Já usei drogas: devo contar para o meu filho?
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 18/10/2026
Você não é obrigado a contar para o seu filho que já usou drogas, e também não precisa mentir. Em geral, o melhor é não puxar o assunto por conta própria, mas responder com verdade e poucas palavras se ele perguntar, de acordo com a idade dele. O foco da conversa é a proteção do seu filho, não a história do seu passado.
Por que essa dúvida pesa tanto?
Há dois medos brigando dentro de quem já usou. O primeiro é que, ao contar, o filho pense “se meu pai usou e está bem, então não é tão grave”. O segundo é que, ao esconder, ele descubra depois e se sinta enganado. Os dois medos têm fundamento, e é por isso que a resposta não é “conte tudo” nem “negue sempre”.
A dúvida também muda de tamanho conforme o passado. Experimentar maconha numa festa aos 19 anos é uma coisa. Ter vivido anos de dependência, com internação e recaídas, é outra, e nesse caso a informação também diz respeito à saúde da família, como veremos adiante.
O que a pesquisa diz sobre contar o próprio passado?
Um estudo publicado em 2013 na revista Human Communication Research ouviu estudantes do 6º ao 8º ano nos Estados Unidos. Os que contaram que os pais falavam do próprio uso no passado tinham, em média, visões menos contrárias às drogas, mesmo quando os pais contavam a história em tom de arrependimento.
Duas ressalvas importantes: o estudo mostra uma associação, não prova que contar causa o uso, e foi feito com um grupo específico de alunos. Mesmo assim, o recado é útil: o relato do seu passado não é, sozinho, uma ferramenta de prevenção. O que protege é o diálogo frequente. Um estudo brasileiro na Revista Brasileira de Epidemiologia encontrou menos consumo entre alunos que disseram ter aprendido sobre drogas com os pais ou professores.
Quando faz sentido contar?
Contar tende a ajudar mais do que atrapalhar quando:
- o filho pergunta diretamente, e negar seria mentir;
- ele vai saber de qualquer jeito, porque parentes comentam ou o assunto já é conhecido no bairro e na família;
- houve dependência na família, já que o Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA (NIDA) aponta que os genes respondem por uma parte importante da vulnerabilidade à dependência, e esse filho merece saber que precisa de cuidado redobrado;
- ele já é adolescente e começa a conviver com ofertas em festas, no paredão, no São João ou no Carnaval.
Para uma criança pequena, o caminho costuma ser outro: conversas sobre saúde, remédio e escolhas, sem histórias pessoais. Veja como fazer em falar sobre drogas com criança pequena.
O que contar e o que deixar de fora?
Uma regra simples: conte o que ensina, deixe de fora o que encanta.
| Pode contar | Melhor evitar |
|---|---|
| Que você usou e em que fase da vida, sem rodeios | Detalhes de como usava, onde conseguia, com quem |
| O que aquilo custou: saúde, estudo, trabalho, relações, confiança | Histórias engraçadas ou de “aventura” |
| Por que você parou ou procurou tratamento | Frases como “todo mundo usa” ou “na minha época era normal” |
| Que existe risco maior na família, se houve dependência | Comparar drogas como se umas fossem “leves” e seguras |
| Que ele pode perguntar o que quiser, quando quiser | Usar a conversa para desabafar a sua culpa |
Nada de ensinar, mesmo sem querer: modo de uso, quantidades e lugares ficam fora de qualquer conversa com filho.
Como responder quando ele perguntar?
- Respire antes de responder. Se a pergunta pegou você de surpresa, vale dizer: “É uma boa pergunta. Quero te responder com calma hoje à noite.” E cumprir.
- Responda curto e verdadeiro. Por exemplo: “Já usei, sim, quando era jovem. Não foi bom para mim e eu não quero isso para você.”
- Fale do custo, não do efeito. O que você perdeu, o que doeu, o que teve de reconstruir.
- Devolva a conversa para ele. “Por que você perguntou? Alguém te ofereceu? O que você acha disso?”
