Dia de jogo sem bebida: futebol e recuperação em Salvador
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026
Para quem está em recuperação, o dia de jogo costuma ser um gatilho forte, porque o futebol vinha junto com a cerveja: no bar, na resenha e no estádio. Dá para continuar torcendo, desde que o plano seja decidido antes da partida: onde assistir, com quem, o que beber e como sair, ganhe ou perca o time.
É uma cena comum: a pessoa está bem há semanas, aí chega um Bavi e tudo balança. Isso não é fraqueza de caráter; é o cérebro ligando o jogo à bebida.
Por que futebol e bebida pesam tanto na recuperação?
Durante anos, o jogo funcionou como um ritual completo: encontrar os amigos, abrir a primeira cerveja antes do apito, comemorar o gol com um gole, afogar a derrota em outro. O Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA (NIDA) explica que pessoas, lugares, coisas e estados de humor ligados ao uso estão entre os gatilhos mais comuns de recaída. O dia de jogo junta todos eles no mesmo dia.
Em Salvador, isso ganha cor local: o bar da esquina com a televisão ligada, a barraca na porta da Fonte Nova ou do Barradão, o churrasco da família no domingo, o grupo de torcedores que sempre se encontra no mesmo ponto. Para entender os gatilhos em geral, veja gatilhos de recaída: pessoas, lugares e emoções.
Quais momentos do jogo exigem mais atenção?
| Momento | O que costuma acontecer | Uma resposta possível |
|---|---|---|
| Antes do jogo | Encontro no bar, “esquenta”, isopor no carro | Chegar perto do início e combinar o ponto de encontro longe do bar |
| Gol do seu time | Vontade de comemorar “como antes” | Ter sempre um copo de água ou refrigerante na mão |
| Gol contra ou derrota | Raiva, frustração, discussão | Sair do ambiente por alguns minutos e ligar para alguém |
| Clássico | Mais gente, mais emoção, mais bebida circulando | Escolher assistir num lugar mais calmo nesse dia |
| Depois do apito | Resenha que vira a noite | Já ter decidido a hora de ir embora e quem leva você |
Repare que a vitória também entra na lista. Euforia e comemoração pedem cuidado tanto quanto a raiva da derrota.
Como torcer sem beber: o plano para o dia de jogo
- Decida onde vai assistir na véspera, não no dia. Nos primeiros meses, casa ou casa de um amigo que não bebe costumam ser opções mais tranquilas que o bar e o estádio.
- Escolha um parceiro de jogo sóbrio. Alguém que sabe da sua recuperação e topa sair junto com você se ficar pesado.
- Leve a sua bebida. Água, suco ou refrigerante já na mão diminuem as ofertas. Veja frases prontas em como recusar bebida na recuperação.
- Combine a hora de chegar e a de sair. Chegar perto do apito inicial e ir embora logo depois do fim evita o “esquenta” e a resenha estendida.
- Coma antes e não vá cansado. Fome e cansaço deixam qualquer pessoa mais vulnerável à vontade de beber.
- Tenha um plano para os dois resultados. “Se ganhar, vou comemorar com um açaí com meu filho. Se perder, vou para casa e ligo para meu padrinho.”
- Tenha um nome para ligar. Pode ser um padrinho de Alcoólicos Anônimos ou de Narcóticos Anônimos, um familiar ou a equipe que acompanha.
Uma atenção extra: dia de jogo também costuma ser dia de aposta. Se o palpite no celular virou outro problema, leia vício em apostas: quando a bet vira doença.
E se a pessoa beber no dia do jogo?
Primeiro, segurança. Quem bebeu não pode dirigir: o Código de Trânsito Brasileiro trata como infração gravíssima dirigir sob influência de álcool (art. 165), e dirigir com a capacidade alterada pelo álcool é crime (art. 306). Combine antes quem leva para casa ou use transporte por aplicativo.
