Não durmo esperando meu filho chegar da rua: o que fazer
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 20/10/2026
Se você não dorme esperando seu filho chegar da rua, a primeira coisa que precisa ouvir é: ficar acordada não protege ele. Protege a sua angústia, não o seu filho. O que ajuda é outra coisa: uma regra combinada para a noite, um plano claro para quando ele sumir de verdade e você dormindo para aguentar o dia seguinte. É isso que este texto ensina, passo a passo.
Quem escreve essa frase no Google quase sempre está na cama, com o celular na mão, olhando a hora. Às vezes é o pai, a esposa ou a irmã.
Por que eu não durmo esperando meu filho chegar da rua?
Porque o seu corpo entendeu que a casa está em perigo. Toda vez que ele sai e demora, você fica em estado de alerta: ouve carro passar, portão bater, cachorro latir. O coração acelera com qualquer barulho. Isso não é fraqueza. É o que acontece com qualquer pessoa que vive meses ou anos esperando uma notícia ruim.
O problema é que esse alerta não desliga sozinho. Com o tempo, você passa a não dormir nem na noite em que ele está em casa. Começa a dor de cabeça, a pressão sobe, o estômago reclama, a paciência acaba. Um estudo feito com 435 familiares que cuidam de pessoas atendidas em CAPS, publicado na revista Archives of Clinical Psychiatry, da USP, mediu o peso que esse cuidado coloca na família. Quem cuidava de alguém com dependência de álcool ou drogas foi o grupo com a maior sobrecarga de todos, e as mulheres carregavam mais que os homens. Em casa, isso tem um nome simples: a mãe adoece junto. Esse adoecer junto é o que os profissionais chamam de codependência, e a gente explica melhor em codependência: quando a família adoece junto.
O que a sua noite em claro muda, na prática?
Vale fazer a conta com honestidade. O que acontece com ele enquanto você está acordada na sala?
- Se ele está usando num ponto do bairro, continua usando.
- Se ele está bem, numa festa ou na casa de alguém, continua bem.
- Se ele está em perigo, a sua vigília na janela não chega até lá.
E o que acontece com você?
- Você chega ao dia seguinte quebrada, sem conseguir trabalhar direito.
- Quando ele entra, às quatro da manhã, a conversa vira briga, porque ninguém discute bem sem dormir.
- A casa inteira passa a girar em torno do horário em que ele volta.
Ou seja: a noite em claro cobra de você e não entrega nada para ele. Isso não quer dizer que você não deve se importar. Quer dizer que o cuidado precisa mudar de forma.
Como fazer para dormir: a regra da noite
Não existe segredo. Existe uma combinação, feita de dia, com a cabeça fria, que tira você do papel de porteira da madrugada.
- Combine um horário e uma mensagem. Diga a ele, de dia: “A partir de meia-noite eu vou dormir. Se você não vier, me manda uma mensagem dizendo que está vivo. Eu não vou ligar.” Uma mensagem dele basta. Não precisa de explicação nem de endereço.
- Decida quem tem a chave. Se ele é adulto e tem chave, ele entra sozinho e você não precisa levantar. Se a regra da casa é que não entra alterado de madrugada, isso precisa estar combinado antes, e não gritado no portão às três da manhã. Veja em como colocar limites sem brigar.
- Tire o celular da cabeceira. Deixe no modo em que só a ligação dele passa. Se ele mandar a mensagem combinada, você vê de manhã. Se ele ligar, o telefone toca.
- Faça a mesma coisa toda noite. Tomar banho, apagar a luz, deitar na mesma hora. O corpo só aprende a dormir de novo com repetição.
- Não discuta na chegada. Se ele entrar alterado, a conversa fica para o dia seguinte, depois do café. Alterado, ele não ouve; sem dormir, você não fala direito.
- Divida o plantão. Se tem marido, outro filho ou uma irmã em casa, cada um fica responsável por uma noite. Nas outras, você dorme com a consciência tranquila de que alguém está atento.
Nas primeiras noites você vai acordar mesmo assim. É normal. Levante, beba água, volte para a cama sem olhar o celular. Com a regra firme, o corpo costuma ceder.
E quando ele some de verdade? O que a lei permite
Aqui mora o medo mais fundo: e se um dia ele não voltar? É justamente por isso que você precisa de um plano pronto, e não de uma vigília.
Primeiro: não existe regra de esperar 24 horas para procurar a polícia. A Lei 13.812/2019, que criou a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, diz no art. 3º que a busca é prioridade “com caráter de urgência”, e no art. 8º manda a autoridade registrar a comunicação imediatamente no cadastro nacional. Não importa a idade dele nem se ele saiu porque quis: para a lei (art. 2º), desaparecida é qualquer pessoa cujo paradeiro a família não conhece.
Na prática, a família combina um gatilho claro. Por exemplo: “Se ele passar dois dias sem mandar notícia e sem aparecer em nenhum lugar que a gente conhece, vamos à delegacia.” Com esse combinado, você não precisa decidir isso às três da manhã, com o coração na boca. O passo a passo completo, com os documentos para levar e a delegacia que atende em Salvador, está em familiar dependente químico sumiu: não precisa esperar 24 horas.
Segundo: a lei também abre um caminho quando ele não aceita tratamento e a situação está fora de controle. A Lei 10.216/2001 prevê, no art. 6º, a internação involuntária, pedida pela família e autorizada por laudo médico. Não é castigo nem é a família “mandando prender”. É uma avaliação médica que decide se o tratamento em casa ou no CAPS já não dá conta. Entenda os tipos em internação voluntária, involuntária e compulsória.
