Vício em apostas (bets): quando o jogo vira dependência
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 18/10/2026
Vício em bets é o nome popular do transtorno do jogo: a pessoa perde o controle sobre as apostas, passa a pensar nelas o tempo todo e continua apostando mesmo quando já perdeu dinheiro, confiança e paz. A Organização Mundial da Saúde o classifica ao lado das dependências químicas. Tem tratamento, e a família pode começar a agir hoje.
O que é o vício em bets, em palavras simples
Apostar é arriscar dinheiro num resultado incerto. Para a maioria das pessoas, fica nisso. Para algumas, o jogo vira o centro da vida. A ficha da OMS sobre jogos de aposta explica que, na CID-11, o transtorno do jogo tem três marcas:
- perda de controle sobre quando começar, quanto apostar e quando parar;
- prioridade crescente para o jogo, acima do trabalho, da família e do descanso;
- continuação apesar das consequências: dívidas, brigas, mentiras, faltas.
A OMS descreve o transtorno do jogo ao lado dos transtornos por uso de substâncias e lembra que o jogo on-line está acessível quase em qualquer lugar, a qualquer hora. Com o celular sempre no bolso, o vício em apostas pode avançar em silêncio. Entenda por que a dependência é tratada como doença.
É só diversão ou já virou vício? Perguntas para a família
Não existe exame de sangue para o transtorno do jogo. O diagnóstico é clínico, feito por médico ou psicólogo. Mas algumas perguntas ajudam a família a enxergar o tamanho do problema. Nos últimos 12 meses, a pessoa:
| Pergunta | Por que importa |
|---|---|
| Aposta para recuperar o que perdeu? | É o famoso “correr atrás do prejuízo” |
| Precisa apostar valores maiores para sentir a mesma emoção? | Funciona como a tolerância nas drogas |
| Fica irritada ou ansiosa quando tenta parar ou quando não pode jogar? | Lembra a abstinência |
| Mente sobre quanto gasta ou esconde extratos e aplicativos? | O segredo costuma crescer junto com a dívida |
| Pediu dinheiro emprestado, vendeu objetos ou usou dinheiro da casa? | Mostra que o jogo já atinge a família |
| Deixou de lado trabalho, estudo ou sono para jogar? | A prioridade já mudou |
| Promete parar e não consegue? | É a perda de controle |
Essas perguntas não são um teste nem dão diagnóstico. Se várias respostas foram “sim”, já vale procurar uma avaliação. Não é preciso esperar a dívida ficar impagável.
Por que o assunto preocupa tanto no Brasil
O problema não é pequeno nem restrito a um grupo. Um documento da Fiocruz e da Abrasco entregue à Presidência da República em setembro de 2026 cita estimativas do III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Unifesp): 10,9 milhões de brasileiros com 14 anos ou mais faziam uso de risco ou problemático do jogo, e 1,4 milhão preenchiam critérios de transtorno do jogo. O mesmo texto alerta que o risco não se restringe à pobreza: atravessa diferentes segmentos sociais.
A OMS também lista danos que atingem as famílias: dinheiro que falta para comida e aluguel, rompimento de relações, violência dentro de casa e um risco maior de suicídio entre pessoas com o transtorno.
Se a pessoa fala em desistir da vida, em “sumir” ou em “acabar com tudo” por causa das dívidas, não espere. O CVV atende 24 horas pelo 188, de graça e em sigilo. Em risco imediato, ligue 192 (SAMU) ou procure a emergência mais próxima.
O que mudou com a proibição das bets em 2026
Em 25 de setembro de 2026, a Medida Provisória nº 1.394 proibiu no país a exploração, a oferta e a propaganda das apostas de quota fixa. Na prática:
- A proibição vale para apostas esportivas e para jogos on-line, em que o resultado sai de um sorteio eletrônico, como os cassinos on-line, inclusive quando a empresa fica no exterior e oferece o jogo a quem está no Brasil (art. 1º).
- Os sites e aplicativos autorizados tinham 10 dias para sair do ar (art. 7º), e as autorizações se extinguem em 30 dias (art. 4º).
- O dinheiro do apostador deve ser devolvido. As apostas em aberto ficam sem efeito, com restituição integral, sem descontos (art. 7º, § 2º). Os bancos devolvem os valores para conta no CPF do apostador; o que não puder ser devolvido vai para uma conta específica na Caixa (art. 9º).
- A propaganda ficou proibida (art. 16), e a MP prevê o bloqueio dos sites que oferecem apostas (art. 23).
A MP também revogou boa parte da Lei nº 14.790/2023, que regulava as apostas. Mas atenção: uma medida provisória tem força de lei desde já, só que perde a eficácia se não for convertida em lei pelo Congresso em 60 dias, prorrogáveis uma vez por mais 60 (Constituição, art. 62, §§ 3º e 7º). As regras ainda podem mudar no Congresso ou na Justiça.
