Laborterapia: o trabalho dentro da comunidade terapêutica é tratamento ou exploração?
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026
Laborterapia é o uso de tarefas da vida diária como parte do tratamento: arrumar a cama, limpar o banheiro, ajudar na cozinha, cuidar da horta da casa. A Resolução CONAD nº 1/2015 permite essas atividades, desde que estejam no plano de cada pessoa, sejam supervisionadas pela equipe e nunca tenham caráter de castigo. Trabalho pesado, jornada exaustiva ou venda na rua não são tratamento.
O que é laborterapia, na prática?
A palavra junta “labor” (trabalho) e “terapia”. A ideia é simples: quem passou meses ou anos com a vida girando em torno do uso costuma ter perdido hábitos básicos, como acordar no horário, cuidar das próprias coisas, cumprir um combinado e dividir tarefas com outras pessoas.
Reaprender isso com acompanhamento é parte da recuperação. Uma louça lavada, por si, não trata a dependência. O que ajuda é o que vem junto: a rotina, a responsabilidade e a conversa com a equipe sobre como foi aquele dia. Por isso a norma não fala em “trabalho”, e sim em atividades de autocuidado e sociabilidade. Para entender onde isso se encaixa no conjunto, veja as etapas do tratamento da dependência química.
O que a Resolução CONAD permite?
A Resolução CONAD nº 1/2015 regula as comunidades terapêuticas. O art. 12 lista quatro tipos de atividade terapêutica: recreativas, de espiritualidade, de autocuidado e sociabilidade, e de capacitação e aprendizagem. O art. 15 descreve as de autocuidado, que existem exclusivamente para os atos da vida cotidiana:
- higiene pessoal;
- arrumação e limpeza dos próprios pertences, do quarto e do banheiro;
- participação no preparo das refeições e na limpeza da cozinha e do refeitório coletivos;
- participação na limpeza e organização de espaços comuns, como salas, jardins e hortas de consumo interno;
- participação na organização de eventos e programas da própria entidade.
O parágrafo único do mesmo artigo traz as duas travas mais importantes: essas atividades não podem ter caráter punitivo e devem ser supervisionadas por membros da equipe, que têm o papel de motivar e dar sentido terapêutico a elas.
O que é abuso, e quando vira crime?
O art. 16, § 1º, proíbe atividades em locais que exponham a pessoa a constrangimento ou vulnerabilidade, como vender produtos ou arrecadar dinheiro em vias públicas. E o § 2º diz que as atividades de capacitação podem seguir a lei do voluntariado, mas, se houver vínculo de emprego, aplica-se a legislação trabalhista.
No extremo, o art. 149 do Código Penal define como crime reduzir alguém a condição análoga à de escravo, seja por trabalhos forçados, jornada exaustiva, condições degradantes ou restrição da locomoção por dívida. A pena é de reclusão de dois a oito anos, além da pena pela violência. Um tratamento não muda essa regra.
| Faz parte do cuidado | É sinal de abuso |
|---|---|
| Arrumar a própria cama e o banheiro | Limpar sozinho a casa inteira, todos os dias |
| Revezar na cozinha e na louça | Cozinhar para todos, sem folga nem revezamento |
| Cuidar da horta que abastece a casa | Plantar ou produzir para a entidade vender |
| Ajudar a organizar um evento da casa | Vender rifas, doces ou produtos na rua |
| Tarefa combinada no plano, com a equipe por perto | Tarefa dada como castigo, ameaça ou “pagamento” |
| Oficina de capacitação com objetivo claro | Obra, reforma ou serviço em empresa ligada à entidade |
Como a família pode conferir?
Você não precisa desconfiar de tudo, nem aceitar tudo. Algumas perguntas simples ajudam, na visita ou na conversa com a equipe:
- Quais atividades estão no plano dele? A Lei de Drogas (art. 23-B) exige um plano individual. Veja o que é o PIA e o que a família pode pedir.
- Quem supervisiona as tarefas? A resposta deve ser um membro da equipe, não “os próprios internos”.
- Existe revezamento? As tarefas da casa devem ser divididas, não concentradas em quem “obedece mais”.
- Quanto tempo do dia vai para tarefas? Compare com o espaço para atendimento, grupo, lazer e descanso. A rotina de uma clínica de reabilitação mostra como esse equilíbrio costuma ser.
- Alguma tarefa já foi dada como punição? Ouça o seu familiar com calma e sem pressa de concluir. Nem toda queixa é abuso, porque arrumar a cama é chato para quase todo mundo no começo.
Quando é caso de denunciar?
Procure ajuda se o seu familiar relatar jornada longa e pesada, castigo em forma de serviço, venda na rua, trabalho em obra ou empresa, ou se ele não puder sair, falar com a família ou recusar a tarefa sem sofrer ameaça.
Perigo imediato: ligue 190. Para violações de direitos, o Disque 100 recebe denúncias, inclusive sem identificação. O passo a passo completo está em como denunciar uma clínica de reabilitação irregular.
Anote o que ouviu: datas, tipo de tarefa, horários, nomes de quem mandava. Isso ajuda o órgão que vai apurar.
Como podemos ajudar
No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, cada pessoa tem plano terapêutico individual, avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas e a família participando do processo, com sigilo. Conheça o tratamento para dependência química e o atendimento a famílias de Camaçari e região.
Em resumo
- Laborterapia são tarefas da vida diária usadas como parte do cuidado, não trabalho para a entidade.
- A Resolução CONAD permite autocuidado, cozinha coletiva, limpeza e horta de consumo interno.
- As tarefas precisam estar no plano, ter supervisão da equipe e nunca servir de castigo.
- Venda na rua é proibida; vínculo de emprego atrai a lei trabalhista.
- Jornada exaustiva, trabalho forçado ou condição degradante podem ser crime: 190 e Disque 100.
Perguntas frequentes
A laborterapia é obrigatória para o acolhido?
As atividades de cada pessoa precisam estar previstas no plano de atendimento dela, que o acolhido conhece e aceita ao entrar. Cuidar da própria cama, do banheiro e participar da rotina da casa costuma fazer parte do programa. O que não pode existir é tarefa usada como ameaça, castigo ou condição para ver a família.
O acolhido pode receber salário pelo trabalho dentro da comunidade terapêutica?
As tarefas de autocuidado não são emprego e não geram salário. Já as atividades de capacitação podem seguir a lei do voluntariado; se houver de fato vínculo de emprego, com subordinação e serviço para a entidade lucrar, a Resolução CONAD manda aplicar a legislação trabalhista.
Trabalhar em obra, roça ou empresa ligada à entidade é laborterapia?
Não é isso que a norma descreve. As tarefas de autocuidado servem à vida cotidiana da própria casa, como hortas de consumo interno, e não à produção para venda ou à construção de patrimônio da entidade. Serviço pesado, com jornada longa e sem objetivo no plano de tratamento, é sinal de alerta.
Ajudar a cozinhar para todos é exploração?
Por si só, não. A Resolução CONAD inclui a participação no preparo das refeições e na limpeza da cozinha coletiva entre as atividades de autocuidado e sociabilidade. Vira problema quando uma ou duas pessoas fazem tudo sozinhas, o dia inteiro, sem supervisão nem revezamento.
Como denunciar trabalho forçado em comunidade terapêutica?
Em perigo imediato, ligue 190. Fora disso, o Disque 100 recebe denúncias de violação de direitos humanos, inclusive sem identificação, e o Ministério Público pode ser procurado diretamente. Anote datas, tarefas e horários que o seu familiar relatou.
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