continuar os estudos na idade certa. E o art. 38 garante exames de certificação: a partir dos 15 anos para concluir o ensino fundamental e a partir dos 18 para o ensino médio. Ou seja, largar o colégio não fecha a porta. A porta só muda de lugar.

Se ele é menor de 18 anos, a família é responsável, mas não está sozinha. O Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/1990), no art. 4º, coloca a educação como dever da família, da comunidade, da sociedade e do poder público, juntos. Escola, posto de saúde e Conselho Tutelar existem para trazer o aluno de volta, não para apontar o dedo para a mãe.

Usar maconha não dá prisão, mas continua sendo problema. O art. 28 da Lei de Drogas (Lei 11.343/2006) prevê, para quem tem droga para uso próprio, advertência, serviço à comunidade e programa educativo. Em 2024, o Supremo Tribunal Federal fixou que até 40 gramas de maconha, ou seis plantas fêmeas, presume uso pessoal, não tráfico. Já quem fornece a droga, principalmente para adolescente, responde criminalmente. Veja o que mudou com a decisão do STF sobre o porte de maconha.

Por que a maconha e a escola não combinam?

O Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA (NIDA) reúne pesquisas que ligam o uso frequente e pesado de maconha na adolescência a prejuízos na memória, na velocidade de raciocínio e no desempenho escolar, com reflexo depois em escolaridade, emprego e renda na vida adulta.

Em casa isso aparece assim: ele lê a página e não lembra o que leu. Perde a hora da aula porque dormiu às quatro da manhã. Vai ficando para trás, e ficar para trás dá vergonha. A escola vira o lugar onde ele se sente burro, e a maconha, o lugar onde ele se sente bem. Largar os estudos, muitas vezes, é fugir dessa vergonha.

O mesmo instituto explica que cerca de três em cada dez pessoas que usam maconha podem desenvolver algum grau de dependência, e quem começa antes dos 18 anos tem de quatro a sete vezes mais chance do que quem começa adulto. Para entender se o uso do seu filho já virou dependência, leia o artigo maconha vicia?.

Ele largou porque fuma, ou fuma porque largou?

Quase sempre as duas coisas se alimentam. Um menino que já ia mal, que apanhava de apelido na sala ou que não via sentido no colégio encontra na maconha um jeito de desligar. E o uso tira o resto do fôlego para estudar. Por isso vale olhar o que veio antes:

  • Tristeza que não passa, isolamento, desânimo. Pode ser depressão por trás do uso, e isso tem tratamento. Veja quando a dependência vem junto com outro problema de saúde mental.
  • Problema na escola: reprovação, briga com professor, humilhação, medo de ir.
  • Um baque na vida: separação dos pais, morte de alguém próximo, mudança de cidade.
  • O grupo: o uso começou com os amigos e a turma inteira sumiu da aula junto.

O que fazer nas próximas duas semanas

Passo a passo, do jeito que orientamos as famílias que chegam até nós.

  1. Pare a guerra pela escola por alguns dias. Enquanto cada almoço vira sermão sobre o colégio, ele não ouve nada. A saúde vem primeiro.
  2. Marque uma avaliação de saúde. Pode ser no posto, no CAPS da cidade ou com médico particular. O CAPS AD atende quem tem problema com álcool e outras drogas, e o CAPS infantojuvenil atende crianças e adolescentes, de graça, pelo SUS. Se ele não quiser ir, vá você. A família também é atendida.
  3. Descubra onde a escola parou. Vá à secretaria e pergunte: ele está matriculado? Quantas faltas tem? Dá para repor? Leve o atestado ou o relatório do atendimento. Quando a família aparece, a escola tem com quem combinar a volta.
  4. Feche a torneira do dinheiro solto. Mesada, dinheiro de lanche e crédito no celular viram maconha fácil. Mantenha comida, passagem e roupa; corte o dinheiro na mão. Veja como dar dinheiro sem alimentar o uso.
  5. Combine uma coisa só, pequena, e cobre essa coisa. Não é “você vai voltar a estudar e parar de fumar”. É “você vai à consulta de terça comigo”.
  6. Escolha o caminho de volta com ele, não por ele. A tabela abaixo mostra as opções.
  7. Cuide de quem está cuidando. Veja os grupos de apoio para familiares.

Com uso diário, sumiço de casa, dívida com traficante ou agressividade, o tratamento pode precisar ser mais intenso. Entenda como funciona o tratamento da dependência química.

Qual é o caminho de volta para a escola, o Enem ou o trabalho?

Situação do seu filhoCaminho possívelOnde procurar
Menor de 18 anos, largou no meio do anoVolta à mesma escola com plano de reposição de faltas e conteúdoSecretaria da escola; Conselho Tutelar se a escola dificultar
Menor de 18, reprovou e não quer voltar à mesma turmaTransferência de escola ou de turno; a partir dos 15 anos, exame de certificação do fundamentalSecretaria municipal de educação
Maior de 18, sem o ensino médioEducação de jovens e adultos (EJA) à noite ou exame de certificação do ensino médioEscola estadual mais próxima com EJA
Maior de 18, com o ensino médio, parou de estudar para o EnemEnem no ano seguinte, com rotina leve de estudo e tratamento ao mesmo tempoInscrição anual do Enem; cursinhos populares
Não quer estudar agora, mas aceita trabalharEmprego ou curso profissional de dia e EJA à noite, mais adiantePosto do Sine (agência pública de emprego), CRAS (assistência social da prefeitura), cursos gratuitos da prefeitura

Quem passou por internação tem um passo a mais para organizar a volta; a gente explica em voltar a estudar depois da internação.

