O dia da internação: como a família se prepara para a conversa e a chegada

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026

Revisão clínica: Dra. Maria Carolina Ferreira Lattaro — Médica psiquiatra, CRM 235769/SP

No dia da internação, o que mais ajuda é uma conversa curta, calma e verdadeira, poucas pessoas junto e uma despedida sem sermão. Antes de sair, conte à equipe o último uso, os remédios e as doenças da pessoa. Na chegada, fique o tempo da recepção, combine como terá notícias e volte para casa: a parte mais difícil já foi feita.

O que acontece emocionalmente no dia da internação?

Para quem vai ser internado, o dia costuma misturar alívio e medo: medo de ficar longe, de perder o controle da própria vida, de sentir falta da substância. É comum mudar de ideia várias vezes em poucas horas. Isso não quer dizer que a decisão estava errada; quer dizer que ela é difícil.

Para a família, o dia mistura esperança e culpa. Uma pergunta que chega muito até nós: “estou abandonando meu filho?”. Não está. Procurar tratamento é cuidar. O Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA (NIDA) lembra que a dependência é tratável e que o tratamento ajuda a pessoa a retomar o controle da própria vida. Ninguém precisa “merecer” esse cuidado antes.

Como conversar com ele no dia, e o que evitar?

A conversa decisiva já deveria ter acontecido antes. Se ainda está nessa fase, veja como convencer um dependente a se tratar. No dia, o objetivo não é convencer de novo, é sustentar o combinado com carinho.

Ajuda a dizerMelhor evitar
“Eu vou com você até lá.”“Você está indo porque estragou tudo.”
“Estou orgulhosa de você ter aceitado.”“Desta vez é a última chance.”
“Vamos ter notícias e eu vou te visitar quando puder.”“Lá eles vão te consertar.”
“Pode ficar com medo. Eu também estou.”Relembrar brigas, dívidas e mentiras antigas

Fale pouco e com frases curtas. Discussões longas no carro costumam virar briga e dar motivo para desistir.

Um ponto que pesa: não engane a pessoa dizendo que vão “só ao médico” ou “dar uma volta”. Descobrir o destino na porta gera revolta e quebra a confiança que o tratamento vai precisar. A Lei 10.216/2001 garante à pessoa em tratamento o direito de ser tratada com humanidade e respeito e de receber informações sobre sua doença e seu tratamento (art. 2º, parágrafo único).

Quem deve ir junto?

Leve só quem acalma. Em geral, uma ou duas pessoas bastam: alguém de quem ele gosta e confia e, se possível, alguém que dirija com tranquilidade.

  • Vale levar: a pessoa com quem ele tem melhor relação, mesmo que não seja quem mais manda na casa.
  • Melhor não levar: quem está com muita raiva, quem costuma discutir com ele e amigos do tempo do uso.
  • Crianças: em regra, a chegada não é lugar para elas. Despeçam-se em casa e prepare a conversa com a ajuda do texto sobre como explicar a internação para uma criança.

Se a viagem é longa, como de Feira de Santana ou do interior até a região de Camaçari, combine pausas e evite paradas em postos com bar ou conveniência cheia de bebida.

O que fazer na véspera e no dia: roteiro passo a passo

  1. Confirme horário e documentos com a equipe no dia anterior. A lista de roupas e objetos está em o que levar para uma internação.
  2. Anote para a equipe: quando foi o último uso e de quê, remédios que ele toma, doenças, alergias e contatos da família.
  3. Avise sobre uso pesado de álcool ou calmantes. Parar de uma vez, sem médico, pode ser perigoso. A equipe precisa saber antes.
  4. Durma e coma. Família exausta tem menos paciência na hora em que mais precisa dela.
  5. Saia cedo e com calma, sem pressa e sem a casa cheia de gente se despedindo.
  6. Na chegada, deixe a equipe conduzir. Responda às perguntas com sinceridade, mesmo as constrangedoras.
  7. Combine o próximo contato: como serão as notícias, a primeira visita e a carta. Para depois, veja o que falar na visita.
  8. Despeça-se rápido e com carinho. Um abraço, uma frase (“eu te amo e volto para te ver”) e pronto.

