“Drogado”, “viciado”, “cachaceiro”: como o estigma atrapalha a recuperação

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026

O estigma na dependência química é o preconceito que trata quem usa álcool ou drogas como fraco, perigoso ou sem caráter. Ele aparece em palavras do dia a dia, como “drogado”, “viciado” e “cachaceiro”, e tem efeito prático: a vergonha faz a pessoa esconder o uso e adiar o tratamento. Trocar o rótulo por “pessoa com dependência” não é frescura; é abrir a porta para a conversa.

O que é o estigma e por que ele pesa tanto?

Estigma é a marca que a sociedade coloca em um grupo de pessoas, como se aquela característica dissesse tudo sobre elas. O Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA (NIDA) explica que o estigma sobre quem tem dependência aparece em ideias sem fundamento, como a de que essas pessoas são perigosas, incapazes de seguir um tratamento ou culpadas pela própria condição, e que sentir-se estigmatizado deixa a pessoa menos disposta a buscar tratamento.

O mesmo órgão lembra que a dependência é uma condição de saúde crônica e tratável, da qual as pessoas se recuperam. Se essa ideia ainda soa estranha, vale ler por que a dependência química é considerada doença.

Como as palavras do dia a dia alimentam o preconceito?

No Recôncavo, em Salvador ou no interior, quase todo mundo já ouviu “aquele ali é um cachaceiro” ou “virou noia”. Ninguém diz isso de quem tem diabetes ou pressão alta. A diferença está aí: o rótulo transforma um problema de saúde em identidade, como se a pessoa fosse o problema, e não alguém que tem um problema.

O NIDA observa que termos como esses provocam associações negativas, atitudes de punição e culpa individual. Na prática, isso significa menos paciência da família, mais vergonha de quem usa e mais vontade de esconder. E quem esconde não procura ajuda.

Há também o estigma que a pessoa carrega por dentro. Depois de ouvir por anos que não presta, muita gente passa a acreditar nisso. Aparecem frases como “eu não tenho jeito” ou “tratamento não é para gente como eu”, que muitas vezes se misturam com a negação na dependência química.

Que palavras usar no lugar dos rótulos?

Esta tabela é uma ferramenta simples para a casa, a igreja, a escola e o trabalho. A ideia é falar da pessoa primeiro e do problema depois.

Em vez dePrefiraPor quê
“drogado”, “viciado”, “noia”pessoa com dependência, pessoa que usa drogasSepara a pessoa do problema de saúde
“cachaceiro”, “bêbado”pessoa com problema com álcool, pessoa com alcoolismoTira o tom de deboche e de culpa
“ex-viciado”, “ex-drogado”pessoa em recuperaçãoReconhece o esforço e o caminho em curso
“limpo” e “sujo”sem usar, em abstinência; voltou a usarUso não é sujeira; é sintoma
“recaiu de novo, não tem jeito”teve uma recaída e precisa rever o tratamentoRecaída faz parte do risco de uma doença crônica
“sem-vergonha”, “falta de vergonha na cara”está doente e precisa de tratamentoFalta de força de vontade não explica a dependência

O próprio NIDA sugere o caminho mais fácil quando bater a dúvida: pergunte à pessoa como ela prefere ser chamada. Isso já mostra respeito.

Uma dúvida que chega muito à nossa equipe

Muitas famílias perguntam: “se eu falar com jeito, ele não vai achar que está tudo bem?”. É uma preocupação justa. Falar sem rótulo não é concordar com o uso. Você pode ser gentil na forma e firme no conteúdo.

Um exemplo de troca, na mesma conversa:

  • Com rótulo: “Você é um cachaceiro, envergonha a família inteira.”
  • Sem rótulo, com firmeza: “Eu te amo e estou preocupada. Ontem você chegou de madrugada sem conseguir ficar em pé. Não vou mais dar dinheiro enquanto você não aceitar conversar com alguém sobre isso.”

