Fissura: o que é e como atravessar a vontade de usar

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 18/10/2026

Fissura é a vontade intensa, às vezes quase física, de usar álcool ou drogas. Ela é uma das marcas da dependência: o cérebro aprendeu a associar a substância a alívio e recompensa, e "pede" por ela diante de certos gatilhos. A notícia mais importante é que a fissura vem em ondas — cresce, chega a um pico e passa, mesmo sem usar. Saber disso e ter um plano para os minutos mais difíceis é o que separa a vontade da recaída.

Por que a fissura acontece

Com o uso repetido, o cérebro passa a tratar a substância como uma prioridade e grava as situações ligadas a ela: o lugar, a hora, as pessoas, o cheiro, a emoção. Depois, basta um desses sinais para disparar a vontade — mesmo meses depois de parar. O Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA (NIDA) descreve essas mudanças nos circuitos de recompensa, estresse e autocontrole como parte do que torna a dependência uma condição crônica. Entenda o quadro em por que a dependência química é considerada doença.

Os gatilhos mais comuns

TipoExemplos
LugaresO bar, a esquina, o caminho de casa que passava pelo ponto
PessoasAmigos da época do uso, quem vendia, quem usava junto
EmoçõesRaiva, tristeza, ansiedade, solidão — e também euforia e comemoração
CorpoCansaço, fome, insônia, dor
SituaçõesDia de pagamento, festa, briga, sexta-feira à noite, futebol
SentidosCheiro, música, uma garrafa, uma nota de dinheiro enrolada

Conhecer os próprios gatilhos é o primeiro passo. Ajuda anotar, por algumas semanas, quando a vontade aparece e o que estava acontecendo.

Como atravessar a fissura: técnicas práticas

  1. Dê nome ao que está sentindo. "É fissura. Vai passar." Reconhecer tira parte da força.
  2. Espere a onda. A vontade sobe, chega ao pico e desce. Combine consigo esperar 15 minutos antes de qualquer decisão — e depois mais 15.
  3. Saia do lugar. Se o gatilho é o ambiente, mude de ambiente: outro cômodo, uma caminhada, a casa de alguém de confiança.
  4. Ligue para alguém. Um padrinho do grupo, um familiar, a equipe que acompanha. Falar em voz alta diminui a urgência.
  5. Ocupe o corpo. Banho frio, exercício, arrumar algo, cozinhar. Atividade física ajuda a baixar a ansiedade.
  6. Lembre do "filme inteiro". A fissura mostra só o começo do uso. Lembre do resto: a ressaca, a culpa, as brigas, o dinheiro, a vergonha.
  7. Cuide do básico. Fome, sono e cansaço aumentam a fissura. Comer e descansar não é detalhe.
  8. Afaste o acesso. Não guarde dinheiro sobrando, apague contatos de quem vende, evite os lugares de risco nos primeiros meses.

O papel da família

  • Não trate a fissura como fracasso. Ela é esperada. Pergunte "o que está te ajudando?" em vez de "você está com vontade de novo?".
  • Esteja disponível para uma ligação, uma caminhada, uma conversa naquele momento.
  • Ajude a proteger o ambiente: sem bebida em casa, dinheiro sob controle combinado.
  • Reconheça as vitórias. Cada fissura atravessada é um avanço.

Quando procurar ajuda

Se a fissura está levando a recaídas frequentes, se vem com tristeza profunda, ansiedade intensa ou falas sobre não querer viver, é hora de rever o tratamento com um profissional. Veja o que fazer numa recaída e como funciona o tratamento da dependência química, etapa por etapa.

Se surgirem falas sobre não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188. Em risco imediato, ligue 192 (SAMU).

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, o plano terapêutico individual inclui o trabalho com gatilhos e fissura, com atendimento psicológico, grupos e a família participando, e um plano de prevenção de recaída para a alta. Conheça o tratamento para dependência química. Atendemos famílias de Dias d'Ávila, Salvador e de toda a Bahia.

Em resumo

  • Fissura é a vontade intensa de usar, disparada por gatilhos.
  • Ela vem em ondas e passa, mesmo sem usar.
  • Esperar a onda, mudar de lugar, ligar para alguém e ocupar o corpo ajudam a atravessá-la.
  • Fome, sono e cansaço aumentam a fissura.
  • Fissura não é fracasso; recaídas frequentes pedem revisão do tratamento.

Perguntas frequentes

Quanto tempo dura uma fissura?

Cada onda de fissura costuma durar minutos, crescer, atingir um pico e diminuir, mesmo sem usar. Ao longo da recuperação, as ondas tendem a ficar menos frequentes e mais fracas.

Ter fissura significa que o tratamento não está funcionando?

Não. A fissura é esperada na recuperação, principalmente nos primeiros meses. O que muda com o tratamento é a capacidade de atravessá-la sem usar.

A fissura pode aparecer anos depois de parar?

Pode, geralmente diante de gatilhos fortes, como lugares, pessoas, cheiros ou emoções ligadas à época do uso. Por isso o plano contra recaída continua valendo mesmo depois de muito tempo.

Existe remédio para fissura?

Para algumas substâncias, como o álcool, há medicamentos que podem ajudar a reduzir a vontade de beber, sempre com prescrição e acompanhamento médico. Para outras, o tratamento se apoia principalmente em terapia e estratégias práticas.

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