E se ele desistir na última hora?

Pode acontecer, e o pior caminho é a força ou a gritaria. Pare, ouça o medo que apareceu e lembre o motivo da decisão em uma ou duas frases. Ligar para a equipe que vai recebê-lo muitas vezes ajuda: é outra voz, calma, que sabe responder às dúvidas.

Na internação voluntária, a pessoa assina uma declaração de que escolheu esse regime e pode pedir para sair por escrito, conforme o art. 7º da Lei 10.216/2001. Se a recusa é total e há risco sério, a lei prevê a internação involuntária, sempre com laudo médico e comunicação ao Ministério Público, regra reforçada pela Lei 13.840/2019. Entenda as condições em internação involuntária é legal?. Nesse caso, a decisão é médica e segue a lei; a família não deve agir sozinha.

Quando o dia vira emergência?

Procure atendimento antes de qualquer internação se houver:

  • convulsão, confusão intensa, tremores fortes ou alucinações;
  • sinais de intoxicação grave, como sonolência profunda ou dificuldade para respirar;
  • agressividade que coloque alguém em risco;
  • falas sobre não querer viver.
Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU). Se surgirem falas sobre não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a equipe orienta a família antes da chegada e recebe a pessoa com avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas e plano terapêutico individual. A família participa do tratamento, sempre com sigilo. Saiba como funciona a internação. Recebemos famílias de Camaçari e de toda a Bahia.

Em resumo

  • No dia, a conversa é curta, calma e verdadeira; nada de enganar sobre o destino.
  • Vão junto uma ou duas pessoas que acalmam, sem crianças e sem quem está com raiva.
  • Conte à equipe o último uso, os remédios e as doenças, principalmente uso pesado de álcool ou calmantes.
  • Desistência na última hora pede escuta e uma ligação para a equipe, não força.
  • A despedida é rápida, com carinho e com o próximo contato combinado. Esse passo é o começo das etapas do tratamento.

Perguntas frequentes

É melhor avisar com antecedência ou contar só no dia da internação?

Na internação voluntária, avisar antes costuma funcionar melhor: a pessoa tem tempo para se organizar, tirar dúvidas e se despedir de quem quiser. Antecedência demais, porém, abre espaço para a desistência; muitas famílias combinam a data com poucos dias de distância e mantêm a conversa curta e firme.

Posso dizer que vamos só a uma consulta para ele aceitar ir?

Não é recomendado. Descobrir o destino na porta costuma gerar revolta e quebra a confiança de que o tratamento vai precisar. Se a pessoa não aceita de jeito nenhum e corre risco, o caminho é conversar com a equipe sobre a internação involuntária, que tem regras próprias na lei.

E se ele desistir no caminho ou na porta do centro?

Não brigue nem force. Pare, ouça o medo que apareceu e lembre o motivo da decisão em uma ou duas frases. Ligue para a equipe que vai recebê-lo: conversar com quem trabalha com isso todos os dias muitas vezes acalma. Se ainda assim ele recusar, volte para casa e mantenha a porta aberta.

Ele pode beber ou usar “uma última vez” antes de ir?

Não é uma boa ideia. Chegar intoxicado dificulta a avaliação e pode deixar a pessoa mais agitada. Se o uso de álcool ou de calmantes é diário e pesado, conte isso à equipe com antecedência, porque parar de repente pode trazer riscos e precisa de avaliação médica.

Quanto tempo a família deve ficar na chegada?

O tempo da recepção e da conversa com a equipe, sem prolongar a despedida. Ficar horas na porta costuma aumentar a angústia dos dois lados. Combine antes como e quando vocês terão notícias e qual será o primeiro contato.

Mais sobre tratamento e recuperação

Ver todos os artigos sobre tratamento e recuperação

Preencha a ficha de acolhimento online