Dinâmicas sobre drogas para adolescentes: atividades para escola e grupo
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026
Uma dinâmica sobre drogas é uma atividade em grupo em que os adolescentes treinam decisões, recusas e conversas sobre álcool e drogas, em vez de só ouvir uma palestra. As que funcionam melhor são curtas, repetidas ao longo do ano, partem de situações do dia a dia da turma e nunca expõem ninguém. Abaixo estão seis atividades prontas, com roteiro e cuidados.
Professores, coordenadores e líderes de grupos de jovens pedem muito à nossa equipe “alguma coisa para fazer com a turma que não seja mais uma palestra”. A boa notícia é que dá para fazer bem com papel, caneta e um combinado claro.
Por que dinâmica funciona melhor do que palestra?
Adolescente aprende fazendo e conversando com os colegas. Os padrões internacionais de prevenção do UNODC e da OMS associam mais efeito às atividades interativas que treinam habilidades, como resistir à pressão do grupo, tomar decisões e lidar com emoções. No mesmo documento, aula só expositiva, informação isolada com tom de medo e conversa sem roteiro aparecem entre as práticas sem efeito.
Por isso a dinâmica não é “brincadeira para passar o tempo”. Ela é o momento em que o aluno ensaia o que vai dizer quando a situação real chegar. Para entender o quadro maior, veja o que funciona na prevenção às drogas na escola.
Como preparar o grupo antes da primeira atividade?
Dez minutos de preparo evitam a maior parte dos problemas. Antes de começar:
- Combine as regras em voz alta: ninguém conta casos de pessoas com nome, ninguém é obrigado a falar, e o que for dito sobre a vida de alguém fica na sala.
- Explique o limite do sigilo: se alguém contar que corre perigo, o educador vai buscar ajuda, com discrição.
- Avise que ninguém vai perguntar quem usa. A conversa é sobre situações e escolhas, não sobre confissões.
- Use palavras sem rótulo: “pessoa que usa”, “pessoa com dependência”. Termos como “drogado” ou “noia” reforçam o estigma e afastam quem precisa de ajuda.
- Deixe de fora fotos chocantes, vídeos de overdose, demonstração de substância e qualquer explicação sobre como se usa.
Seis atividades de dinâmica sobre drogas para usar já
As atividades abaixo foram pensadas para o fundamental II e o ensino médio, e também servem para grupos de jovens. Faça uma por encontro, em sequência.
| Atividade | O que treina | Material | Melhor para |
|---|---|---|---|
| Semáforo da escolha | Avaliar risco e achar saídas | Cartões com situações, três folhas coloridas | 11 a 14 anos |
| Ensaio da recusa | Dizer não sem perder o grupo | Roteiros curtos em trios | Todas as idades |
| O que a turma pensa de verdade | Desfazer o “todo mundo faz” | Papel e uma caixa | 13 anos em diante |
| A segunda-feira depois | Enxergar consequências imediatas | Quadro e giz | Ensino médio |
| Minha rede de cinco | Saber a quem pedir ajuda | Folha com o contorno da mão | Todas as idades |
| Campanha de 30 segundos | Comunicar sem medo e sem estigma | Celular ou papel | Ensino médio e grupos |
1. Semáforo da escolha
Escreva em cartões situações que a turma reconhece: “o primo mais velho oferece cerveja no aniversário da avó”, “a turma vai matar aula para ir à praia e alguém leva bebida”, “um colega pede para você guardar uma coisa na mochila e não diz o que é”. Cada grupo coloca o cartão no verde, no amarelo ou no vermelho e, o mais importante, escreve uma saída possível para cada situação. A conversa final é sobre as saídas, não sobre quem acertou a cor.
2. Ensaio da recusa
Em trios, um oferece, um recusa e um observa. O tema da oferta é sempre bebida ou “uma coisa” sem nome; não é preciso detalhar substância nenhuma. Quem recusa testa jeitos diferentes: o não curto e firme, a troca de assunto, a desculpa pronta (“meu pai vem me buscar”), sair de perto. O observador conta qual pareceu mais natural. Depois, todos trocam de papel. Quem quiser aprofundar encontra mais ideias em pressão dos amigos e drogas na adolescência.
3. O que a turma pensa de verdade
Cada aluno responde, sem nome, a três perguntas de opinião, nunca de comportamento. Exemplos: “Você acha legal insistir para alguém beber?”, “Você ficaria chateado se um amigo recusasse?”, “Você acha que a maioria da turma aprova insistir?”. O professor conta as respostas na frente de todos. Muitas vezes a turma descobre que acredita que os outros aprovam mais a insistência do que de fato aprovam. Essa diferença é a conversa.
4. A segunda-feira depois
Conte uma história inventada de um sábado em que alguém bebeu escondido numa festa. No quadro, a turma escreve tudo o que pode acontecer até a segunda-feira: a foto que circulou no grupo, a briga com os pais, o castigo, a vergonha na escola, a carona com alguém que bebeu. Os padrões do UNODC recomendam falar das consequências próximas, que pesam mais para o adolescente do que doenças que aparecem só depois de muitos anos.
5. Minha rede de cinco
Cada um desenha a própria mão e escreve, em cada dedo, um adulto a quem poderia pedir ajuda: alguém da família, um professor, o agente de saúde, o líder do grupo. Na palma, a turma escreve junto os serviços da cidade, como a unidade de saúde e o CAPS AD. A folha fica com o aluno.
