Por que algumas pessoas desenvolvem dependência e outras não

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 18/10/2026

Algumas pessoas desenvolvem dependência e outras não porque o risco é uma soma de fatores, e nenhum deles decide sozinho. Pesam os genes, a idade do primeiro uso, o ambiente em casa e no bairro, a saúde mental e a forma de uso. Do outro lado, vínculos fortes, apoio da família e autoconfiança protegem. Quanto mais fatores de risco, maior a chance.

Se você está lendo isto porque tem casos na família e teme pelo filho, pelo irmão ou por você mesmo, a preocupação já é um passo de cuidado. Conhecer os fatores de risco da dependência química ajuda a agir cedo, sem culpa e sem pânico.

Por que o mesmo copo não tem o mesmo efeito em todo mundo?

Duas pessoas podem começar a beber na mesma festa, com a mesma idade, e seguir caminhos opostos. Uma continua bebendo de vez em quando; a outra, em poucos anos, perde o controle. Isso não é sorte nem falta de caráter.

O Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA (NIDA) resume a questão assim: nenhum fator isolado determina se alguém vai se tornar dependente. O que existe é um conjunto de fatores de risco, que aumentam a chance, e de fatores de proteção, que a diminuem. Uns são biológicos; outros vêm da família, da escola e da comunidade.

Isso ajuda a entender por que a ciência trata a dependência como condição de saúde, e não como escolha moral. Vale ler, com calma, o nosso texto sobre por que dependência química é doença.

Quais fatores aumentam o risco de dependência química?

Para facilitar, separamos os principais em uma tabela. Os itens vêm do material do NIDA citado acima, com exemplos nossos.

Fator de riscoO que significa na vida real
GenéticaPai, mãe, avô ou tio com dependência de álcool ou drogas
Início cedoPrimeiro gole ou primeiro baseado ainda na adolescência
Ambiente em casaAdultos que usam ou bebem demais, pouca supervisão, violência, abuso
Amigos e escolaTurma que usa, dificuldade de dizer não, notas ruins, isolamento
ComunidadePobreza no bairro, droga fácil de conseguir, poucos espaços de lazer
Saúde mentalAnsiedade, depressão, trauma e outros transtornos sem tratamento
Forma de usoFumar ou injetar a droga, que chega ao cérebro em segundos
Comportamento na infânciaAgressividade frequente desde pequeno

Dois pontos merecem destaque. O primeiro é a genética: segundo o NIDA, os genes, somados ao efeito que o ambiente tem sobre eles (a chamada epigenética), respondem por algo entre 40% e 60% do risco de uma pessoa. É muito, mas não é tudo: sobra um espaço grande em que o ambiente e as escolhas de cuidado fazem diferença.

O segundo é a saúde mental. O NIDA aponta que transtornos mentais e dependência aparecem juntos com frequência, e que um pode abrir caminho para o outro. Muitas vezes o álcool ou a droga começa como um “remédio” improvisado para a angústia, a insônia ou a lembrança de um trauma.

Por que começar na adolescência pesa tanto?

O cérebro continua em formação até o começo da vida adulta. Uma das últimas áreas a amadurecer é o córtex pré-frontal, a parte que ajuda a avaliar riscos, tomar decisões e segurar impulsos. O NIDA explica que é justamente por isso que adolescentes correm mais risco de experimentar e de continuar usando, e que quanto mais cedo o uso começa, maior a chance de problemas sérios, inclusive dependência.

Na Bahia, o primeiro contato costuma acontecer em ambientes que parecem inofensivos: o paredão do bairro, a festa de largo, o São João no interior, o churrasco da família em que o adolescente “só prova”. Vale lembrar o que diz a lei: o Estatuto da Criança e do Adolescente proíbe, no art. 81, a venda de bebida alcoólica a menores de 18 anos, e o art. 243 define como crime vender, fornecer ou servir bebida alcoólica a criança ou adolescente, ainda que de graça.

Retardar o primeiro uso não é exagero de pai preocupado. É uma das formas mais concretas de reduzir o risco.

O que protege uma pessoa da dependência?

Esta é a parte que costuma faltar nas conversas, e é a mais animadora. Os fatores de proteção listados pelo NIDA são, em grande medida, coisas que a família e a comunidade podem construir:

  • Vínculos fortes. Relações próximas com pais, avós, professores ou líderes da comunidade e da igreja.
  • Acompanhamento com afeto. Saber onde o filho está e com quem, sem transformar isso em vigilância hostil.
  • Autoconfiança. Acreditar que consegue dizer não e controlar os próprios impulsos.
  • Vida escolar e projetos. Bom desempenho, esporte, música, trabalho, algo que dê sentido ao dia.
  • Comunidade com recursos. Praça, quadra, grupo de jovens, CAPS e outros serviços por perto.
  • Regras claras. Uma escola e uma casa que deixam claro que álcool e droga não fazem parte da rotina.

