Férias de verão em Salvador: como proteger o adolescente do álcool e das drogas

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026

Para proteger o adolescente do álcool e das drogas nas férias de verão, o que mais funciona é um combinado feito com ele antes da temporada: com quem vai sair, como volta, qual é a regra sobre bebida e o que fazer se algo der errado. Proibir tudo costuma empurrar para o escondido. Regras claras, conversa franca e um adulto disponível para buscar a qualquer hora protegem mais.

Em Salvador, o verão junta praia, festas de largo, ensaios, Réveillon e festas na casa dos amigos, tudo com a escola fechada. Muitos pais chegam a dezembro com medo e sem saber por onde começar.

Por que as férias pedem atenção especial com o adolescente?

As férias mudam três coisas ao mesmo tempo: sobra tempo livre, a rotina da escola some e a cidade inteira entra em clima de festa. Para quem tem entre 13 e 17 anos, é a época de mais convites, mais saídas à noite e menos adultos por perto.

O primeiro contato com a bebida, para muitos, já aconteceu. Na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2019, o IBGE mostrou que 63,3% dos estudantes de 13 a 17 anos já tinham experimentado bebida alcoólica. Ou seja: no verão, a pergunta raramente é “se” a bebida vai aparecer, e sim o que o seu filho vai fazer quando ela aparecer.

O Instituto Nacional sobre Abuso de Álcool e Alcoolismo dos EUA (NIAAA) lista os motivos mais comuns para o adolescente beber: pressão do grupo, desejo de independência, estresse e acesso fácil, muitas vezes dentro da própria casa ou da família. As férias aumentam quase todos eles.

Quais riscos o álcool e as drogas trazem para o adolescente no verão?

O risco não está só na dependência futura. Ele está, principalmente, no que acontece naquela noite.

Situação do verãoPor que preocupa
Praia, mar e piscinaO álcool tira o reflexo e a noção do perigo. O NIAAA cita o afogamento entre as mortes ligadas à bebida antes dos 21 anos.
Volta para casa de madrugadaCarona com quem bebeu, moto, ruas vazias: o NIAAA também lista os acidentes de trânsito entre as causas dessas mortes.
Festas com muita bebida e calorO corpo do adolescente chega a um nível perigoso de álcool com menos doses que o de um adulto, segundo o NIAAA.
Festa da turma sem adultoSem ninguém por perto para intervir, uma briga ou uma situação de abuso fica mais difícil de evitar.
Mistura com outras substânciasQuando o álcool vem junto de outras drogas, fica mais difícil saber o que ele usou e como agir numa emergência.

Há também um efeito que vai além do verão. O NIAAA explica que o cérebro continua em formação até depois dos 20 anos e que quem começa a beber antes dos 15 anos tem mais risco de desenvolver transtorno por uso de álcool na vida adulta. Adiar o primeiro gole já é proteção.

Se a sua dúvida é sobre o vape que circula nas festas, veja se o vape vicia.

O que a lei diz sobre bebida para menores de 18 anos?

O Estatuto da Criança e do Adolescente proíbe vender bebidas alcoólicas a crianças e adolescentes (art. 81, II). O art. 243 vai além e torna crime vender, fornecer, servir, ministrar ou entregar, mesmo de graça, bebida alcoólica ou outro produto que cause dependência a menor de 18 anos, com pena de detenção de 2 a 4 anos e multa, se o fato não for crime mais grave.

Na prática, isso vale para a barraca da praia, o ambulante do largo, o organizador da festa e também o adulto que “libera” a cerveja na casa dele. Muitas famílias perguntam se podem cobrar isso de outros pais ou do comércio: podem, e os detalhes estão em vender bebida para menor é crime. A lei, porém, não substitui o combinado em casa; ela é um apoio para a conversa, não o argumento principal.

Como montar o combinado de verão com o adolescente

Os padrões internacionais de prevenção do UNODC e da OMS apontam que famílias que unem afeto, regras claras e acompanhamento do dia a dia protegem mais do que as que só vigiam ou só liberam. O NIAAA vai na mesma linha: regras contra a bebida, ditas e mantidas, e conversa aberta entre pais e filhos. Um roteiro para fazer em casa, de preferência antes de dezembro:

  1. Sente para conversar num dia calmo, não na porta de saída da festa. Comece perguntando como ele imagina as férias.
  2. Diga a sua regra com clareza: até os 18 anos, sem bebida e sem droga. Explique o porquê com os riscos reais, sem terrorismo.
  3. Combine o básico de cada saída: com quem vai, onde, como volta e a que horas. Celular com bateria e um adulto de referência.
  4. Crie a “saída sem sermão”: se ele estiver numa situação ruim, liga e alguém vai buscar, a qualquer hora. A conversa fica para o dia seguinte.
  5. Treine a recusa: ensaiem juntos duas ou três frases para dizer não a um copo oferecido, sem passar vergonha na frente da turma.
  6. Planeje o tempo livre: pelo menos uma atividade fixa por semana, escolhida por ele, para que o verão não seja só festa.
  7. Combine as consequências antes, para atraso ou quebra de regra, e cumpra com firmeza e sem humilhação.
  8. Dê o exemplo: se em casa toda reunião gira em torno da bebida, o recado que fica é outro.