O que isso significa para a família: menos oferta e menos propaganda ajudam, mas a lei não trata a dependência. Quando o aplicativo some, podem aparecer irritação, ansiedade e a busca por sites clandestinos, que não seguem nenhuma regra. E o saldo devolvido, que cai de repente na conta, pode virar gatilho para voltar ao jogo.
O que fazer hoje, passo a passo
- Escolha um momento calmo para conversar, longe de briga e de cobrança de dívida. Fale do que você viu, não de quem a pessoa é: “percebi que o dinheiro do aluguel sumiu e você não dorme”. Veja como convencer alguém a aceitar tratamento.
- Combine o destino do dinheiro devolvido pela bet antes que ele chegue: quitar uma conta, pagar uma dívida ou ficar guardado com alguém de confiança, com a concordância da pessoa.
- Proteja as finanças da casa. Separe a conta da família, reveja cartões adicionais e senhas compartilhadas. Isso não é castigo; é diminuir a facilidade de recair. Leia sobre dar dinheiro a quem tem dependência.
- Não pague as dívidas de jogo no impulso. Primeiro, entenda o que a família é ou não obrigada a pagar, no artigo sobre dívidas de quem tem dependência.
- Marque uma avaliação. Pode começar pela UBS ou pelo CAPS da sua cidade, ou com psiquiatra e psicólogo. Segundo a OMS, as abordagens mais eficazes hoje são a terapia cognitivo-comportamental de longo prazo e a entrevista motivacional.
- Procure apoio para você. Grupos como Jogadores Anônimos (para quem joga) e Jog-Anon (para familiares) ajudam a tirar a culpa e o isolamento.
Quando o vício em apostas exige ajuda imediata
Procure atendimento sem esperar quando houver:
- fala ou sinais de suicídio, despedidas, entrega de objetos pessoais;
- depressão intensa, a pessoa sem sair da cama ou sem comer;
- uso de álcool ou drogas junto com o jogo, o que pede uma avaliação mais cuidadosa;
- ameaças, agressões ou envolvimento com agiotas;
- várias tentativas de parar que não deram certo.
Nesses casos, uma avaliação psiquiátrica define o nível de cuidado. Muitas vezes, o tratamento pode ser feito fora do hospital; a internação fica para situações de risco ou quando há outros transtornos juntos. Conheça o nosso tratamento em saúde mental.
Como podemos ajudar
No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, cada caso começa por uma avaliação psiquiátrica presencial. A partir dela, nossa equipe, apresentada com nome e função, monta um plano terapêutico individual, com enfermagem 24 horas e a família junto, sempre com sigilo. Atendemos famílias de Salvador e de toda a região.
Em resumo
- Vício em bets é o transtorno do jogo, reconhecido pela OMS: perda de controle, prioridade para o jogo e continuação apesar dos prejuízos.
- Apostar para recuperar perdas, mentir sobre gastos e não conseguir parar são sinais de alerta.
- A MP nº 1.394/2026 proibiu as bets e manda devolver os saldos, mas não trata a dependência, e ainda depende do Congresso.
- O dinheiro devolvido pode virar gatilho: combine o destino dele antes.
- Em fala de suicídio, ligue 188 (CVV) ou 192 (SAMU).
Perguntas frequentes
Vício em apostas é doença?
Sim. A Organização Mundial da Saúde reconhece o transtorno do jogo na CID-11, ao lado das dependências de substâncias. Ele se caracteriza por perda de controle, prioridade crescente para o jogo e continuação apesar dos prejuízos. Não é falta de caráter, e tem tratamento.
Agora que as bets foram proibidas, o vício acaba?
Não. A proibição reduz a oferta e a propaganda, o que ajuda, mas a dependência continua na pessoa. Sem tratamento, ela pode procurar sites clandestinos ou outras formas de jogo, e a OMS lembra que o jogo on-line segue acessível até onde é proibido. É um bom momento para buscar ajuda, não para relaxar.
Jogo do “tigrinho” e cassino on-line também viciam?
Sim. A OMS aponta os jogos de cassino, inclusive em versão on-line, as máquinas eletrônicas e as apostas de alta velocidade entre os produtos com maior risco de dano. A medida provisória de 2026 incluiu esses jogos on-line na proibição, junto com as apostas esportivas.
O dinheiro que estava na bet vai voltar? Isso é um risco?
A medida provisória manda devolver saldos e apostas em aberto para conta bancária no CPF do apostador, e o que não puder ser devolvido vai para uma conta na Caixa. Para quem tem o transtorno, esse dinheiro pode virar gatilho: vale combinar antes, com calma, o destino dele, como quitar uma dívida.
Existe internação para vício em apostas?
O tratamento costuma começar fora do hospital, com psicoterapia e acompanhamento psiquiátrico. A internação pode ser indicada quando há risco de suicídio, depressão grave, uso de álcool ou drogas junto ou quando o tratamento fora não funcionou. Quem decide é a avaliação médica.
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