Minha filha usa drogas, o que eu faço: por onde começar
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 20/10/2026
Minha filha usa drogas, o que eu faço? Primeiro, respire: hoje você não precisa resolver tudo, só não piorar. Não brigue de madrugada, não vire o quarto dela de cabeça para baixo, não ligue para a família inteira. Anote o que viu, marque uma avaliação com profissional de saúde e, se ela for menor de idade, chame o pai dela para a mesma conversa.
O que vale para filho e filha, como a lei e os tipos de tratamento, está no guia para pais de filho dependente químico.
Muita mãe pesquisa isso no celular, escondida, com o coração na mão.
Minha filha usa drogas, o que eu faço nas primeiras horas?
A hora da descoberta não é hora de decidir nada. Você acabou de achar um papelote na bolsa, ou um comprimido estranho, ou ela chegou com o olho vermelho e a fala enrolada. O instinto é gritar, chorar, ameaçar. Segure. O que você fizer nessas horas vai definir se ela vai conversar com você depois ou se vai sumir de casa.
O que ajuda hoje:
- Guarde o que encontrou e anote data, hora e o que você viu. Isso serve para a avaliação médica, não para jogar na cara dela.
- Não revire a casa, não leia o celular dela às pressas. Se ela perceber, a porta fecha.
- Não conte para todo mundo. Escolha uma pessoa de confiança, só uma, para não carregar isso sozinha hoje.
- Não dê remédio para “acalmar”, nem chá, nem nada escondido na comida. É perigoso e pode virar crime.
- Se ela estiver muito alterada, não durma sem olhar como ela está: respiração, cor da pele, se responde quando chamada.
Se ela não acorda, respira fraco, tem convulsão ou fala em se matar: ligue 192 (SAMU) agora. Se ela estiver em sofrimento e quiser conversar com alguém, o CVV atende pelo 188, de graça, o dia inteiro.
O que a lei diz quando ela é menor e quando já é maior de idade
Essa é a primeira pergunta que muda tudo, e é a que menos aparece nas respostas que a gente vê por aí.
Se ela tem menos de 18 anos, você decide pelo tratamento dela. O Estatuto da Criança e do Adolescente diz que é dever da família garantir a saúde do adolescente e que ele tem direito a ser cuidado dentro da própria família (ECA, arts. 4º e 19). Na prática: você pode levá-la ao posto, ao CAPS, ao médico e, se for o caso, pedir internação, sempre com avaliação médica. Veja como internar filho menor de idade, que vale igual para a filha.
Se ela já fez 18 anos, a decisão de se tratar é dela. Você pode oferecer, insistir, colocar regras em casa, mas não pode obrigar, salvo em um caso: quando a situação é grave e ela se recusa. Aí a lei abre duas portas:
| Caminho | Quem pede | O que precisa | Onde está na lei |
|---|---|---|---|
| Internação voluntária | A própria filha | Ela assinar o pedido | Lei 10.216/2001, art. 6º |
| Internação involuntária | Família ou responsável | Laudo (papel assinado por médico) e aviso ao Ministério Público, o promotor, em 72 horas | Lei 10.216/2001, arts. 6º e 8º |
| Internação involuntária por droga | Família ou responsável | Laudo médico, só quando os outros tratamentos não deram certo; prazo máximo de 90 dias | Lei 11.343/2006, art. 23-A |
A internação sem a vontade dela é o último recurso, não o primeiro. Antes vem o posto, o CAPS, a conversa, o tratamento sem internar. E a internação involuntária não é “mandar prender”: ela pode sair quando o médico der alta ou quando um familiar pedir por escrito, e o Ministério Público fiscaliza.
Por que a história da filha é diferente da do filho
Quase tudo que se escreve é sobre “o filho”. A filha corre riscos que o irmão dela não corre, e a mãe precisa saber disso antes de agir.
O corpo dela sente mais. O instituto americano que estuda o álcool explica que, na mulher, a mesma quantidade de bebida chega mais forte ao sangue e os danos ao fígado e ao coração aparecem mais cedo. Se o problema dela é bebida, leia também sobre alcoolismo feminino.
Quem fornece pode ser alguém de dentro da vida dela. Acontece de a menina não comprar droga: ela ganha, de um namorado, de um rapaz mais velho, de um “amigo” da festa. Isso cria uma dívida que não é de dinheiro. Se for o seu caso, veja o que fazer quando a filha namora um usuário de drogas.
O risco de violência é maior. Alterada, longe de casa, com gente que ela mal conhece, a sua filha fica exposta a abuso. A Lei Maria da Penha protege a mulher de violência de namorado, marido ou parente, e o uso de droga não tira esse direito. O Ligue 180 orienta a família também.
A vergonha pesa mais. Em muita casa, o rapaz que “aprontou” é perdoado e a moça é julgada. Quando a filha sente isso, ela tende a esconder por mais tempo e a pedir ajuda mais tarde. Quanto menos você a tratar como “perdida”, mais cedo ela aceita ajuda.
Como conversar com ela sem que ela fuja de casa
A conversa certa acontece de dia, ela sóbria, você calma, sem plateia. Nem na mesa do almoço de domingo com a avó presente, nem às 3 da manhã quando ela chega.
Um roteiro simples, nas suas palavras:
- Comece pelo que você sente, não pelo que ela fez. “Eu tô com medo por você” abre a porta; “você virou o quê?” fecha.
- Diga o que você viu, sem adjetivo. “Achei isso na sua bolsa.” Sem “viciada”, sem “noia”, sem comparar com o primo.
- Pergunte e cale a boca. Deixe ela falar, mesmo que minta. Você vai ouvir mais do que imagina.