A segunda frase fala de um fato, mostra o sentimento e coloca um limite. A primeira só ataca. Mais ideias de abordagem estão em como convencer um dependente a se tratar, e muitos mal-entendidos comuns são desfeitos em mitos e verdades sobre a dependência química.

O que a lei diz sobre preconceito e respeito?

O estigma não é só uma questão de educação. A legislação brasileira trata do assunto diretamente:

O que fazer agora para diminuir o estigma em casa

  1. Repare nas palavras que já circulam. Durante uma semana, anote os apelidos e frases usados sobre a pessoa, inclusive em tom de brincadeira.
  2. Combine com a família uma troca de linguagem. Use a tabela acima. Avise parentes próximos, principalmente quem convive todo dia.
  3. Fale de fatos, não de caráter. “Você bebeu até apagar ontem” em vez de “você não presta”.
  4. Separe o amor do limite. Os dois cabem na mesma frase: afeto pela pessoa, firmeza com o comportamento.
  5. Não exponha o problema em grupos de WhatsApp, na vizinhança ou nas redes. Sigilo protege a dignidade e a chance de voltar ao trabalho e aos estudos.
  6. Cuide da sua própria vergonha. Muita família se cala por medo do que vão dizer. Procurar ajuda para si também é parte da solução.

Quando procurar ajuda profissional?

Procure uma equipe de saúde quando o uso já traz prejuízo à saúde, ao trabalho ou à família, quando a pessoa tenta parar e não consegue, ou quando as conversas em casa viraram só briga. Também é hora de buscar ajuda se a vergonha está paralisando a família.

Se a pessoa disser que não quer mais viver, ou que é um peso para todos, leve a sério. O CVV atende 24 horas pelo 188, de graça. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, cada pessoa é recebida pelo nome, com plano terapêutico individual, avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas e a família participando, sempre com sigilo. Conheça o tratamento para dependência química. Recebemos famílias de Salvador e de toda a Bahia.

Em resumo

  • Estigma é o preconceito que reduz a pessoa ao uso de álcool ou drogas.
  • Rótulos como “drogado”, “viciado” e “cachaceiro” aumentam a vergonha e afastam do tratamento.
  • Falar “pessoa com dependência” ou “em recuperação” não é passar a mão na cabeça: dá para ter respeito e limites ao mesmo tempo.
  • A Lei de Drogas manda evitar a estigmatização, e a Lei nº 10.216/2001 garante tratamento com humanidade e respeito.
  • Em casa, fale de fatos e não de caráter, e preserve o sigilo da pessoa.

Perguntas frequentes

Chamar alguém de “viciado” é ofensa ou só um jeito de falar?

No dia a dia muita gente usa sem querer ofender. O problema é que a palavra resume a pessoa ao problema e carrega a ideia de fraqueza moral. Dizer “pessoa com dependência” passa a mesma informação sem esse peso.

E se a própria pessoa se chama de “dependente” ou “adicta” no grupo de apoio?

Cada um tem o direito de nomear a própria história, e em grupos de ajuda mútua isso costuma ter um sentido de honestidade, não de ofensa. Na dúvida, pergunte como ela prefere ser chamada e respeite a resposta.

Falar sem estigma é passar a mão na cabeça?

Não. Dá para falar com respeito e, ao mesmo tempo, colocar limites firmes, cobrar acordos e dizer que o uso está trazendo prejuízo. Respeito diz respeito ao modo de falar; os limites continuam valendo.

O estigma também atinge a família?

Sim. Pais, cônjuges e filhos muitas vezes sentem vergonha, escondem o problema de parentes e da igreja e demoram a buscar ajuda por medo do que vão dizer. Grupos para familiares e o acompanhamento da equipe ajudam a sair desse isolamento.

Contar no trabalho que fez tratamento pode dar demissão?

A Lei nº 9.029/1995 proíbe práticas discriminatórias na relação de trabalho, e a Justiça do Trabalho já considerou discriminatória a demissão de trabalhador com alcoolismo. Cada caso tem detalhes próprios; antes de decidir o que contar, vale buscar orientação.

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