Autoestima na recuperação: reconstruir a imagem de si depois do uso

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026

Autoestima na recuperação é a imagem que a pessoa vai reconstruindo de si depois do uso: a de alguém que tem valor, erra, cumpre combinados e consegue cuidar da própria vida. Ela não volta com frases de motivação. Volta com atos pequenos e repetidos, com tratamento e com uma família que reconhece o esforço sem fingir que nada aconteceu.

Por que a autoestima desaba durante o uso?

Durante a dependência, a pessoa costuma quebrar promessas, mentir, faltar ao trabalho, gastar o que não podia e ferir quem ama. Cada episódio deixa uma marca. Com o tempo, ela deixa de pensar “eu fiz algo errado” e passa a pensar “eu sou um erro”.

O Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA (NIDA) descreve esse movimento como autoestigma: a pessoa adota contra si mesma as atitudes negativas que a sociedade tem sobre o uso de drogas. O mesmo órgão alerta que a vergonha e o isolamento podem reforçar a busca pela droga. É um círculo: a pessoa usa, sente vergonha, se afasta de todos e volta a usar para não sentir.

Por isso a autoestima não é um detalhe “para depois”. Ela faz parte da prevenção de recaída, ao lado dos cuidados que mostramos em como cada etapa do tratamento da dependência química funciona.

Culpa, vergonha e autoestima: qual a diferença?

Separar essas três coisas ajuda a saber onde mexer.

O que éComo soa por dentroPara onde costuma levar
Culpa“Eu fiz uma coisa que machucou alguém.”Pode levar a reparar o dano, se for bem conduzida
Vergonha“Eu sou ruim, não presto.”Esconder-se, mentir, desistir
Autoestima saudável“Eu errei, tenho valor e posso fazer diferente.”Assumir a responsabilidade sem se destruir

A culpa, quando tem medida, é útil: mostra o que precisa ser consertado. A vergonha, ao contrário, paralisa. O objetivo do tratamento não é apagar o passado, e sim trocar a vergonha por responsabilidade.

Quais sinais mostram que a autoestima ainda está ferida?

Na conversa com as famílias, alguns sinais aparecem com frequência em quem já parou de usar, mas ainda não se reconciliou consigo:

  • recusa elogios ou desconfia de qualquer gesto de carinho;
  • fala de si com rótulos (“eu sou um caso perdido”, “ninguém confia em viciado”);
  • evita olhar nos olhos de parentes e deixa de ir ao culto, à feira ou à roda de amigos por medo do que vão dizer;
  • desiste de tarefas na primeira dificuldade, como entregar um currículo ou voltar a estudar;
  • oscila entre se culpar por tudo e se achar “curado”, invencível.

Esse último ponto merece atenção: a confiança exagerada também é sinal de uma autoestima frágil, e costuma vir antes do abandono do tratamento.

Como reconstruir a autoestima na recuperação, passo a passo

Este é um roteiro que pode ser feito em casa, de preferência alinhado com quem acompanha o tratamento.

  1. Troque o rótulo pelo fato. Em vez de “sou um fracasso”, escreva “eu menti para minha mãe em março”. Fato tem começo, meio e fim; rótulo é para sempre. A terapia cognitivo-comportamental trabalha exatamente essa leitura dos próprios pensamentos e o treino de novas respostas, como mostra uma revisão publicada na Psychiatric Clinics of North America.
  2. Escolha um combinado pequeno por dia e cumpra. Arrumar a cama, chegar no horário, ligar para alguém. Autoestima vem de provas, e provas pequenas contam.
  3. Anote à noite três coisas que você fez bem. Coisas concretas, por menores que pareçam. Releia no fim da semana.
  4. Repare um dano de cada vez. Uma dívida combinada, um pedido de desculpas sem promessas exageradas. Veja como fazer isso com calma em como reconquistar a confiança da família.
  5. Cuide do corpo. Sono, comida no horário, banho de sol, caminhada. Quem se cuida passa a se ver como alguém que merece cuidado.
  6. Ocupe um lugar onde você é útil. Ajudar em casa, servir café no grupo, voltar ao trabalho. Grupos como Narcóticos Anônimos e Alcoólicos Anônimos têm reuniões gratuitas, e ali muita gente encontra um primeiro papel.
  7. Revise o plano com a equipe a cada mês. O que melhorou, o que ainda dói, o que precisa mudar.

O que a família pode fazer (e o que evitar)?