Para a conversa em si, veja como conversar com o filho sobre drogas. E, se o calendário da família inclui Lavagem do Bonfim, Iemanjá e outras festas, as dicas de festas de largo em Salvador também servem para planejar com os mais jovens.

Quais sinais mostram que passou da experimentação?

Mudanças de humor fazem parte da adolescência, mas alguns sinais merecem conversa e, às vezes, ajuda profissional. O NIAAA cita, entre outros:

  • irritação ou raiva frequentes, apatia e pouca energia;
  • troca repentina do grupo de amigos;
  • perda de interesse pelo que gostava e descuido com a aparência;
  • dificuldade de concentração ou de memória;
  • bebida encontrada nas coisas dele ou cheiro de álcool;
  • fala enrolada ou falta de coordenação ao chegar em casa.

Um sinal isolado não fecha diagnóstico. Se ele chegou bêbado uma vez, leia o que fazer quando o filho adolescente bebe. Se os sinais se repetem, vale procurar o pediatra, o médico da família ou um serviço de saúde mental. O SUS tem CAPS para crianças e adolescentes e para álcool e drogas; em Salvador, o caminho está em onde buscar ajuda para dependência em Salvador.

Quando é emergência?

Muita bebida em pouco tempo pode levar à intoxicação grave. O NIAAA alerta para confusão, vômitos, convulsão, respiração lenta ou irregular, pele azulada ou fria e dificuldade de acordar. Nessa hora:

  • não deixe o adolescente sozinho e não o coloque para “dormir até passar”;
  • deite-o de lado, para não engasgar se vomitar;
  • não dê café, banho frio nem nada para “cortar o efeito”;
  • ligue 192 e conte o que ele usou, sem medo de bronca: a informação ajuda o atendimento.
Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU). Se o adolescente falar em não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a equipe orienta famílias que estão preocupadas com o uso de álcool e drogas de um parente. Para adolescentes, pergunte se o serviço atende o perfil; de todo modo, ajudamos a família a entender os próximos passos. Conheça o tratamento para dependência química. Recebemos famílias de Salvador e de toda a Bahia, sempre com sigilo.

Em resumo

  • As férias somam tempo livre, festas e menos adultos por perto: o risco cresce.
  • Seis em cada dez estudantes de 13 a 17 anos já experimentaram bebida, segundo o IBGE.
  • Dar ou servir bebida a menor de 18 anos é crime pelo ECA, inclusive em festa de casa.
  • Um combinado feito antes, com regra clara e “saída sem sermão”, protege mais do que proibir tudo.
  • Vômito, sonolência profunda ou respiração lenta depois de beber: não deixe sozinho e ligue 192.

Perguntas frequentes

Ficar sem nada para fazer nas férias aumenta o risco de o adolescente beber?

O tédio sozinho não leva ninguém a beber, mas dias inteiros sem rotina, com mais dinheiro na mão e menos adultos por perto, abrem espaço. Ajuda combinar ao menos uma atividade fixa na semana, como um curso, um esporte, um trabalho voluntário ou uma tarefa em casa, escolhida junto com ele.

Meu filho vai viajar com a família de um amigo. O que devo combinar antes?

Converse direto com os adultos responsáveis, não só com o amigo. Pergunte onde vão ficar, quem vai estar junto e qual é a regra deles sobre bebida para os adolescentes, e deixe clara a sua. Combine também um horário para falar com seu filho todos os dias.

Os pais dos amigos liberam bebida nas festas da turma. Como lidar?

Você não controla a casa dos outros, mas pode falar com esses pais com calma e lembrar que oferecer bebida a menor de 18 anos é proibido pelo ECA, mesmo em festa particular. Com seu filho, mantenha a sua regra e combine uma saída fácil: ele pode ligar e você vai buscá-lo sem sermão na hora.

Meu filho bebeu demais, está vomitando e muito sonolento. Posso deixar ele dormir?

Não deixe sozinho nem confie que “é só dormir que passa”: o nível de álcool no sangue pode continuar subindo depois do último gole. Deite-o de lado, fique por perto e, se ele não acordar direito, respirar devagar ou com pausas, tiver convulsão ou pele azulada ou fria, ligue 192 na hora.

Combinar horário de volta funciona com adolescente?

Funciona melhor quando o horário é negociado, e não só imposto, e quando há uma consequência combinada antes para o atraso. Mais importante que o relógio é saber com quem ele está, como vai voltar e ter a certeza de que pode pedir ajuda a qualquer hora.

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