Arteterapia na dependência química: o que é e o que acontece numa oficina
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026
A arteterapia na dependência química usa desenho, pintura, colagem, argila, música e movimento para ajudar a pessoa a expressar o que ainda não consegue dizer em palavras. Não é aula de artes e não exige talento. É uma prática complementar, reconhecida pelo SUS, que acompanha o tratamento e abre espaço para emoções que o uso costumava calar.
O que é arteterapia, em palavras simples?
Na Portaria nº 849/2017, o Ministério da Saúde incluiu a arteterapia na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares do SUS. O texto a descreve como uma prática que usa a arte como base do processo terapêutico, com técnicas como pintura, desenho, sons, música, modelagem, colagem e expressão corporal, feita em grupo ou individualmente.
A ideia central é que o próprio ato de criar já faz bem. Quem passou anos “resolvendo” raiva, tristeza ou vergonha com álcool e drogas muitas vezes não tem vocabulário para esses sentimentos. Com tinta ou argila na mão, o que estava travado às vezes aparece primeiro na forma, e só depois na fala.
Por que a arteterapia na dependência química faz sentido?
O tratamento da dependência não é uma coisa só. O NIDA, instituto de pesquisa sobre drogas dos EUA, explica que o tratamento precisa cuidar da pessoa inteira, e não apenas do uso, combinando acompanhamento médico, terapias de comportamento e apoio. A arte entra nesse conjunto por alguns caminhos:
- Expressão sem pressão: quem trava no grupo de conversa consegue mostrar um desenho e falar sobre ele.
- Atenção no presente: concentrar-se numa colagem por meia hora é treino de foco, útil para atravessar a vontade de usar.
- Prazer sem substância: redescobrir que algo pode dar satisfação sem álcool ou droga.
- Convivência: criar lado a lado aproxima pessoas que mal se olhavam.
Para conhecer as outras partes do processo, veja as etapas do tratamento da dependência química.
O que acontece numa oficina de arteterapia?
Cada profissional conduz do seu jeito, mas uma oficina costuma seguir um roteiro parecido com este:
- Chegada e acolhimento. Uma conversa curta sobre como cada um está naquele dia.
- A proposta. O condutor sugere um tema aberto, como “o lugar onde você se sente seguro” ou “como era um domingo antes e como você quer que seja depois”.
- O fazer. Cada participante escolhe o material: lápis, revista para recortar, argila, tambor. Pode haver silêncio, música baixa ou conversa leve.
- A partilha. Quem quiser mostra o que fez e conta o que sentiu. Ninguém é obrigado, e ninguém interpreta o trabalho do outro com julgamento.
- O fechamento. O profissional ajuda a ligar o que surgiu ao momento do tratamento, e o tema pode voltar no atendimento individual.
Na Bahia, onde samba de roda, percussão e capoeira fazem parte da vida de muita gente, ritmo e corpo costumam ser uma porta de entrada natural para quem acha que “não sabe desenhar”. Esse momento conversa bem com a terapia de grupo na dependência química e com a rotina de uma clínica de reabilitação.
Que direitos a pessoa tem nas atividades?
A Lei nº 10.216/2001, no art. 2º, garante à pessoa em tratamento de saúde mental ser tratada com humanidade e respeito, ter sigilo sobre as informações que presta e ser tratada pelos meios menos invasivos possíveis. Na prática, isso significa que a oficina é convite, não castigo, e que o que a pessoa produz ali faz parte da sua intimidade.
Há também a proteção de dados. A LGPD trata a informação sobre saúde como dado pessoal sensível. Uma pintura com o nome do autor, feita durante a internação e postada nas redes, pode expor a condição de saúde dele. Foto de trabalho, só com autorização de quem fez.
Como a família pode apoiar a arteterapia?
Uma dúvida que chega muito à nossa equipe: “ele me mostrou um desenho na visita, o que eu falo?”. Algumas orientações práticas:
- Pergunte sobre o processo, não sobre a qualidade. “O que você sentiu fazendo isso?” abre conversa. “Ficou lindo” ou “o que é isso?” costumam fechar.
- Não interprete. Cor escura não quer dizer recaída e desenho alegre não quer dizer cura. Quem lê o trabalho é a equipe, junto com a pessoa.
- Guarde com cuidado o que ele der. Para muita gente é a primeira coisa feita com as próprias mãos em anos.
- Leve a ideia para casa depois da alta. Uma atividade manual ou musical pode ajudar a ocupar as horas que antes eram do uso, como explicamos em tédio e tempo livre na recuperação.
Para outras ideias de como conversar nos encontros, veja o que falar na visita durante a internação.
Quando procurar ajuda profissional?
A arteterapia apoia o tratamento, mas não dá conta de situações que pedem avaliação médica. Procure a equipe de saúde quando:
- o uso continua ou voltou, mesmo com a pessoa participando de oficinas e grupos;
- surgem tristeza profunda, isolamento, insônia persistente ou ansiedade forte;
- a pessoa usa álcool ou calmantes em grande quantidade: parar de repente, sem médico, pode ser perigoso;
- vocês procuram tratamento pelo SUS: o CAPS AD é a porta de entrada e pode informar se o município oferece oficinas terapêuticas.
Se surgirem falas sobre não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).
Como podemos ajudar
No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, cada pessoa tem um plano terapêutico individual, com avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas e a família participando, sempre com sigilo. Pergunte à equipe quais atividades fazem parte da rotina e como elas se ligam ao plano. Conheça o tratamento para dependência química.
Em resumo
- Arteterapia usa a arte como meio terapêutico, não como aula, e não exige talento.
- Faz parte das práticas integrativas e complementares do SUS desde 2017.
- Na dependência química, ajuda a expressar emoções, treinar foco e conviver, sempre ao lado do tratamento.
- Uma oficina costuma ter acolhimento, proposta, criação, partilha e fechamento.
- A família apoia perguntando pelo processo, sem interpretar, e protegendo a privacidade do que foi feito.
Perguntas frequentes
Precisa saber desenhar para fazer arteterapia?
Não. Ninguém avalia se o trabalho ficou bonito. O que importa é o que a pessoa percebe e consegue dizer enquanto faz, e muita gente que jura não ter jeito para arte participa bem.
Arteterapia é o mesmo que aula de artes ou artesanato?
Não. Numa aula, o foco é aprender uma técnica e caprichar no resultado. Na arteterapia, o material é só o meio: a atividade tem objetivo terapêutico, é conduzida por um profissional e termina com uma conversa sobre o processo.
A arteterapia sozinha trata a dependência química?
Não. Ela entra como prática complementar, ao lado do acompanhamento médico e psicológico, dos grupos e do trabalho com a família. Ajuda a pessoa a se expressar e a participar, mas não substitui o tratamento.
Tem arteterapia de graça na Bahia?
A arteterapia faz parte das práticas integrativas reconhecidas pelo SUS desde 2017, mas a oferta depende de cada município e serviço. Vale perguntar no CAPS AD ou na unidade de saúde da sua cidade se há oficinas terapêuticas.
Posso postar nas redes o desenho que meu familiar fez na internação?
Só com a autorização dele. O trabalho pode revelar sentimentos e a própria condição de saúde, que é um dado sensível pela LGPD. Na dúvida, guarde para vocês e converse antes.
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