Se ele chegar passando mal, apagado, sem reagir, com dificuldade de respirar ou falando em tirar a própria vida, não espere amanhecer: ligue 192 (SAMU) ou leve à emergência mais próxima. Se for você que está no limite, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça, e também pelo site do CVV.
Como saber se é só preocupação ou se a família já adoeceu?
Preocupação toda mãe tem. O sinal de que passou do ponto é quando a sua vida inteira ficou presa na porta. Veja se reconhece alguma dessas cenas:
| Cena de casa | O que ela mostra |
|---|---|
| Você sabe de cor os horários dos ônibus da madrugada no seu bairro | A sua rotina é a dele |
| Vai até a esquina olhar, de camisola, mais de uma vez por noite | O corpo não aceita que você não controla isso |
| Deixa comida na mesa e a luz da cozinha acesa “para ele não se assustar” | Você cuida dele como criança pequena |
| Não aceita convite para dormir fora, nem na casa da sua mãe no interior | Ninguém mais pode ficar de vigia |
| Chora no banheiro para ninguém ver | O peso é só seu |
| Dá dinheiro para ele “não precisar sair” | A compra do sossego de uma noite custa o problema maior |
Se marcou três ou mais, você precisa de ajuda tanto quanto ele. Isso não é vergonha. É a família adoecendo junto, e tem tratamento. Sobre o dinheiro, em especial, vale ler dar dinheiro para o filho dependente: ajuda ou alimenta?.
Onde a mãe acha apoio na Bahia
Você não precisa carregar isso sozinha. Três caminhos gratuitos existem em quase toda cidade:
- Grupos de família. O Nar-Anon é para quem tem um parente que usa drogas; o Al-Anon, para quem convive com alguém que bebe. São reuniões gratuitas, sem inscrição, onde outras mães contam como voltaram a dormir. O site de cada um tem a lista de grupos, com cidade, dia e horário; procure o mais perto da sua casa. Veja também grupos de apoio para familiares.
- O posto de saúde. A Unidade Básica de Saúde do seu bairro atende você, e não só ele. Conte que não dorme há semanas e que cuida de um filho que usa drogas. Insônia, pressão alta e ansiedade têm tratamento pelo SUS.
- O CAPS AD. A família pode procurar o Centro de Atenção Psicossocial para álcool e drogas da sua cidade mesmo sem o filho querer ir. Lá há atendimento para familiares e orientação sobre o que fazer. Veja como funciona o CAPS AD.
Quando a noite em claro vira caso de procurar ajuda agora
Procure um serviço de saúde sem esperar quando:
- você não dorme há vários dias seguidos, mesmo nas noites em que ele está em casa;
- começou a tomar remédio para dormir ou a beber para apagar;
- não consegue comer, trabalhar ou cuidar dos outros filhos;
- já pensou que seria melhor não acordar.
Nesse último caso, ligue 188 agora. O CVV atende de madrugada, que é justamente a hora em que isso costuma apertar.
Como podemos ajudar
No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a família é atendida desde o primeiro contato, com orientação sobre internação involuntária, documentos e direitos pelo Diretor Jurídico, e o tratamento tem avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas, plano terapêutico individual e sigilo. Conheça o nosso espaço para famílias. Recebemos famílias de Camaçari, de Salvador e de toda a Bahia.
Em resumo
- Ficar acordada na janela não protege o seu filho; adoece você.
- Combine de dia uma regra para a noite: uma mensagem dele, um horário seu para dormir, a chave e o celular resolvidos.
- Não existe prazo de 24 horas: se ele sumir de verdade, a Lei 13.812/2019 manda a polícia registrar na hora.
- Quando ele não aceita tratamento e a situação sai do controle, a internação involuntária existe na Lei 10.216/2001 e depende de laudo médico.
- Nar-Anon, Al-Anon, posto de saúde e CAPS AD atendem a família de graça, mesmo sem o filho querer ir.
Perguntas frequentes
É errado eu conseguir dormir enquanto meu filho está na rua?
Não. Dormir não é abandonar. Você acordada na janela não muda o que acontece lá fora, e uma mãe sem dormir fica doente, briga mais e decide pior. Descansar é o que mantém você de pé para ajudar de verdade quando ele quiser tratamento.
Devo ficar ligando pra ele a noite toda?
Uma ligação ou uma mensagem basta. Depois disso, ligar vinte vezes só aumenta a sua angústia e, para ele, vira cobrança que ele aprende a ignorar. Combine de dia: uma mensagem sua, uma resposta dele. Se ele não responder e você perceber sinal de perigo, aí o caminho é a polícia, não o telefone.
Posso tomar calmante por conta própria pra conseguir dormir?
Não. Remédio para dormir só com receita e acompanhamento médico. Tomar sobra de receita de outra pessoa é perigoso, e misturar com bebida é pior ainda. Se você não dorme há dias, marque consulta no posto de saúde e conte que cuida de alguém que usa drogas.
Meu marido dorme tranquilo e eu fico acordada. Isso é normal?
Acontece em muitas casas: um dos dois vira o vigia da noite e o outro se desliga para aguentar. Não quer dizer que ele não se importa. O que ajuda é dividir: uma noite cada um fica de “plantão” e o outro dorme, ou os dois combinam que ninguém fica acordado e o portão fica trancado com a chave do filho do lado de fora.
Isso que eu sinto de madrugada tem nome?
Quando a vida inteira da família passa a girar em torno do filho que usa, a gente chama de codependência, que é a família adoecendo junto. A noite em claro é um dos sinais mais comuns. Tem tratamento e tem grupo de apoio gratuito, como o Nar-Anon e o Al-Anon.
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