Dia Mundial sem Tabaco (31 de maio): como a família apoia quem quer parar de fumar

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026

O Dia Mundial sem Tabaco é celebrado em 31 de maio e serve para lembrar os riscos do cigarro e o direito de quem quer parar a ter ajuda. Para a família, é uma boa data para trocar a cobrança pelo apoio: conversar sem briga, combinar regras para a casa e acompanhar a pessoa até o tratamento gratuito do tabagismo no SUS.

Muita gente que fuma já tentou parar sozinha, mais de uma vez, e se sente envergonhada por isso. A gente orienta o primeiro passo.

O que é o Dia Mundial sem Tabaco e por que ele importa para a família?

Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde, todo 31 de maio a OMS e seus parceiros destacam os riscos à saúde ligados ao tabaco e defendem políticas para reduzir o consumo. Cada ano tem um tema próprio, divulgado pela OMS.

A data costuma aparecer no noticiário com números globais e campanhas. Dentro de casa, o assunto é outro: é o pai que tosse de manhã, a irmã que sai para a varanda dez vezes por dia, o filho que trocou o cigarro comum pelo vape. A família convive com o fumo de perto e, muitas vezes, quer ajudar mas não sabe como sem virar motivo de briga.

Por isso, aqui o 31 de maio vira um ponto de partida doméstico. Não precisa ser no dia exato. Serve como pretexto para uma conversa que vem sendo adiada.

O que o cigarro faz com quem fuma e com quem está por perto?

A ficha da OMS sobre tabaco resume o tamanho do problema com dados que valem a pena conhecer:

  • o tabaco danifica quase todos os órgãos do corpo e está ligado a câncer, doenças do coração, AVC e doenças do pulmão;
  • ele mata mais de 7 milhões de pessoas por ano, e mais de 1,6 milhão delas não fumavam, mas respiravam a fumaça de outras pessoas;
  • não existe nível seguro de exposição à fumaça do tabaco;
  • entre os fumantes ouvidos em pesquisas de vários países, mais de 60% disseram ter intenção de parar.

Esse último dado muda a forma de olhar para quem fuma. Na maior parte das vezes, a pessoa não precisa ser convencida de que faz mal. Ela já sabe. O que costuma faltar é um plano, apoio e acesso a tratamento. A mesma ficha da OMS informa que o aconselhamento, somado ao tratamento que o profissional indicar, pode mais do que dobrar a chance de conseguir parar.

O cigarro também é uma dependência, com a mesma lógica de outras substâncias: vontade forte, dificuldade de controlar e uso que continua apesar do prejuízo. Se alguém da sua casa trocou o cigarro pelo cigarro eletrônico, vale ler o nosso texto sobre se o vape vicia.

O que a lei diz sobre fumar em casa, no trabalho e em lugares fechados?

Muitas famílias nos perguntam se podem “proibir” alguém de fumar dentro de casa ou se existe alguma lei sobre isso. A resposta tem duas partes.

A Lei nº 9.294/1996, no art. 2º, proíbe o uso de cigarros, charutos, cachimbos e outros produtos fumígenos em recinto coletivo fechado, seja privado ou público. Na prática, isso alcança bares, restaurantes, repartições e áreas comuns fechadas. É essa regra que vale para um shopping em Salvador ou um restaurante em Camaçari.

A casa da família, porém, é espaço privado, e a lei não entra ali. Dentro de casa vale o combinado entre os moradores. E esse combinado pode, sim, proteger quem precisa de proteção: crianças, idosos, gestantes, pessoas com doença no pulmão e quem está tentando parar. Combinar que ninguém fuma dentro de casa nem no carro é uma decisão legítima da família, desde que seja conversada, e não imposta no meio de uma briga.

Como chegar ao programa de tabagismo do SUS?

O Brasil tem um Programa Nacional de Controle do Tabagismo, coordenado pelo Instituto Nacional de Câncer. Segundo o INCA, o tratamento de quem quer parar de fumar é oferecido gratuitamente pelo SUS, com avaliação pelo profissional de saúde e abordagem que ajuda a pessoa a mudar hábitos e a lidar com a vontade de fumar, muitas vezes em grupo.

Na Bahia, como no restante do país, a porta de entrada costuma ser a Unidade Básica de Saúde (o posto do bairro). Nem toda unidade tem grupo de tabagismo funcionando, mas a equipe sabe dizer onde há vaga mais perto. Um roteiro simples:

  1. Vá à UBS onde a pessoa é cadastrada, levando o cartão do SUS e um documento.
  2. Diga claramente: “quero entrar no tratamento para parar de fumar”.
  3. Pergunte se a unidade tem grupo próprio ou para onde encaminha.
  4. Anote a data da avaliação e combine em casa quem vai junto, se a pessoa quiser companhia.
  5. Se o cigarro vem acompanhado de álcool ou outras drogas, conte isso na avaliação. Pode ser o caso de buscar também o CAPS AD.

Para quem mora na região metropolitana e não sabe por onde começar na rede pública, reunimos os caminhos no guia onde buscar ajuda para dependência química em Salvador.

Como a família pode apoiar quem quer parar de fumar?

