Maio Amarelo: álcool, direção e o que a família pode fazer
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026
O Maio Amarelo é o movimento que, todo mês de maio, chama o Brasil a reduzir mortes e lesões no trânsito. Para a família, o recado mais direto é este: álcool e direção não combinam em nenhuma quantidade, e a lei pune até o primeiro gole. A campanha é uma boa hora para combinar, em casa, quem dirige e como todos voltam.
O que é o Maio Amarelo e por que ele fala tanto de álcool?
O Maio Amarelo é um movimento coordenado no Brasil pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), com adesão de órgãos de trânsito, prefeituras, empresas, escolas e igrejas. A escolha do mês lembra que, em 11 de maio de 2011, a ONU lançou a Década de Ação pela Segurança no Trânsito. O amarelo é a cor da atenção e da advertência nas placas e nos semáforos.
O tema muda a cada ano, e o mote da edição é divulgado pelo próprio ONSV. O pano de fundo é mundial: segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 1,16 milhão de pessoas morrem por ano em sinistros de trânsito, e eles são a principal causa de morte entre crianças e jovens de 5 a 29 anos. A nova década de ação da ONU (2021–2030) tem a meta de cortar essas mortes e lesões pela metade até 2030.
O álcool aparece em quase toda ação da campanha por um motivo simples: entre os riscos ao volante, é um dos mais evitáveis. Ninguém precisa de obra na estrada para decidir não beber antes de dirigir. Essa decisão cabe dentro de casa.
O que a lei brasileira diz sobre beber e dirigir?
O Código de Trânsito Brasileiro tem regras administrativas, que tiram a carteira, e regras penais, que podem levar à prisão. Em linguagem simples:
| Situação | O que o CTB prevê |
|---|---|
| Dirigir sob influência de álcool, em qualquer quantidade | Infração gravíssima, multa multiplicada por dez e suspensão do direito de dirigir por 12 meses (arts. 165 e 276) |
| Recusar o teste do bafômetro ou outro exame | As mesmas penalidades do art. 165 (art. 165-A) |
| Repetir a infração em até 12 meses | A multa é aplicada em dobro (art. 165, parágrafo único) |
| Dirigir com a capacidade alterada pelo álcool | Crime, com detenção de seis meses a três anos, multa e suspensão ou proibição de dirigir (art. 306) |
| Matar alguém no trânsito sob efeito de álcool | Reclusão de cinco a oito anos, além da suspensão ou proibição de dirigir (art. 302, § 3º) |
Dois pontos costumam surpreender as famílias. O primeiro: o art. 276 diz que qualquer concentração de álcool já sujeita o motorista às penalidades. Não existe uma “cota segura” na lei. O segundo: o próprio Código fixou, no art. 326-A, a meta de reduzir à metade, até o fim de 2030, o índice de mortes no trânsito em relação a 2020. É a versão brasileira do compromisso que o Maio Amarelo divulga.
Por que “só uma” já muda a direção?
O álcool age no cérebro antes de a pessoa se sentir alterada. Ele reduz a atenção, deixa a reação mais lenta e, ao mesmo tempo, aumenta a confiança. É por isso que quem bebeu costuma ser o último a perceber que não está bem para dirigir.
A OMS registra que o risco de sinistro começa a subir já em concentrações baixas de álcool no sangue e cresce rapidamente à medida que elas aumentam. Na prática da família, isso quer dizer que a discussão “mas foi só uma” não tem resposta técnica que a sustente. O combinado mais simples, e o mais fácil de cumprir, é: quem vai dirigir não bebe nada.
Quando há dependência de álcool, esse combinado fica mais difícil, porque o controle sobre a quantidade é justamente o que se perdeu. Aí a conversa deixa de ser só sobre o carro e passa a ser também sobre saúde.
Maio Amarelo em casa: um plano para a família em cinco passos
A campanha costuma acontecer em escolas, empresas e blitze. Mas é na sala de casa que ela pode salvar alguém que você ama. Um roteiro possível:
- Escolha um momento calmo. Nada de falar do assunto com a pessoa bebendo ou na volta de uma festa. Uma manhã tranquila, depois de ver uma notícia da campanha, abre a conversa sem tom de acusação.
- Fale de você, não dele. “Eu fico sem dormir quando você sai de carro depois da festa” é ouvido de outro jeito do que “você é irresponsável”. Medo dito com carinho costuma ter mais força do que bronca.