Nenhum desses itens garante nada, assim como nenhum fator de risco condena ninguém. Mas cada proteção a mais pesa na balança.

“Na minha família tem muito caso. O que eu faço?”

Essa é uma dúvida comum entre mães, pais e avós. Um roteiro simples para começar hoje:

  1. Conte a história da família com honestidade. Filhos e netos devem saber, em linguagem adequada à idade, que há casos de dependência na família e que isso pede mais cuidado com álcool e drogas.
  2. Adie o primeiro uso o máximo possível. Combine regras claras sobre festas e bebida e explique o porquê.
  3. Observe a saúde emocional. Tristeza que não passa, isolamento, ansiedade e insônia merecem atenção profissional, com ou sem uso de substância.
  4. Cuide do exemplo em casa. Beber para “relaxar” todos os dias ensina mais do que qualquer conversa.
  5. Fique atento aos primeiros sinais. Mudança de amigos, queda na escola, dinheiro sumindo, irritação. Veja a lista completa em sinais de dependência química.
  6. Busque ajuda cedo. Não é preciso esperar a dependência se instalar para conversar com um profissional. Pais encontram um passo a passo em filho dependente químico: guia para pais.

Se o problema já existe e a pessoa não reconhece, entenda como funciona a negação na dependência química.

Quando procurar ajuda profissional?

Procure avaliação quando:

  • o uso de álcool ou drogas começou na adolescência e está ficando frequente;
  • há perda de controle: a pessoa bebe ou usa mais do que pretendia e não consegue parar;
  • o uso vem junto com tristeza profunda, ansiedade forte, trauma ou mudanças bruscas de comportamento;
  • a família já não sabe como agir e está adoecendo junto.

A rede pública tem os CAPS, inclusive os CAPS AD, voltados para álcool e drogas. Familiares também encontram apoio em grupos como o Nar-Anon.

Se houver falas sobre não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça. Em risco imediato à vida, como intoxicação grave, convulsão ou agressividade, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a avaliação considera a história da pessoa e da família, com avaliação psiquiátrica presencial, plano terapêutico individual, enfermagem 24 horas e a família participando, sempre com sigilo. Conheça o tratamento para dependência química. Recebemos famílias de Salvador e de toda a Bahia.

Em resumo

  • Dependência não tem uma causa só: é a soma de fatores de risco, menos os de proteção.
  • Os genes respondem por cerca de 40% a 60% do risco; o resto passa pelo ambiente e pela história de vida.
  • Começar cedo, sofrer com ansiedade, depressão ou trauma e crescer perto do uso aumentam a chance.
  • Vínculos, acompanhamento com afeto, autoconfiança e projetos de vida protegem.
  • Ter casos na família pede mais cuidado e informação, não medo nem rótulo.

Perguntas frequentes

Filho de pai alcoólatra vai ser alcoólatra também?

Não obrigatoriamente. Ter pai ou mãe com dependência aumenta o risco, pela herança genética e pelo ambiente em que a criança cresce, mas não decide o destino de ninguém. Muitos filhos de pessoas com dependência nunca desenvolvem o problema, sobretudo quando têm apoio, vínculos e informação.

Existe exame que mostra se alguém vai ficar dependente?

Não existe um exame que diga com certeza quem vai desenvolver dependência. O risco é a soma de muitos fatores, biológicos e do ambiente, e nenhum deles sozinho define o resultado. O que ajuda na prática é conhecer a história da família e observar os sinais cedo.

Quem tem ansiedade ou depressão corre mais risco de dependência?

Sim. Pessoas com transtornos mentais têm risco maior de usar substâncias e de desenvolver dependência, muitas vezes porque o álcool ou a droga vira uma forma de aliviar o sofrimento. Tratar a ansiedade e a depressão com profissional de saúde também é uma forma de proteção.

Um adulto que nunca teve problema com álcool ou droga pode ficar dependente?

Pode. Começar cedo aumenta muito o risco, mas a dependência pode aparecer em qualquer idade, por exemplo depois de uma perda, de uma aposentadoria ou de um período de muito estresse. Por isso vale prestar atenção a mudanças no padrão de uso em qualquer fase da vida.

Oferecer bebida ao adolescente em casa ensina a beber com moderação?

Não há base para contar com isso. As pesquisas mostram que, quanto mais cedo o uso começa, maior a chance de problemas sérios, e o Estatuto da Criança e do Adolescente proíbe fornecer bebida alcoólica a menores de 18 anos. Conversar, dar exemplo e acompanhar a rotina protegem mais.

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