Meu familiar pediu ajuda para parar: o que fazer nas primeiras 48 horas

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026

Revisão clínica: Dra. Maria Carolina Ferreira Lattaro — Médica psiquiatra, CRM 235769/SP

Quando um familiar pede ajuda para parar, o que mais importa é agir rápido e com calma: agradeça a coragem, não faça sermão e marque uma avaliação com um serviço de saúde em até um ou dois dias. O pedido é real, mas a vontade oscila. Nas primeiras 48 horas, o objetivo é transformar o “sim” em um primeiro atendimento com data marcada.

Depois de meses tentando convencer, ouvir “eu preciso de ajuda” traz alívio e, ao mesmo tempo, medo de errar. É normal não saber por onde começar.

Por que as primeiras 48 horas pesam tanto?

Quem tem dependência costuma viver dividido: uma parte quer parar, outra ainda quer usar. O pedido de ajuda aparece num momento em que a primeira parte falou mais alto, muitas vezes depois de uma briga, uma dívida, uma ressaca forte ou um susto. Com o passar dos dias, o susto diminui, a vontade de usar volta e surgem frases como “eu consigo sozinho” ou “não era tão grave assim”.

Isso não quer dizer que o pedido era mentira. Quer dizer que a decisão precisa de apoio concreto logo. O Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA (NIDA) lembra que a dependência é tratável e que o tratamento precisa ser ajustado a cada pessoa. Por isso o próximo passo é uma avaliação, e não um plano inventado em casa.

O que dizer na hora em que ele pede ajuda?

Muitas famílias contam à nossa equipe que, na emoção, desabafaram tudo o que estava guardado. É compreensível, mas esse momento pede menos palavras. Algumas frases que costumam funcionar:

  • “Obrigado por me contar. Sei que não foi fácil.”
  • “Eu estou do seu lado e vou te ajudar a encontrar o tratamento.”
  • “Você topa que a gente procure um atendimento amanhã?”
  • “O que você acha que vai ser mais difícil nos próximos dias?”

E o que é melhor evitar agora: cobrar o passado (“eu avisei”), exigir promessas (“jura que nunca mais?”), testar a decisão (“duvido que você aguente”) ou tomar decisões grandes no calor da hora, como expulsar de casa ou fechar uma internação sem avaliação. Se a conversa ainda está no começo e a pessoa hesita, veja também como convencer um dependente a se tratar.

O que fazer nas primeiras 48 horas: passo a passo

  1. Hoje: confirme o pedido. Se ele estava sob efeito de álcool ou droga, retome a conversa assim que estiver sóbrio. Pergunte o que ele quer e do que tem medo.
  2. Hoje: escolha quem vai acompanhar. Uma pessoa de referência, com quem ele se sinta à vontade, cuida dos contatos e vai junto à avaliação. Muitas vozes ao mesmo tempo confundem.
  3. Hoje ou amanhã: procure a avaliação. Na rede pública, o caminho é a unidade de saúde do bairro ou o CAPS AD, que atende pessoas com problemas ligados ao álcool e às drogas. Na rede particular, peça uma avaliação com médico e equipe. Veja como funciona o CAPS AD.
  4. Anote o que o profissional vai perguntar: o que ele usa, há quanto tempo, com que frequência, quando foi o último uso, quais remédios toma, doenças conhecidas e se já teve convulsão ou crise.
  5. Combine a casa para os próximos dias. Com ele, não contra ele: tirar bebida e droga à vista, combinar o destino do dinheiro, evitar visitas de quem usava junto.
  6. Separe os documentos: documento com foto, CPF, cartão do SUS, receitas e exames antigos. Se a indicação for internação, a lista completa está em o que levar para uma internação.
  7. Marque o próximo passo com data e hora. “Quinta, às 9h, eu vou com você” protege mais a decisão do que “a gente vê isso depois”.

Parar de uma vez, em casa, é seguro?

Depende da substância. Com álcool e com remédios calmantes (os benzodiazepínicos) usados todos os dias, parar de repente e sem acompanhamento médico pode ser perigoso: há risco de tremores fortes, convulsão e delirium. Nesses casos, a avaliação médica vem antes da parada, e não depois.