Uma dúvida que chega muito à nossa equipe: “se eu mostrar que ainda estou magoada, vou derrubar a autoestima dele?”. Não é preciso fingir. Dá para ser honesto sobre a dor e, ao mesmo tempo, reconhecer o esforço.

O que costuma ajudar:

O que costuma atrapalhar:

  • relembrar o passado em toda briga;
  • vigiar tudo como se a pessoa fosse incapaz de qualquer escolha;
  • comparar com irmãos, primos ou vizinhos;
  • tratar uma recaída como prova de que “nunca vai mudar”. O NIDA lembra que a recaída indica a necessidade de retomar ou ajustar o tratamento, não que ele falhou.

O que a lei diz sobre dignidade de quem está em tratamento?

Autoestima também depende de como o mundo trata a pessoa, e aqui a lei ajuda. A Lei nº 10.216/2001, no art. 2º, parágrafo único, garante à pessoa com transtorno mental, o que inclui a dependência química, o direito de ser tratada com humanidade e respeito, de ser protegida contra abuso e exploração e de ter sigilo sobre as informações que presta. Tratamento que humilha, expõe ou ridiculariza vai contra a lei.

No trabalho, a Lei nº 9.029/1995 proíbe práticas discriminatórias para o acesso e a manutenção do emprego. O Tribunal Superior do Trabalho já mandou reintegrar um trabalhador com alcoolismo por considerar a dispensa discriminatória. Cada caso tem suas particularidades, mas saber disso ajuda quem tem medo de voltar ao emprego. Veja mais em voltar a trabalhar depois do tratamento.

Quando procurar ajuda profissional?

Procure a equipe de saúde quando:

  • a vergonha impede a pessoa de sair de casa, trabalhar ou ir ao grupo;
  • a tristeza dura semanas, com perda de interesse, choro frequente ou insônia;
  • aparecem frases como “seria melhor eu sumir” ou “eu só atrapalho”;
  • a vontade de usar volta forte sempre que a pessoa se sente humilhada ou rejeitada.

No SUS, os CAPS, incluindo os CAPS AD, atendem gratuitamente. Veja como funciona o CAPS AD.

Se surgirem falas sobre não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, o plano terapêutico individual trabalha a culpa, a vergonha e a reconstrução da rotina, com avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas e a família participando, sempre com sigilo. Conheça o tratamento para dependência química. Recebemos famílias de Camaçari e de toda a Bahia.

Em resumo

  • O uso costuma corroer a imagem que a pessoa tem de si, e a vergonha pode alimentar novas recaídas.
  • Culpa aponta o que reparar; vergonha paralisa. O trabalho é trocar vergonha por responsabilidade.
  • A autoestima volta com provas pequenas: combinados cumpridos, danos reparados, corpo cuidado.
  • A família ajuda mais com reconhecimento concreto e responsabilidades devolvidas do que com elogio vago ou vigilância.
  • A lei garante tratamento com respeito e sigilo, e protege contra discriminação no trabalho.

Perguntas frequentes

Baixa autoestima causa dependência química?

Não existe uma causa única para a dependência. A sensação de não valer nada pode pesar, assim como a genética, o ambiente e o estresse. O que se vê com frequência é o caminho inverso também: o uso vai corroendo a imagem que a pessoa tem de si, e essa vergonha passa a alimentar o uso.

Quanto tempo leva para a autoestima melhorar depois de parar de usar?

Não há um prazo fixo, e cada pessoa tem o seu ritmo. Costuma melhorar aos poucos, à medida que a pessoa cumpre combinados, retoma a rotina e vê resultados concretos. Dias ruins no meio do caminho são esperados e não significam que nada mudou.

Sentir-se confiante demais também pode ser um risco?

Pode. A ideia de “já estou curado, agora eu controlo” costuma aparecer quando a pessoa começa a se sentir bem, e leva ao abandono do grupo e da terapia. Autoestima saudável inclui reconhecer o próprio valor e, ao mesmo tempo, os próprios limites.

Elogiar o tempo todo ajuda quem está se recuperando?

Elogio genérico, como “você é o máximo”, costuma soar falso para quem ainda se sente culpado. Ajuda mais apontar algo concreto e verdadeiro: “você chegou no horário a semana toda” ou “gostei de como você conversou com seu filho hoje”.

Depois de uma recaída, como evitar que a autoestima desabe?

Separando o fato da identidade: a pessoa teve uma recaída, ela não “é um fracasso”. Vale procurar a equipe ou o grupo logo, contar o que aconteceu e rever o plano. Quanto mais cedo a conversa acontece, menor costuma ser o estrago na confiança em si.

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