Os estágios da mudança: em que fase está seu familiar

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 18/10/2026

Os estágios de mudança são as fases que uma pessoa costuma atravessar até largar o álcool ou outra droga: pré-contemplação, contemplação, preparação, ação e manutenção. Saber em que fase o seu familiar está muda o que vale a pena dizer e fazer agora, e evita brigas que só empurram a pessoa para trás.

O que são os estágios de mudança?

A ideia vem do chamado modelo transteórico, criado pelos psicólogos James Prochaska e Carlo DiClemente a partir de pesquisas com pessoas que tentavam parar de fumar por conta própria. Depois, o modelo passou a ser usado também para álcool e outras drogas. Num artigo de 1992 na revista American Psychologist, os autores descrevem a mudança como um caminho em espiral, e não em linha reta: a pessoa avança, às vezes volta, e retoma de um ponto mais adiante.

Em linguagem simples, o modelo diz que ninguém passa do “não tenho problema” para “estou em tratamento” de uma vez. Existe um meio do caminho, cheio de dúvida, e é nele que a família mais pode ajudar. Isso combina com o que já explicamos sobre por que a dependência química é uma doença: o cérebro alterado pelo uso torna a decisão de parar mais difícil do que parece de fora.

Quais são os cinco estágios, um por um?

EstágioComo costuma soar em casaO que mais ajuda nessa fase
Pré-contemplação“Eu paro quando quiser.” “Vocês exageram.”Manter o vínculo, falar de fatos concretos sem acusar, não desistir da relação
Contemplação“Sei que estou passando do ponto, mas…”Ajudar a pessoa a ouvir os próprios motivos para mudar, sem pressa
Preparação“Semana que vem eu vou procurar ajuda.”Transformar a intenção em passo concreto: endereço, horário, quem vai junto
AçãoEstá em tratamento ou parou de usar há pouco tempoApoio prático, rotina, casa sem bebida, reconhecer o esforço
ManutençãoMeses sem usar, cuidando para não voltarPrevenção de recaída, atenção aos gatilhos, vida nova com sentido

Um estudo brasileiro publicado na revista Estudos de Psicologia entrevistou cinco pessoas que tinham parado de beber e frequentavam um grupo de ajuda mútua. Todas tinham passado pelas cinco fases. O estudo é pequeno, mas ilumina bem o que acontece na prática:

  • O que tirou as pessoas das primeiras fases foram as perdas: na família, no trabalho, no dinheiro, na saúde, na memória. A mudança começava quando o prejuízo do uso passava a pesar mais que o alívio que ele trazia.
  • O que mais atrapalhou antes da ação foi justamente esse alívio: beber para fugir dos problemas ou para se divertir com os amigos.
  • A família teve dois lados. O apoio ajudou muito na fase de ação. Já a superproteção de um cônjuge atrapalhou na preparação, e brigas e agressões verbais em casa dificultaram a manutenção.
  • Recaídas apareceram no meio do caminho, e as pessoas retomaram depois. A contemplação, a fase da dúvida, pôde durar meses ou anos.

Como saber em que fase está seu familiar?

Não existe teste de casa que dê a resposta exata, mas algumas perguntas ajudam a ter uma pista. Observe ao longo de algumas semanas, sem interrogatório:

  1. Ele reconhece algum prejuízo do uso, mesmo pequeno? Se a resposta é sempre “não tenho problema nenhum”, a fase provavelmente é a pré-contemplação.
  2. Ele fala em parar “um dia”, mas sem data nem plano? É o retrato da contemplação: a pessoa vê o problema e, ao mesmo tempo, não quer abrir mão do que sente que ganha com o uso.
  3. Ele já pesquisou, perguntou, marcou algo? Pedir o endereço do CAPS AD, perguntar como é uma clínica ou tentar diminuir sozinho são sinais de preparação.
  4. Ele já está fazendo algo diferente, como ir a consultas, ao grupo ou estar internado? É ação.
  5. Faz mais de seis meses que a mudança se mantém? Pela forma como o modelo costuma ser descrito, aí começa a manutenção.

Uma observação importante: a negação típica da primeira fase não é simples mentira. Explicamos isso em detalhe no artigo sobre a negação na dependência química.

O que a família pode fazer em cada fase?

Uma pergunta que ouvimos muito é: “se ele não quer, não adianta nada?”. Adianta, sim, mas o tipo de ajuda muda. O próprio artigo de Prochaska e colegas defende que a ajuda funciona melhor quando combina com a fase em que a pessoa está.