Como falar com ele sem ele bater a porta?

A conversa que funciona é curta e não tem plateia. Escolha um momento em que ele não esteja sob efeito da maconha nem tenha acabado de acordar.

  • Pergunta em vez de acusação. “O que mudou na escola para você parar de ir?” rende mais do que “Você jogou seu futuro fora”.
  • Reconheça o que está difícil. “Eu vi que você não dorme. Deve estar pesado acordar cedo.”
  • Diga o que você vai fazer, não o que ele tem de fazer. “Marquei uma consulta para terça. Eu vou com você.”
  • Uma regra clara por vez. “Dentro de casa não se fuma. Fora de casa eu não controlo, mas quero você vivo.”

O que fecha a conversa na hora: comparar com o primo que passou no vestibular, chamar de “vagabundo” ou “maconheiro”, ameaçar com rua. Ele já aprendeu a desligar disso.

Para a primeira conversa depois da descoberta, veja filho fumando maconha: o que fazer.

E quando ele tenta parar e fica insuportável?

Ele tentou largar e virou outra pessoa: irritado, sem dormir, brigando por nada. Isso tem nome e passa: é o corpo pedindo a droga. Uma revisão científica descreve que a abstinência de maconha traz irritação, ansiedade, insônia e perda de apetite, começa nos primeiros dias sem uso e tende a ir embora em cerca de duas semanas. Saber disso evita que a família leia a irritação como má vontade e desista no pior momento. Veja abstinência de maconha.

Quando procurar ajuda profissional com urgência

Procure avaliação médica logo, sem esperar a próxima conversa, se ele:

  • fala coisas sem sentido, desconfia de todo mundo ou ouve o que ninguém ouve;
  • passou a usar outras drogas ou está bebendo todo dia;
  • some de casa por dias ou tem dívida com quem vende;
  • fica agressivo com a mãe, o pai ou os irmãos;
  • parou de tomar banho, de comer e de sair do quarto.

A Lei 10.216/2001 diz que a internação só cabe quando os cuidados fora do hospital não dão conta, e que a involuntária depende de laudo médico. Leia internação involuntária: é legal?.

Se ele falar em não querer mais viver, ligue para o CVV pelo 188, 24 horas, de graça. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a avaliação psiquiátrica é presencial e o plano terapêutico é individual, com a família participando e sigilo sobre tudo. O Diretor Jurídico orienta os pais sobre escola, Conselho Tutelar e documentos. Pergunte se o serviço atende o perfil do seu filho. Recebemos famílias de Camaçari, de Salvador e de toda a Bahia.

Em resumo

  • A ordem certa é: avaliação de saúde, combinado em casa e, por último, matrícula.
  • O uso frequente de maconha prejudica memória e atenção, e é por aí que a escola escapa.
  • A lei garante educação de jovens e adultos e exames de certificação a partir dos 15 e dos 18 anos; o Enem acontece todo ano.
  • Uma regra pequena cumprida vale mais do que uma promessa grande quebrada.
  • Surto, agressividade, sumiço ou fala de morte são sinais de urgência: procure ajuda médica.

Perguntas frequentes

Meu filho é menor de idade e parou de ir à escola. A família pode ter problema com isso?

A lei coloca a educação como dever da família e também do poder público. Na prática, a escola costuma procurar os pais quando as faltas se acumulam e pode acionar o Conselho Tutelar. Isso não é para punir a família: é para trazer o aluno de volta. Quem chega antes, procurando a escola e contando o que está acontecendo, costuma encontrar mais apoio do que cobrança.

Ele precisa parar de fumar maconha antes de voltar a estudar?

O ideal é cuidar das duas coisas ao mesmo tempo. Esperar o uso acabar para só então pensar em escola pode deixar o filho parado por anos. Mas voltar à sala de aula fumando todo dia também não costuma dar certo, porque a atenção e a memória ficam prejudicadas. Comece pela avaliação de saúde e, com a equipe, combine o momento da volta.

Ele diz que vai trabalhar em vez de estudar. Devo aceitar?

Trabalho dá rotina, horário e dinheiro contado, e isso pode ajudar. Só não vale como troca para desistir do diploma. Dá para fazer os dois: emprego de dia e educação de jovens e adultos à noite, ou curso curto enquanto se prepara para o exame de certificação. O que não pode é o dinheiro do trabalho virar dinheiro de maconha sem ninguém olhar.

Ele largou o Enem no meio da preparação. Perdeu a chance?

Não. O Enem acontece todo ano, e ele pode se inscrever na próxima edição. O que ele precisa é de um plano que caiba na vida de agora: tratar o uso, recuperar o sono e a rotina e voltar ao estudo em doses pequenas. Muita gente faz a prova um ou dois anos depois do previsto e entra na faculdade do mesmo jeito.

Meu filho tem 19 anos, não estuda, não trabalha e fuma o dia todo. Posso internar contra a vontade?

Só com avaliação médica. A Lei 10.216/2001 só admite a internação quando os cuidados fora do hospital não dão conta, e a involuntária exige laudo de médico. Fumar e não estudar, sozinhos, não bastam. Se há sinais de surto, isolamento total, agressividade ou risco de vida, aí a avaliação é urgente e a internação pode ser o caminho.

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