Com outras drogas, a abstinência costuma trazer irritação, insônia, cansaço e muita vontade de usar. Nem sempre é perigosa para o corpo, mas é desconfortável e aumenta o risco de desistir. Não dê remédio por conta própria nem escondido: qualquer medicamento é com prescrição e acompanhamento médico. Para entender o que acontece no corpo, leia sobre tolerância e abstinência.

E se ele mudar de ideia antes de começar?

Recuar faz parte do processo e não apaga o pedido. Volte ao que ele disse: “Na terça você me falou que estava cansado disso. Isso ainda vale?”. Ofereça um passo menor, como só ir à avaliação para ouvir, sem compromisso de internação.

A lei também protege essa escolha. Pela Lei nº 10.216/2001, art. 7º, quem se interna por vontade própria assina uma declaração de que optou por esse regime, e a internação termina por pedido escrito do paciente ou por decisão do médico. Saber que pode sair costuma diminuir o medo de entrar. Quando há risco grave e a pessoa não aceita mais nada, a lei prevê outros caminhos, explicados em internação voluntária, involuntária e compulsória.

Quando é emergência?

Não espere a consulta marcada se aparecer:

  • confusão, alucinação, convulsão ou tremor intenso depois de parar de beber ou de tomar calmantes;
  • sinais de intoxicação grave: sonolência que não passa, respiração lenta, dor no peito, desmaio;
  • agressividade que coloque alguém em perigo;
  • falas sobre não querer viver ou sobre se machucar.
Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU). Se surgirem pensamentos de morte, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, orientamos a família no primeiro contato e na chegada. Há avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas, plano terapêutico individual e a família participando, sempre com sigilo. Conheça a internação para tratamento e as etapas do tratamento da dependência química. Recebemos famílias de Salvador e de toda a Bahia.

Em resumo

  • Quando ele pedir ajuda, agradeça e acolha; o sermão pode esperar.
  • Nas primeiras 48 horas, a meta é uma avaliação com data e hora marcadas.
  • Uma pessoa de referência acompanha e cuida dos contatos.
  • Álcool e calmantes de uso diário não devem ser interrompidos de repente sem médico.
  • Mudar de ideia é comum: volte ao pedido e ofereça um passo menor.

Perguntas frequentes

Ele pediu ajuda bêbado, de madrugada. Devo levar a sério?

Leve a sério, mas não feche nada naquela hora. Acolha, diga que vai ajudar e retome a conversa no dia seguinte, com ele sóbrio. Muitas vezes o pedido feito no fundo do poço é verdadeiro, só precisa ser confirmado com calma.

Posso tirar a bebida e a droga de casa logo depois que ele pediu ajuda?

Pode, e o ideal é combinar isso com ele, não fazer escondido ou à força. Tirar o que está à vista ajuda a atravessar os primeiros dias. Revistar o quarto aos gritos costuma virar briga e enfraquecer a decisão.

Ele quer esperar passar o fim de semana para começar. Devo aceitar?

Vale negociar algo menor e imediato, como uma ligação ou uma conversa com um serviço de saúde ainda hoje, e marcar a avaliação para o primeiro dia útil. Adiar sem data costuma esfriar a decisão. Se ele usa álcool ou calmantes todos os dias, a avaliação médica antes de parar é ainda mais importante.

Quem pediu ajuda precisa ir para uma internação?

Não necessariamente. O tipo de tratamento é definido na avaliação, conforme o uso, a saúde e a situação da casa. Há acompanhamento ambulatorial, CAPS AD e internação; a internação é indicada quando os recursos fora dela não bastam.

Devo contar para o resto da família que ele pediu ajuda?

Pergunte a ele quem pode saber. Contar para uma ou duas pessoas que vão ajudar de verdade faz sentido; espalhar a notícia pode trazer vergonha e pressão. Respeitar a privacidade dele também é uma forma de mostrar que o pedido foi recebido com cuidado.

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