- Ofereça um próximo passo concreto. “Vamos juntas numa consulta, eu marco.” Não “você precisa se tratar”.
- Combine o que muda em casa. Dinheiro, chave, horário. Regra dita com calma, não ameaça no grito.
Se ela negar tudo, não force a confissão. A sua meta nessa conversa não é ela admitir; é ela saber que você sabe e que a porta está aberta. Para a hora em que a negação virar rotina, leia como lidar quando o dependente mente.
O que fazer nas próximas semanas, passo a passo
- Marque uma avaliação. No SUS, o caminho é o posto de saúde ou o CAPS AD, que atende álcool e drogas de graça, sem precisar de encaminhamento. Pergunte no posto qual CAPS cobre o seu município; em cidade menor, pode ser o de uma cidade vizinha. Veja como o CAPS AD funciona.
- Vá junto. Na primeira vez, ela dificilmente vai sozinha. Se ela recusar, vá você mesma: o CAPS orienta a família mesmo sem a filha presente.
- Feche a torneira do dinheiro com jeito. Não é castigo, é proteção. Veja por que dar dinheiro alimenta o uso.
- Olhe quem está em volta dela. Namorado, amiga nova, grupo da festa de largo, o pessoal do São João na casa de praia. Você não vai conseguir proibir, mas vai entender de onde vem.
- Cuide de você. Mãe que não dorme, não come e só vigia adoece junto, e a filha percebe. Isso tem nome e tem saída: leia sobre codependência, quando a família adoece junto.
- Se ela aceitar tratamento, aja no mesmo dia. A vontade de se tratar vem em janelas curtas. O instituto americano de pesquisa sobre drogas lembra que o tratamento funciona melhor quando começa cedo e dura o tempo necessário, e que a recaída faz parte do caminho, não é prova de que falhou.
Quando é emergência e quando é hora de internar
É emergência agora se ela está desacordada, com convulsão, respirando mal, muito agitada a ponto de se machucar, ou falando em tirar a própria vida. Nesses casos, 192 ou o pronto-socorro mais perto. Não espere passar.
É hora de pensar em internação quando o tratamento fora do hospital não deu conta: ela já passou pelo CAPS ou pelo médico, continua usando, está se colocando em risco (sumindo de casa, dormindo na rua, apanhando) e não aceita mais ajuda. Nessa hora, a decisão passa por um médico, não pela família sozinha. Nosso artigo sobre internação involuntária e a lei explica cada passo.
Não é hora de internar só porque você está exausta ou porque um parente disse que “tem que trancar”. Internar cedo demais, sem indicação, costuma dar em fuga e em mais distância entre vocês.
Como podemos ajudar
O Centro Terapêutico Amor em Cristo fica em Monte Gordo, Camaçari, e atende famílias de Salvador e de toda a Bahia. A equipe faz avaliação psiquiátrica presencial, monta um plano de tratamento só dela e mantém a família participando, com sigilo. Na internação involuntária, conduzimos a parte legal. Pergunte, no primeiro contato, se o serviço atende o perfil da sua filha; se não atender, indicamos o caminho. Conheça o tratamento para dependência química.
Em resumo
- Nas primeiras horas, não brigue, não revire, não espalhe: anote o que viu e marque uma avaliação.
- Menor de 18 anos: você decide o tratamento. Maior: a decisão é dela, salvo internação involuntária com laudo médico, pela Lei 10.216 e pelo art. 23-A da Lei de Drogas.
- A filha corre riscos que o filho não corre: corpo que sente mais, namorado que fornece, violência e vergonha maior.
- A conversa é de dia, ela sóbria, você calma, com um próximo passo concreto na mão.
- CAPS AD de graça, família orientada mesmo sem a filha, e cuidado com você para não adoecer junto.
Perguntas frequentes
Minha filha está grávida e continua usando. O que eu faço?
Procure o pré-natal no posto de saúde o quanto antes e conte para a equipe o que ela usa. A gestante com uso de droga precisa de acompanhamento médico mais perto, e o atendimento é sigiloso. Se ela se recusar a ir, o CAPS AD da cidade pode orientar a família sobre como aproximar. Não dê remédio nem chá por conta própria.
Ela diz que só usa de vez em quando, na festa. Isso já é vício?
Nem todo uso é dependência, mas só uma avaliação com profissional de saúde diz em que ponto ela está. Enquanto isso, olhe o que muda no dia a dia: falta na escola ou no trabalho, dinheiro sumindo, sono trocado, amigos novos que ninguém conhece. Quando o uso começa a custar coisas da vida dela, já é hora de procurar ajuda.
Devo contar para o pai dela, que mora em outra casa?
Se ela é menor de idade, o pai tem o mesmo dever de cuidar e vai precisar ser envolvido em qualquer decisão de tratamento. Se ela já é adulta, pense se ele vai ajudar ou atrapalhar. Em geral vale avisar quem pode somar e combinar antes uma fala só, para ela não ouvir uma coisa de cada lado.
Ela pode se tratar sem internar?
Pode, e na maioria das vezes o tratamento começa assim: consulta, acompanhamento no CAPS AD ou com psicólogo e psiquiatra, e a família participando. Internar só entra quando isso não deu conta e um médico indica. Pergunte sempre, no primeiro contato com qualquer serviço, se ele atende o perfil da sua filha.
Ela voltou de madrugada com marca de agressão e disse que caiu. O que eu faço?
Cuide primeiro do machucado, num posto ou pronto-socorro. Depois, com calma, pergunte de novo. Se a agressão veio de namorado ou de alguém da casa, a Lei Maria da Penha protege a sua filha mesmo que ela use droga, e o Ligue 180 orienta a família de graça, a qualquer hora.
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