Dependente químico fugiu da clínica: o que a família faz agora

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 18/10/2026

Revisão clínica: Dra. Maria Carolina Ferreira Lattaro — Médica psiquiatra, CRM 235769/SP

Quando um dependente químico foge da clínica, a primeira tarefa da família é saber se ele está em segurança, não brigar nem obrigar a voltar. Confirme com a clínica como e quando foi a saída, tente contato por pessoas de confiança e, se ninguém souber onde ele está, registre o desaparecimento na polícia sem esperar 24 horas. O retorno ao tratamento vem depois, com calma.

O telefone toca e a notícia cai como um soco: ele saiu. Junto vêm medo, raiva, culpa e a sensação de que todo o esforço foi perdido. Respire. Esse momento tem caminho, e ele não termina aqui.

Por que o dependente químico fugiu da clínica?

A saída sem alta, que os serviços de saúde chamam de evasão, costuma acontecer nos momentos mais difíceis da internação: nos primeiros dias, quando o corpo e a cabeça ainda sentem a falta da substância; depois de uma visita ou de uma notícia ruim; ou quando a fissura aperta e a pessoa passa a acreditar que “já está bem”. Para entender esse impulso, veja o que é a fissura e como lidar com a vontade de usar.

A fuga não é prova de que a pessoa “não quer saber” nem de que a família errou. A dependência mexe com o controle dos impulsos, e a ambivalência, querer parar e querer usar ao mesmo tempo, faz parte do quadro. O tratamento continua possível.

O que fazer nas primeiras horas?

Muitas famílias perguntam à nossa equipe por onde começar quando recebem a notícia. Este é um roteiro que funciona como ponto de partida:

  1. Fale com a clínica e anote tudo. Horário da saída, roupa que usava, se levou celular, dinheiro ou documentos, para que lado foi, se estava agitado ou com algum sintoma.
  2. Ligue para quem ele procuraria. Familiares, amigos, ex-companheira, colegas de trabalho. Peça que avisem se ele aparecer, sem armar emboscada.
  3. Deixe uma porta aberta no celular dele. Uma mensagem curta, sem cobrança: “Quero só saber se você está bem. Estou aqui.” Discurso, ameaça e lista de erros ficam para nunca.
  4. Não saia procurando sozinho em ponto de uso. Isso expõe você a risco real. Se precisar, peça ajuda a alguém de confiança e prefira lugares públicos.
  5. Se ninguém souber onde ele está, registre o desaparecimento. Leve uma foto recente e os dados anotados no passo 1.
  6. Se ele aparecer em casa, receba sem tribunal. Água, comida, banho e descanso. A conversa sobre o que aconteceu pode esperar ele estar sóbrio.

Uma situação comum por aqui: a pessoa sai a pé de uma unidade fora da capital e tenta chegar a Salvador de carona ou de ônibus pela estrada. Avisar quem mora no caminho e quem está no bairro de origem costuma ajudar mais do que rodar de carro sem destino.

Precisa esperar 24 horas para avisar a polícia?

Não. A ideia de esperar 24 horas é um mito. A Lei 13.812/2019, que criou a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, considera desaparecida toda pessoa cujo paradeiro é desconhecido, não importando a causa (art. 2º, I). A mesma lei trata a busca como prioridade com caráter de urgência (art. 3º) e manda a autoridade policial que recebe a comunicação adotar as providências para localizar a pessoa (art. 8º).

Ou seja: um adulto que saiu da clínica e sumiu também entra nessa regra. Registrar o desaparecimento não é acusar ninguém de crime, e o registro pode ser encerrado quando ele for encontrado.

O que a lei diz sobre a saída da internação?

A resposta muda conforme o tipo de internação. A Lei 10.216/2001, que trata dos direitos das pessoas com transtornos mentais e vale para a dependência química, separa os casos:

Tipo de internaçãoComo ela termina, segundo a leiO que isso muda quando a pessoa sai
Voluntária (a pessoa assinou que quer se tratar)Por pedido escrito do paciente ou por decisão do médico assistente (art. 7º, parágrafo único)Ele tem o direito de encerrar a internação; o certo é pedir a saída por escrito e combinar a alta
Involuntária (pedida pela família, com laudo médico)Por pedido escrito do familiar ou responsável legal, ou quando o especialista decidir (art. 8º, § 2º)A saída sem alta é uma evasão; a clínica precisa avisar e a família decide os próximos passos com a equipe
Compulsória (determinada por juiz)Conforme a decisão judicialAvise o advogado ou a Defensoria, porque o processo precisa saber

Em qualquer caso, o art. 10 da mesma lei manda a direção do estabelecimento comunicar a evasão aos familiares ou ao representante legal, e à autoridade sanitária, em até 24 horas. Se a família só soube muito depois, vale pedir por escrito a explicação do que aconteceu.

Para entender cada modalidade em detalhe, leia as diferenças entre internação voluntária, involuntária e compulsória.

Quais são os riscos logo depois da fuga?