- Reforce os combinados da casa. O seu passado não muda as regras, e ele precisa ouvir isso com carinho e firmeza.
- Deixe a porta aberta. Uma conversa não resolve tudo; o assunto volta, e tudo bem.
Para o restante da conversa sobre prevenção, siga o roteiro em como conversar com o filho sobre drogas. Se você bebe hoje, vale ler também sobre beber na frente dos filhos.
E se a dependência ainda faz parte da sua vida?
Se você está em recuperação, contar pode fazer parte do próprio tratamento, de preferência combinado com quem acompanha você. Uma dúvida que chega à nossa equipe é: “meu filho vai me ver como fraco?”. Na prática, ver o pai ou a mãe cuidar da própria saúde costuma ensinar mais do que qualquer palestra. Grupos como os do Narcóticos Anônimos também ajudam a pensar nessa conversa.
Se o uso continua, a prioridade muda: antes de decidir o que contar, é hora de buscar ajuda para você. Os filhos percebem muito mais do que os adultos imaginam, como mostramos em filhos de pais com dependência. E a família inteira sente o peso, tema do nosso guia sobre codependência.
Quando procurar ajuda profissional?
Busque orientação de um psicólogo, do CAPS da sua cidade ou de uma equipe de tratamento quando:
- o seu passado ainda traz vontade de usar, culpa intensa ou noites sem dormir;
- o filho reagiu com raiva, afastamento ou passou a usar o seu histórico como desculpa repetidamente;
- você percebe sinais de uso no seu filho;
- você voltou a usar ou tem medo de voltar.
Se em algum momento você ou seu filho falarem em não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).
Como podemos ajudar
No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a família participa do tratamento e conversas difíceis como esta têm espaço, com sigilo. Há avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas e plano terapêutico individual. Saiba como acolhemos as famílias. Recebemos pessoas de Salvador e de toda a Bahia.
Em resumo
- Você não precisa puxar o assunto, mas mentir quando o filho pergunta costuma sair caro.
- Conte o que ensina (o custo, por que parou) e deixe de fora o que encanta (detalhes e aventuras).
- Contar o passado não é prevenção por si só; o que protege é o diálogo frequente.
- Se houve dependência, o filho merece saber que tem risco maior, na idade certa.
- Criança pequena precisa de conversa sobre saúde, não de história pessoal.
Perguntas frequentes
Meu filho perguntou direto se eu já usei droga. Posso dizer que não?
Pode até funcionar por um tempo, mas a mentira costuma aparecer, por um parente, uma foto ou uma conversa antiga. Quando isso acontece, ele tende a duvidar também do que você disse sobre os riscos. Se não se sentir pronto, é mais seguro dizer “é uma boa pergunta, vamos conversar sobre isso com calma” do que negar.
Fui dependente e hoje estou em recuperação. Isso muda o que devo contar?
Muda, porque aqui a informação também é de saúde da família. Ter pai ou mãe com dependência aumenta a vulnerabilidade do filho, e saber disso, na idade certa, ajuda ele a se proteger. Contar que você adoeceu, se tratou e segue cuidando da recuperação é uma mensagem de responsabilidade, não de incentivo.
E se um parente contar antes de mim?
Não negue nem fique bravo com o filho. Confirme com poucas palavras, diga que preferia ter contado você mesmo e abra espaço para as perguntas dele. Vale também pedir aos parentes que deixem esse assunto para você.
Meu filho usou o meu passado como desculpa: “você também usou”. O que eu respondo?
Concorde com o fato e discorde da conclusão: “usei, sim, e é justamente por isso que sei o que pode acontecer”. Volte a conversa para ele, para os combinados da casa e para o que está acontecendo agora. Seu passado não tira a sua autoridade para cuidar dele.
Com que idade meu filho pode saber do meu passado com drogas?
Não há uma idade exata, mas para uma criança pequena o assunto costuma ser pesado e pouco útil. Em geral, faz mais sentido a partir da adolescência, quando ele próprio começa a fazer perguntas e a conviver com ofertas. Antes disso, a prevenção é falar de saúde, de escolhas e de confiança.
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