A família pode ajudar muito, ou atrapalhar sem querer. A diferença costuma estar no tom. Veja a comparação:

Costuma atrapalharCostuma ajudar
Contar os cigarros e comentar cada umPerguntar: “que tipo de ajuda você quer de mim?”
Fazer sermão sobre câncer na hora do almoçoEscolher um momento calmo, a sós, para conversar
Esconder ou jogar fora o maço sem combinarCombinar juntos a data de parada e o que sai de casa
Dizer “você não tem força de vontade”Lembrar que é uma dependência e que tratamento existe
Tratar uma recaída como prova de fracassoVer o deslize como parte do caminho e recomeçar

Algumas atitudes práticas fazem diferença nas primeiras semanas:

  • Mudar a rotina junto. Se o cigarro vinha depois do café, troque o café da varanda por uma caminhada curta com a pessoa.
  • Cuidar dos momentos de risco. Fim de tarde, cerveja com os amigos e discussões costumam puxar a vontade. O nosso texto sobre gatilhos de recaída ajuda a montar esse mapa.
  • Dar o exemplo. Se outra pessoa da casa também fuma, ao menos não fume perto de quem está parando. Melhor ainda se as duas tentarem juntas.
  • Paciência com o humor. Irritação e ansiedade nos primeiros dias são comuns. Não leve para o lado pessoal e não responda na mesma moeda.

Se a pessoa ainda não quer parar, a pressão costuma piorar a resistência. Nesse caso, ajuda mais conversar sem acusar e deixar a porta aberta, como explicamos em como convencer alguém a se tratar.

O que fazer agora, a partir do 31 de maio?

Um passo a passo para a família usar a data a favor:

  1. Escolha um momento calmo perto do 31 de maio e diga que você se preocupa, sem acusar.
  2. Pergunte, antes de propor. “Você já pensou em parar? Quer ajuda?” A resposta guia o resto.
  3. Combine uma data de parada, de preferência uma semana em que a pessoa não esteja sob pressão extra.
  4. Marque a ida à UBS para entrar no tratamento gratuito, e ofereça companhia.
  5. Combine as regras da casa: onde ninguém fuma, o que fazer com isqueiros e maços.
  6. Prepare o plano para a vontade: água, caminhada, uma ligação para alguém, sair do lugar.
  7. Celebre marcos pequenos, como o primeiro dia, a primeira semana, o primeiro mês.

Quando o cigarro é só a ponta do problema?

Em muitas casas que chegam até nós, o cigarro não está sozinho. Ele aparece junto com a bebida de todos os dias, com a maconha ou com a cocaína, e às vezes aumenta quando a pessoa tenta largar outra substância. Nesses casos, tratar só o cigarro pode não bastar.

Procure ajuda profissional, além do grupo de tabagismo, quando:

  • o fumo vem acompanhado de uso frequente de álcool ou outras drogas;
  • a pessoa já tentou parar várias vezes e o uso de outras substâncias piora a cada tentativa;
  • aparecem tristeza profunda, crises de ansiedade ou isolamento;
  • a pessoa bebe muito todos os dias. Parar o álcool de uma vez, sem médico, pode ser perigoso e pede avaliação médica.
Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).

Como podemos ajudar

Quando o cigarro vem junto com álcool ou outras drogas, o Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, oferece avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas e plano terapêutico individual, com a família participando e sigilo. Conheça o tratamento para dependência química.

Em resumo

  • O Dia Mundial sem Tabaco, em 31 de maio, é um bom pretexto para a família conversar sobre parar de fumar.
  • A maioria dos fumantes já quer parar; falta plano, apoio e tratamento, e o SUS oferece esse tratamento de graça.
  • A lei proíbe fumar em recinto coletivo fechado; em casa, vale o combinado da família.
  • Apoio funciona melhor que vigilância: pergunte, combine e celebre os marcos.
  • Se o cigarro vem com álcool ou outras drogas, busque avaliação profissional completa.

Perguntas frequentes

O que se faz no Dia Mundial sem Tabaco?

Todo 31 de maio, a OMS e seus parceiros chamam atenção para os riscos do tabaco e para políticas que reduzam o consumo. Para uma família, a data pode servir como um combinado: o dia de conversar, marcar a primeira ida à unidade de saúde ou escolher a data de parada.

Como a família pode ajudar sem virar fiscal do cigarro?

Combinando antes o tipo de ajuda que a pessoa quer, em vez de vigiar, contar cigarros ou cobrar na frente dos outros. Elogiar o esforço, mudar a rotina junto e não tratar um deslize como fracasso ajuda mais do que a pressão.

Fumar dentro de casa é proibido por lei?

Não. A Lei nº 9.294/1996 proíbe fumar em recinto coletivo fechado, privado ou público, como bares, repartições e áreas comuns. A casa é espaço privado, e a regra ali é um combinado da família, que pode e deve proteger crianças, idosos e quem está tentando parar.

Quem fuma e também bebe ou usa outra droga deve parar tudo de uma vez?

Essa decisão precisa ser tomada com um profissional de saúde, porque cada caso é diferente. No caso do álcool, parar de uma vez sem acompanhamento médico pode ser perigoso. Conte tudo na avaliação, inclusive o uso de outras substâncias, para que o plano seja seguro.

Se a pessoa voltar a fumar, ela fracassou?

Não. Voltar a fumar depois de uma tentativa é comum e não apaga o que foi aprendido. O melhor é entender o que levou ao deslize, ajustar o plano com a equipe de saúde e marcar uma nova data, sem culpa e sem sermão.

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