  • Na pré-contemplação: em vez de discutir se ele é ou não dependente, fale do que você viu e sentiu. “Ontem você chegou às três da manhã e não lembrava do caminho. Fiquei com medo.” Escolha um momento em que ele não esteja sob efeito. Cuide também da sua saúde; essa fase pode ser longa.
  • Na contemplação: pergunte mais do que afirme. “O que você ganharia se bebesse menos?” “O que te preocupa nisso?” Deixe que ele diga os motivos dele, que costumam convencer mais do que os seus. Veja outras ideias em como convencer um dependente a se tratar.
  • Na preparação: é hora de facilitar. Tenha à mão o contato de um serviço, ofereça companhia na primeira consulta, combine quem cuida das crianças ou do trabalho. Uma janela de decisão pode fechar rápido.
  • Na ação: reconheça o esforço, organize a rotina e retire a bebida de casa. Evite cobrar tudo de uma vez: emprego, dívidas e relações se arrumam aos poucos.
  • Na manutenção: fique atento aos sinais de alerta, como isolamento, faltas no grupo e volta a antigas companhias, e converse com calma quando aparecerem.

Um cuidado que vale para todas as fases: ultimatos que você não vai cumprir enfraquecem a sua palavra. Limites funcionam quando são poucos, claros e sustentados.

E quando a pessoa volta atrás?

Voltar a usar depois de um tempo, ou voltar a dizer que “está tudo sob controle”, faz parte do caminho de muita gente. Na espiral do modelo, quem recai não volta necessariamente à estaca zero: costuma retomar com mais conhecimento sobre o que deu errado. O Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA explica que a recaída é um sinal para retomar ou ajustar o tratamento, e não prova de que ele falhou.

Para o que fazer na hora, veja o passo a passo de recaída: o que fazer.

Quando procurar ajuda profissional sem esperar a fase “certa”?

Os estágios ajudam a escolher a conversa. Eles não são motivo para esperar quando há risco. Procure ajuda agora se:

  • a pessoa teve convulsão, confusão intensa, desmaio ou sinais de intoxicação grave;
  • o uso de álcool ou de remédios calmantes é diário e pesado: parar de repente, sem médico, pode ser perigoso e pede avaliação médica;
  • há agressividade, ameaças ou risco para crianças e idosos da casa;
  • aparecem falas de desesperança ou de não querer viver.

Fora da emergência, uma avaliação médica pode indicar o tratamento adequado mesmo para quem ainda não se convenceu. Quando a internação involuntária é necessária, a Lei 10.216/2001 exige laudo médico que justifique a medida. Entenda melhor em internação involuntária.

Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU). Se surgirem falas sobre não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a família é ouvida desde o primeiro contato, inclusive quando a pessoa ainda não aceita ajuda. Há avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas, plano terapêutico individual e sigilo. Orientamos a chegada e, na internação involuntária, conduzimos a parte legal. Atendemos famílias de Camaçari, Salvador e região. Conheça o tratamento para dependência química.

Em resumo

  • Os estágios de mudança são cinco: pré-contemplação, contemplação, preparação, ação e manutenção.
  • A mudança anda em espiral: avançar, voltar e retomar é comum.
  • Cada fase pede uma ajuda diferente; sermão na fase errada costuma afastar.
  • Perdas concretas movem a mudança; apoio da família ajuda, superproteção e brigas atrapalham.
  • Risco à vida ou à saúde não espera fase: procure atendimento.

Perguntas frequentes

Quanto tempo uma pessoa fica em cada estágio de mudança?

Não existe prazo fixo. Há quem passe semanas pensando no assunto e há quem fique meses ou anos em dúvida. O que a família pode observar é se a conversa está andando, mesmo devagar, e não o calendário.

Dá para pular um estágio e ir direto para o tratamento?

Às vezes uma crise, como uma internação de urgência ou uma perda grande, acelera tudo e a pessoa chega ao tratamento antes de estar decidida. Isso não é problema: a motivação também pode ser construída durante o tratamento, com a ajuda da equipe.

Existe um teste para saber em que estágio meu familiar está?

Profissionais usam entrevistas e questionários para avaliar a prontidão para mudar, mas o resultado só faz sentido dentro de uma avaliação completa. Em casa, as perguntas deste artigo servem como pista, não como diagnóstico.

A família também passa por estágios de mudança?

Sim. Muitos familiares passam pelo mesmo caminho: primeiro acham que é fase, depois desconfiam, começam a se informar e, por fim, mudam a forma de agir em casa. Reconhecer a própria fase ajuda a cuidar de si e a não exigir do outro o que você mesmo ainda está aprendendo.

Meu familiar está na fase de “não tenho problema” e corre risco. Preciso esperar ele mudar de ideia?

Não. Se há risco à vida ou à saúde, a prioridade é a segurança, e não a fase. Em emergência, ligue 192. Fora da emergência, uma avaliação médica pode indicar o melhor caminho, e a internação involuntária, quando necessária, segue a Lei 10.216/2001 e depende de laudo médico.

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