Drogas na adolescência: por que começa, o que observar e como agir

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026

Drogas na adolescência quase sempre começam por curiosidade, vontade de pertencer ao grupo ou tentativa de aliviar algo difícil, e não por “falta de caráter”. A família protege mais quando observa mudanças de rotina, conversa sem interrogatório e combina regras claras. Se o uso se repete ou vem com sofrimento, o caminho é buscar avaliação, e não esperar passar.

Descobrir ou desconfiar que um filho está bebendo ou usando drogas tira o chão de qualquer pai ou mãe. A primeira reação costuma ser medo, culpa ou raiva, e tudo isso é compreensível. Este guia organiza o que observar e o que fazer, em ordem.

Por que as drogas na adolescência começam?

A adolescência é a fase de testar limites, buscar identidade e ganhar espaço fora de casa. É também quando o primeiro contato com álcool e drogas costuma acontecer. Na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, o IBGE encontrou que seis em cada dez estudantes de 13 a 17 anos já tinham experimentado bebida alcoólica em 2019. Ou seja, a bebida chega antes da maioridade para boa parte dos jovens, e as outras drogas muitas vezes chegam pelo mesmo caminho.

O Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA (NIDA) explica que nenhum fator isolado decide quem vai desenvolver problemas com drogas. O risco nasce da soma de vários: ambiente familiar, influência dos amigos, dificuldades na escola, fácil acesso à substância e a idade do primeiro uso. O mesmo material afirma que, quanto mais cedo o uso começa, maior a chance de problemas sérios mais tarde.

Na prática, os motivos que as famílias nos trazem costumam caber em quatro grupos:

  • Curiosidade e novidade: querer saber “como é”, depois de ver em festa, série ou rede social.
  • Pertencimento: usar para não ficar de fora da turma, do paredão ou do grupo da quadra.
  • Alívio: ansiedade, tristeza, bullying, luto, briga em casa. A substância vira uma forma de “desligar”.
  • Acesso e exemplo: bebida liberada em casa, adultos que usam na frente, vendedores que não pedem documento.

Saber em qual grupo o seu filho se encaixa muda a conversa. O adolescente que usa para pertencer precisa de outras formas de se sentir parte; o que usa para aliviar dor precisa, antes de tudo, que a dor seja vista.

Experimentar, repetir e depender: como diferenciar?

Muitas famílias perguntam se uma vez já é dependência. Não é, mas também não é para ignorar. Ajuda pensar em degraus:

  1. Experimentação: uso isolado, geralmente em grupo, sem mudança na rotina.
  2. Uso ocasional: volta a acontecer em festas ou fins de semana, ainda sem prejuízo claro.
  3. Uso frequente: passa a fazer parte da semana, começa a afetar escola, sono, dinheiro e relações.
  4. Uso com perda de controle: ele tenta parar e não consegue, ou abre mão de coisas importantes para usar. Aqui já é caso de avaliação profissional.

Esses degraus não são um diagnóstico, que só uma avaliação pode dar. Servem para a família perceber em que ponto está e agir no tamanho certo, sem minimizar nem entrar em pânico.

O que observar em casa e na escola?

Nenhum sinal sozinho prova uso de drogas. O que pede atenção é a mudança: o filho que era de um jeito e passou a ser de outro, em várias áreas ao mesmo tempo, por semanas.

Onde apareceO que pode mudarO que mais pode explicar
RotinaSono trocado, sumiços sem explicação, saídas que se estendemFase normal de independência, celular até tarde
AmizadesTroca brusca de turma, amigos que a família não conheceMudança de escola, bullying no grupo antigo
EscolaNotas caindo, faltas, chamados da coordenaçãoDificuldade de aprendizagem, conflito com professor
DinheiroPedidos frequentes, objetos ou dinheiro sumindo de casaApostas on-line, dívida com colegas
HumorIrritação, isolamento no quarto, falta de interesse por tudoAnsiedade ou depressão, que também pedem ajuda

A última coluna é importante: às vezes o problema não é droga, ou não é só droga. Para um roteiro mais completo, veja como saber se meu filho está usando drogas.

O que a lei diz sobre adolescentes, álcool e drogas?

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) considera adolescente quem tem de 12 a 18 anos incompletos (art. 2º) e diz, no art. 4º, que garantir a saúde e a convivência familiar dele é dever da família, da comunidade, da sociedade e do poder público. Em outras palavras, a família não precisa e não deve carregar isso sozinha.

O ECA também traz regras diretas:

  • Art. 81: proíbe vender a crianças e adolescentes bebida alcoólica e produtos que possam causar dependência.
  • Art. 243: é crime vender, fornecer, servir ou entregar esses produtos a menor de 18 anos, mesmo de graça, com pena de detenção de 2 a 4 anos e multa.
  • Arts. 98 e 101: quando os direitos do adolescente estão ameaçados, inclusive pela própria conduta, cabem medidas de proteção, como orientação à família e requisição de tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico.
  • Art. 136: o Conselho Tutelar pode aplicar essas medidas e encaminhar a família à rede de atendimento.