Depois, sem sermão no calor do momento. A conversa fica para o dia seguinte, com calma. O NIDA lembra que a recaída é um sinal para retomar ou ajustar o tratamento, e não prova de que ele falhou. O passo a passo está em recaída: o que fazer.
O que a família pode fazer no dia de jogo?
Uma dúvida comum é se a família deve “cortar o futebol” da vida da pessoa. Na maioria das vezes, não. O time faz parte da identidade de muita gente, e tirar isso de uma vez pode deixar um vazio grande. O que costuma ajudar:
- Combinar, não proibir. Perguntar como ele quer assistir e o que a família pode fazer junto.
- Trazer o jogo para casa. Uma tarde de jogo com petisco, refrigerante e a família por perto pode virar um novo ritual.
- Tirar a bebida de casa nesses dias, se isso foi combinado com ele.
- Não fazer vigilância ostensiva. Ficar contando copos ou mandando mensagem a cada dez minutos cansa e vira briga.
Para outras festas do calendário baiano, vale a mesma lógica dos guias de Carnaval sem recaída, festas de largo em Salvador e São João sem álcool.
Quando procurar ajuda profissional?
Procure a equipe de saúde quando:
- todo dia de jogo termina em bebida, mesmo com o plano;
- a pessoa não consegue ficar longe do bar ou do estádio, mesmo querendo;
- a vontade de beber aparece com tristeza profunda, ansiedade forte ou falas de desesperança;
- voltou a beber em grande quantidade: parar de repente, sem médico, pode ser perigoso e pede avaliação médica.
A Organização Mundial da Saúde lembra que o álcool está ligado a lesões, violência e acidentes de trânsito. Se não sabe por onde começar na rede pública ou particular, veja onde buscar ajuda para dependência química em Salvador.
Se surgirem falas sobre não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).
Como podemos ajudar
No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, o plano terapêutico individual prepara a pessoa para situações reais como o dia de jogo, com avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas e a família participando, sempre com sigilo. Conheça o tratamento para alcoolismo. Recebemos famílias de Salvador e de toda a Bahia.
Em resumo
- O dia de jogo junta vários gatilhos: amigos, bar, estádio, emoção e o hábito da cerveja.
- Vitória e derrota pedem plano; a euforia também é gatilho.
- Decida antes onde assistir, com quem, o que beber e a hora de sair.
- A família ajuda mais combinando um novo jeito de torcer do que proibindo.
- Se a pessoa beber, segurança primeiro e conversa calma depois, com a equipe de tratamento.
Perguntas frequentes
Quem parou de beber precisa deixar de ir ao estádio?
Não necessariamente. Nos primeiros meses, muita gente prefere assistir em casa ou num lugar sem bebida. Quem volta ao estádio costuma se sair melhor indo com alguém sóbrio, chegando perto do início e saindo logo depois do apito.
Cerveja sem álcool ajuda no dia de jogo?
Para algumas pessoas o gosto e o ritual da cerveja funcionam como gatilho, mesmo sem álcool. Por isso vale conversar com a equipe que acompanha o tratamento antes de usar essa saída. Água, refrigerante ou suco são opções mais seguras para quem está no começo.
Derrota do time pode levar à recaída?
Pode pesar, porque a raiva e a frustração eram muitas vezes “resolvidas” com a bebida. A vitória também pede atenção, porque chama comemoração. Ter um plano pronto para os dois resultados ajuda mais do que torcer para o placar.
Meu marido só vê jogo no bar com os amigos. Devo proibir?
Proibir costuma gerar briga e não protege de verdade. Funciona melhor combinar juntos um jeito novo de assistir, como em casa, na casa de um amigo que não bebe ou num lugar sem bebida, e reconhecer cada jogo atravessado sem beber.
Torcer com muita emoção faz mal para quem está em recuperação?
A emoção do jogo não é o problema; ela faz parte do futebol. O cuidado é perceber quando a raiva ou a euforia ficam fortes demais e ter algo combinado para esse momento, como sair um pouco, ligar para alguém ou beber água.
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