Técnica da onda para a fissura: atravessar a vontade de 5 em 5 minutos
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 20/10/2026
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A técnica da onda ensina a atravessar a fissura sem lutar contra ela. Na aula 3 do Papo de Recuperação, o terapeuta Vinícius explica que a vontade de usar não sobe para sempre até explodir: ela vem como onda, cresce, chega a um pico, quebra e desce. Quem aprende a esperar o pico passar, de 5 em 5 minutos, ganha a primeira batalha.
Este artigo resume o episódio para quem prefere ler e para a família que quer entender o que a pessoa sente nos primeiros dias.
O que é a fissura, em linguagem simples
O episódio usa a imagem de um termostato do prazer. Com o uso constante, o cérebro se acostumou a funcionar com a substância. Quando ela falta, ele estranha e grita, como se a pessoa fosse passar mal sem ela. É um alarme falso: o alarme toca, mas não há incêndio.
A primeira coisa que o terapeuta pede é parar e perceber: você está sem usar e continua aqui. O pensamento pode até vir, mas a pessoa não é o pensamento.
A técnica da onda, passo a passo
A ideia de "surfar" a vontade em vez de brigar com ela foi estudada por pesquisadores de prevenção de recaída. Num estudo com fumantes, uma instrução curta para observar a vontade como onda reduziu o quanto a vontade levava ao cigarro (Bowen e Marlatt, 2009). O episódio adapta a técnica para o dia a dia:
- Dar nome. Dizer em voz alta: "eu estou sentindo uma fissura agora". Nomear deixa o problema menor e mais concreto.
- Observar no corpo. Onde ela aparece? Aperto no peito, mão suada, inquietação. Não brigar, só observar, como quem vê a onda chegando.
- Respirar. Inspirar em 4 segundos, segurar 4, soltar em 6. Repetir algumas vezes. O corpo acalma e a cabeça volta ao comando.
- Esperar o pico. A onda sobe e depois desce. O trabalho é não agir enquanto ela está no alto.
A meta dos 5 minutos
O pensamento que mais derruba no começo é "como vou viver o resto da vida sem usar?". O episódio corta essa pergunta: ninguém precisa viver o resto da vida hoje.
Quando a vontade vier forte, a pessoa faz um trato: não vou usar nos próximos 5 minutos. Nesses 5 minutos, bebe um copo d'água gelada, respira, muda de lugar. Acabou, renova por mais 5. É uma meta que todo mundo consegue cumprir, e várias metas de 5 minutos seguidas atravessam o pico.
Não ficar sozinho com a vontade
O terapeuta compara a mente em abstinência a um bairro perigoso onde não se deve andar sozinho. A orientação é ligar para alguém: mãe, pai, irmão, um amigo que não usa, o terapeuta. "Dor compartilhada é dor diminuída."
A tarefa da aula é escrever um cartão de emergência com três nomes e telefones de pessoas para chamar quando a onda ficar alta demais, e deixar esse cartão à vista.
Fome, raiva, solidão e cansaço
O episódio lembra uma lista que os grupos de ajuda mútua usam muito: fome, raiva, solidão e cansaço. Nesses quatro estados a resistência cai, e muitas vezes a pessoa confunde fome ou exaustão com vontade de usar. Antes de qualquer decisão: comer alguma coisa, descansar, ligar para alguém. Muitas vezes a vontade diminui junto.
Os estudos de prevenção de recaída descrevem o mesmo: estados emocionais negativos e situações de estresse estão entre os momentos de maior risco, e a pessoa se protege quando tem um plano pronto para eles (Hendershot e colaboradores, 2011).
Quando é emergência
A técnica serve para a vontade, não para a abstinência física grave. Tremor forte, suor intenso, confusão, alucinação ou convulsão pedem avaliação médica imediata: ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro. Em quem bebe muito, parar de uma vez pode ser perigoso, por isso a parada precisa de acompanhamento. Se houver pensamento de suicídio, ligue 188 (CVV).
Como a família pode ajudar
- Ser um dos nomes do cartão. Atender sem sermão quando a pessoa ligar no pico da vontade.
- Ajudar com o básico. Comida pronta, descanso, companhia nas horas mais difíceis.
- Não cobrar o passado na hora da onda. O momento é de atravessar, não de discutir.
O que fazer antes da vontade, tirando os gatilhos de perto, está em limpar a casa para parar de usar droga. E o guia completo sobre a vontade de usar está em fissura: como lidar com a vontade de usar.
Como podemos ajudar
O Papo de Recuperação é o podcast do Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari. No centro, quem chega passa por avaliação psiquiátrica presencial, com enfermagem 24 horas e plano terapêutico individual, e a família participa, com sigilo. Para conversar sobre o seu caso, fale com a equipe pelo WhatsApp.
Em resumo
- A fissura vem como onda: sobe, chega ao pico e desce.
- Quatro passos: dar nome, observar no corpo, respirar e esperar o pico.
- Meta dos 5 minutos: não usar agora, e renovar o trato.
- Fome, raiva, solidão e cansaço aumentam a vontade. Cuide deles antes de decidir.
- Tremor forte, confusão ou convulsão é emergência: 192.
Perguntas frequentes
A fissura passa sozinha?
A vontade costuma vir em onda: sobe, chega a um pico e depois cai, mesmo sem usar. O tempo varia de pessoa para pessoa. A técnica serve para atravessar o pico sem agir, sabendo que ele não dura para sempre.
O que é a meta dos 5 minutos?
Em vez de pensar em nunca mais usar, a pessoa combina consigo mesma não usar nos próximos 5 minutos. Bebe um copo d'água, respira, liga para alguém. Quando os 5 minutos acabam, renova por mais 5.
Por que fome e cansaço aumentam a vontade?
Fome, raiva, solidão e cansaço baixam a resistência e muitas vezes são confundidos com vontade de usar. Antes de decidir qualquer coisa, vale comer, descansar ou falar com alguém e ver se a vontade diminui.
Respirar fundo ajuda mesmo?
Ajuda a atravessar o pico. O episódio ensina inspirar em 4 segundos, segurar 4 e soltar em 6. A respiração lenta acalma o corpo e dá tempo para a parte do cérebro que decide voltar ao comando.
E se a vontade vier com tremor, suor forte ou confusão?
Aí não é só vontade, pode ser abstinência e precisa de avaliação médica. Parar de beber de uma vez, em quem bebe muito, pode ser perigoso. Em sinal de convulsão, confusão ou alucinação, ligue 192 ou vá ao pronto-socorro.
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