Na escola, o Decreto nº 6.286/2007 criou o Programa Saúde na Escola, que inclui ações de prevenção ao uso de álcool e drogas entre as atividades de saúde na rede pública. Procurar o Conselho Tutelar não é “entregar o filho”; é pedir apoio. Veja como funciona em Conselho Tutelar e adolescente usando drogas.

O que fazer agora: passo a passo da família

  1. Respire antes de falar. Conversa no meio da madrugada, com ele alterado, vira briga. Escolha um momento calmo, em particular.
  2. Combine com o outro responsável. Pai, mãe, avó ou quem cuida precisam falar a mesma língua. Divergência na frente do filho vira brecha.
  3. Comece pelo que você viu, não pelo que suspeita. “Notei que você está faltando aula e chegando tarde” abre mais portas do que “você está usando droga, não minta”.
  4. Escute mais do que fala. Pergunte como ele está, o que tem sido difícil, com quem anda. O motivo do uso costuma aparecer aí.
  5. Defina poucas regras e as consequências antes. Horário de chegada, festas com adulto responsável, destino do dinheiro. Regra clara e cumprida com calma vale mais do que castigo dado com raiva.
  6. Fale com a escola. Uma reunião com a coordenação ajuda a juntar o que cada lado está vendo e a montar um acompanhamento.
  7. Busque orientação cedo. Na Bahia, a rede pública tem os CAPS (o infantojuvenil, chamado CAPSi, e o de álcool e drogas, o CAPS AD, nos municípios onde existem), as unidades básicas de saúde e o Conselho Tutelar de cada cidade.
  8. Cuide de você também. Pais exaustos brigam mais e escutam menos. Grupos de familiares e a codependência, quando a família adoece junto, merecem atenção desde o início.

Para preparar a primeira conversa com frases e exemplos por idade, leia como conversar com o filho sobre drogas.

Quando procurar ajuda profissional?

Procure avaliação de um profissional de saúde quando:

  • o uso se repete, mesmo depois da conversa e das regras combinadas;
  • a escola, o sono, o dinheiro ou as relações já estão sendo afetados;
  • aparecem tristeza profunda, ansiedade forte, isolamento ou falas de desesperança;
  • há sinais de envolvimento com venda de drogas, dívidas ou ameaças;
  • ele próprio diz que quer parar e não consegue.
Se o adolescente estiver desacordado, confuso, com dificuldade para respirar ou vomitando sem parar depois de beber ou usar, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU). Se surgirem falas sobre não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a equipe conversa com famílias em sigilo e ajuda a entender o momento e os próximos passos. Para adolescentes, pergunte se o serviço atende o perfil do seu filho; quando não for o caso, orientamos sobre a rede adequada. Conheça o tratamento para dependência química. Recebemos famílias de Salvador e de toda a Bahia.

Em resumo

  • Drogas na adolescência costumam começar por curiosidade, pertencimento, alívio de sofrimento ou fácil acesso.
  • Uma experiência não é dependência, mas repetição com prejuízo pede avaliação.
  • Observe mudanças em várias áreas ao mesmo tempo, e lembre que ansiedade e depressão podem estar por trás.
  • O ECA proíbe dar ou vender bebida e drogas a menores e prevê medidas de proteção e apoio à família.
  • Conversa calma, regras claras, escola junto e orientação cedo funcionam melhor do que castigo e vigilância.

Perguntas frequentes

Existe uma idade em que o risco de começar a usar é maior?

O começo costuma acontecer na adolescência, e quanto mais cedo o primeiro uso, maior a chance de problemas sérios depois, segundo o NIDA. Por isso a conversa em casa deve começar antes dos 12 anos e continuar ao longo de toda a adolescência, ajustada à idade.

Castigo resolve quando descubro que meu filho usou?

Consequência combinada ajuda; castigo dado no calor da raiva costuma afastar. Funciona melhor uma regra conhecida antes, aplicada com calma e acompanhada de conversa. O objetivo é que ele continue contando o que acontece, e não que aprenda a esconder melhor.

Pai e mãe moram em casas diferentes. Como manter as mesmas regras?

Vale combinar entre os dois, sem o filho presente, três ou quatro regras que valem nas duas casas: horário, festas, dinheiro e o que acontece se houver uso. Regras diferentes viram brecha. Se a conversa entre os pais for difícil, um mediador ou o acompanhamento familiar pode ajudar.

Se eu também bebo, tenho moral para falar de drogas com meu filho?

Tem, e a conversa fica mais honesta se você reconhecer isso. Explique a diferença entre a sua idade e a dele e mostre na prática que bebida não é remédio para estresse nem condição para festa. Se você sente que o seu próprio consumo saiu do controle, procurar ajuda também é uma lição para ele.

A escola pode ajudar mesmo quando o uso acontece fora dela?

Pode. Professores e coordenação percebem mudanças de rendimento, de amizades e de comportamento que a família às vezes não vê. Uma reunião com a coordenação ajuda a montar um acompanhamento conjunto, e a escola pública pode acionar o Programa Saúde na Escola e a rede de saúde do município.

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