6. Campanha de 30 segundos
Os grupos criam um áudio, um cartaz ou um vídeo curto para a rádio ou o mural da escola. Regra: sem caveira, sem imagem chocante e sem rótulo. Antes de divulgar, a turma confere se a peça mostra uma saída, e não só o problema.
Como adaptar as atividades para a Bahia?
Situação genérica não prende a atenção. Use o calendário que a turma vive: São João no interior, Carnaval em Salvador, festas de largo, o paredão do bairro, o fim de ano letivo. A Lei de Drogas, no art. 19-A, criou a Semana Nacional de Políticas sobre Drogas na quarta semana de junho, justamente perto do São João. É uma boa época para o semáforo e para a campanha da turma.
A mesma lei traz, no art. 19, X e XI, a formação dos profissionais de educação e os projetos pedagógicos de prevenção nas escolas públicas e privadas entre as diretrizes da prevenção. Nas escolas que participam do Programa Saúde na Escola, a equipe de saúde da família pode ajudar a planejar os encontros. E vale lembrar a turma que, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, arts. 81 e 243, vender ou fornecer bebida alcoólica a criança ou adolescente é proibido, e o fornecimento é crime.
O que fazer se um adolescente se abrir durante a dinâmica?
Às vezes a atividade toca em algo real: um aluno conta que bebe, que alguém da casa usa ou que se sente pressionado. O passo a passo:
- Agradeça e não aprofunde diante da turma. Diga algo como “obrigado por confiar, vamos conversar depois”.
- Converse em particular no mesmo dia, com calma, escutando mais do que falando.
- Leve à coordenação, com discrição, e combine com ela como a família será chamada.
- Converse com a família de forma acolhedora, sem tom de denúncia, e indique a rede de saúde.
- Registre o mínimo necessário e não comente o caso com outros colegas.
O guia para quando o professor percebe que um aluno está usando drogas detalha o que a escola pode e não pode fazer.
Procure ajuda profissional, na unidade de saúde ou no CAPS da cidade, quando houver sinais repetidos de uso, faltas frequentes, isolamento ou tristeza que dura semanas.
Se um adolescente falar em não querer viver, não o deixe sozinho e busque um adulto responsável. O CVV atende 24 horas pelo 188, de graça. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).
Como a família continua a conversa em casa?
A dinâmica rende mais quando chega à mesa do jantar. Para os pais:
- Pergunte o que aconteceu na atividade, e não “o que falaram de droga”.
- Faça a mesma pergunta do semáforo: “e se fosse com você, o que faria?”.
- Combine uma senha para o filho pedir para ser buscado de uma festa sem dar explicação na hora.
- Ouça sem sermão, mesmo quando a resposta incomodar.
Veja um roteiro completo em como conversar com seu filho sobre drogas. E se a família já está desgastada pelo uso de alguém da casa, o guia sobre codependência ajuda a cuidar de quem cuida.
Como podemos ajudar
O Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, orienta educadores e famílias com sigilo. Quando já existe dependência, oferecemos tratamento da dependência química com avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas, plano terapêutico individual e a família junto. Recebemos famílias de Salvador e de toda a Bahia.
Em resumo
- Dinâmica sobre drogas funciona quando treina escolhas e recusas, e não quando assusta.
- Combine regras antes: ninguém expõe ninguém e ninguém pergunta quem usa.
- Faça uma atividade por encontro, em sequência, ao longo do ano.
- Use situações da Bahia e do calendário da turma, como São João e Carnaval.
- Se alguém se abrir, acolha, converse em particular e chame a família e a rede de saúde.
Perguntas frequentes
Quanto tempo deve durar uma dinâmica sobre drogas?
Cada atividade deste roteiro cabe em uma aula de 40 a 50 minutos, contando a conversa final. Mais importante do que a duração de um encontro é a repetição: as diretrizes da ONU e da OMS associam mais efeito a uma série de encontros ao longo do ano do que a um evento único.
Dá para usar essas dinâmicas no grupo de jovens da igreja?
Dá. As atividades não dependem de religião e funcionam em qualquer grupo com regras de convivência combinadas. Se o grupo quiser incluir uma reflexão de fé, ela pode entrar no fim, sem transformar a conversa em sermão nem em julgamento de quem já usou.
Como fazer a dinâmica com uma turma de 40 alunos?
Divida a turma em grupos de quatro a cinco, cada um com um papel definido, como leitor, relator e quem cuida do tempo. O professor circula entre os grupos e reserva os dez minutos finais para cada grupo apresentar uma ideia só. Turma grande pede mais regra, e não menos conversa.
Um aluno fez piada ou riu durante a atividade. Como reagir?
Riso costuma ser defesa ou desconforto, e não necessariamente desrespeito. Lembre o combinado da turma sem humilhar ninguém e devolva a pergunta ao grupo. Se a piada for sobre um colega ou sobre alguém da família de um colega, interrompa com firmeza e converse depois, em particular.
Vale avisar os pais antes de fazer a dinâmica?
Vale. Um bilhete simples dizendo o tema e o objetivo evita boatos e abre espaço para a conversa continuar em casa. Também ajuda a família a não se assustar quando o filho chegar com perguntas sobre álcool e drogas.
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