O período logo após a saída pede atenção redobrada. O NIDA, instituto de pesquisa sobre drogas dos EUA, alerta que depois de um tempo sem usar, a tolerância cai e voltar à quantidade de antes pode causar overdose. Além disso, a pessoa pode estar sem dinheiro, sem remédios que vinha tomando com prescrição e em lugares de risco.

  • Sinais de intoxicação grave, como confusão, sonolência que não passa, respiração fraca ou convulsão, são emergência.
  • Quem tem histórico de uso pesado de álcool ou de calmantes pode passar mal ao ficar de repente sem a substância; isso pede avaliação médica.
  • Falas de desesperança e de “não aguento mais” merecem escuta séria e ajuda imediata.
Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU). Se surgirem falas sobre não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça.

Como retomar o vínculo sem afastar ainda mais?

Quando ele reaparece, a vontade é despejar tudo: o dinheiro gasto, a noite sem dormir, a vergonha. É humano, mas costuma empurrar a pessoa de volta para a rua. Algumas atitudes ajudam mais:

  • Comece pelo cuidado, não pela cobrança. “Que bom que você está aqui” abre mais portas do que “olha o que você fez”.
  • Pergunte o que aconteceu e escute até o fim. Às vezes há um motivo concreto: medo, conflito com alguém, saudade dos filhos, uma regra que ele não entendeu.
  • Mantenha os limites da casa. Acolher não é liberar tudo; combine o que vale e o que não vale, como explicamos em como colocar limites sem romper o vínculo.
  • Não decida nada no calor da hora. Nem nova internação, nem expulsão de casa, nem promessa de que “nunca mais toca no assunto”.

A entrevista motivacional traz ferramentas simples para essas conversas, como perguntas abertas e reflexão sem confronto.

Quando e como voltar ao tratamento?

O NIDA lembra que voltar a usar não significa que o tratamento falhou, e sim que ele precisa ser retomado, ajustado ou trocado. Com a fuga é parecido: ela mostra o que precisa mudar no plano.

  1. Converse com a equipe que atendia. Pergunte o que observaram antes da saída e o que propõem agora.
  2. Reavalie o formato. Às vezes o caminho é voltar à internação; às vezes, começar por um acompanhamento ambulatorial, como o CAPS AD da rede pública, e construir a motivação aos poucos. Veja como funcionam as etapas do tratamento da dependência química.
  3. Se houver risco grave e ele recusar qualquer ajuda, a internação involuntária pode voltar a ser discutida, sempre a partir de avaliação médica e dentro da lei. Nunca leve alguém à força por conta própria.
  4. Cuide de você também. A família que atravessa uma fuga precisa de apoio, e os grupos para familiares existem para isso.

Se o uso voltou depois da saída, o passo a passo de o que fazer na recaída complementa este roteiro.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, conversamos com a família sobre o que aconteceu e avaliamos com calma o próximo passo. Temos avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas e plano terapêutico individual, com a família junto e sigilo. Na internação involuntária, conduzimos a parte legal. Conheça a internação involuntária. Atendemos famílias de Camaçari e de toda a Bahia.

Em resumo

  • Depois da fuga, a prioridade é saber se a pessoa está segura, não forçar a volta.
  • Não precisa esperar 24 horas para registrar o desaparecimento: a Lei 13.812/2019 trata a busca como urgente.
  • A clínica deve avisar a família sobre a evasão em até 24 horas (Lei 10.216/2001, art. 10).
  • Quando ele reaparecer, acolha primeiro e deixe a conversa difícil para quando estiver sóbrio.
  • A fuga não apaga o tratamento: é sinal para rever o plano com a equipe.

Perguntas frequentes

A clínica tem obrigação de avisar a família quando o paciente foge?

Sim. A Lei 10.216/2001, no art. 10, manda a direção do estabelecimento comunicar a evasão aos familiares ou ao representante legal, e também à autoridade sanitária, em até 24 horas. Na prática, o ideal é que o aviso venha assim que a saída for percebida.

A clínica podia ter impedido a saída à força?

Na internação voluntária, não: a lei garante que ela termina por pedido escrito do paciente ou por decisão do médico, e ninguém pode ser mantido trancado contra a própria vontade. Na involuntária, a equipe deve agir para proteger a pessoa, mas sempre dentro do que a lei e a ética de saúde permitem.

A família pode buscar a pessoa e levá-la de volta para a clínica à força?

Não é o caminho. Levar um adulto contra a vontade, por conta própria, pode gerar violência e problemas legais para a família. Se houver indicação de nova internação involuntária, ela começa por uma avaliação médica e segue o rito da lei, com orientação da equipe.

Quanto tempo esperar para voltar a falar de tratamento?

Não existe prazo fixo. Nos primeiros dias, o foco é segurança e reaproximação, sem cobrança. Quando a pessoa estiver sóbria e mais calma, vale abrir a conversa sobre o que não funcionou e sobre outras formas de cuidado, inclusive ambulatoriais, como o CAPS AD.

Se ele voltar a usar logo depois de sair, perdeu tudo o que fez na internação?

Não. O que foi vivido no tratamento continua valendo, e a dependência é uma condição crônica em que retomadas fazem parte do caminho. Para a ciência, voltar a usar é sinal para retomar ou ajustar o tratamento, não prova de que ele falhou.

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