- Combinem as regras antes das datas de risco. Quem dirige em cada evento, onde fica a chave, quem chama o aplicativo, quem dorme na casa de quem. Vale escrever no grupo da família e deixar fixado.
- Deixe a saída pronta. Aplicativo de transporte instalado no celular de todos, número de um táxi de confiança, um parente que topa buscar. Quanto mais fácil a alternativa, menor a chance de alguém pegar o volante “porque não tinha jeito”.
- Revise depois de cada data. Funcionou no aniversário? Falhou no churrasco? Ajustar sem humilhar mantém o acordo vivo e mostra que a família está junto, não vigiando.
Se a pessoa reage com raiva, nega ou promete e não cumpre, não desista da conversa. Às vezes é sinal de que o álcool já ocupa um espaço maior do que parece. Para a hora do conflito em si, o guia sobre o que fazer quando um familiar bebe e dirige traz o passo a passo do momento da chave na mão.
Maio na Bahia: estrada, praia e almoço de Dia das Mães
Na Bahia, maio tem os seus próprios momentos de risco. O segundo domingo do mês é Dia das Mães, e muita família baiana atravessa a BR-324 ou a Estrada do Coco para almoçar na casa da avó, onde a cerveja quase sempre está na mesa. A volta, no fim da tarde, é exatamente o tipo de trajeto que a campanha quer proteger.
Também é época de feriadão e de fim de semana na praia, de Itapuã à Linha Verde, com barraca, saideira e estrada na volta. Algumas ideias que funcionam por aqui:
- Almoço de família com motorista combinado. Decida antes de sair de casa quem não vai beber, e trate isso como gentileza com a mãe que está sendo homenageada.
- Mesa com opções sem álcool. Suco de fruta da estação, água de coco e refrigerante à vista ajudam quem vai dirigir. Há sugestões no texto sobre festa de família sem bebida.
- Dormir no local quando a viagem é longa. Para quem vem de Feira de Santana ou do interior, ficar para a noite é mais seguro do que pegar a estrada cansado e depois de beber.
- Atenção ao motorista profissional da família. Quem dirige por trabalho tem ainda mais a perder com a CNH. O texto sobre exame toxicológico e Lei Seca explica as regras.
Quando beber e dirigir é sinal de que é hora de procurar ajuda?
Nem todo mundo que já dirigiu depois de beber tem dependência. Mas alguns sinais pedem uma avaliação profissional, e não só um combinado em casa:
- a pessoa repete o comportamento mesmo depois de multa, suspensão da carteira ou acidente;
- promete à família que não vai mais dirigir depois de beber e não consegue cumprir;
- bebe mais do que pretendia na maioria das ocasiões;
- esconde a bebida, mente sobre a quantidade ou fica irritada quando o assunto aparece;
- precisa beber para relaxar, dormir ou enfrentar o dia.
Nesses casos, o problema já não é só o trânsito. O álcool pode estar tomando o lugar do controle, e isso é uma condição de saúde tratável. A rede pública e os serviços da região estão reunidos no guia de onde buscar ajuda em Salvador e na região metropolitana.
Se alguém saiu dirigindo depois de beber e há risco real, ligue 190 e informe o veículo e o caminho. Se houve acidente ou alguém está ferido, ligue 192 (SAMU). Não tente segurar a pessoa à força nem seguir o carro.
Como podemos ajudar
O Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, recebe famílias de toda a Bahia. O tratamento do alcoolismo começa com avaliação psiquiátrica presencial e segue com plano terapêutico individual, enfermagem 24 horas e a família participando, sempre com sigilo. Se o Maio Amarelo trouxe uma preocupação para a sua casa, podemos começar por uma conversa.
Em resumo
- O Maio Amarelo é o movimento pela segurança no trânsito que acontece todo mês de maio, coordenado no Brasil pelo ONSV.
- Pela lei, qualquer quantidade de álcool ao volante já gera penalidade, e dirigir com a capacidade alterada é crime.
- O combinado mais seguro é simples: quem dirige não bebe nada.
- A família pode usar a campanha para uma conversa calma e para combinar, antes das datas de risco, quem dirige e como todos voltam.
- Quando a pessoa não consegue cumprir o combinado, vale buscar uma avaliação sobre o uso de álcool.
Perguntas frequentes
O Maio Amarelo fala só de álcool?
Não. A campanha trata de toda a segurança no trânsito: velocidade, celular ao volante, cinto, capacete, pedestres e ciclistas. O álcool é um dos temas mais lembrados porque é um risco evitável e muito presente nos fins de semana e nas festas.
Quem causa um acidente com morte depois de beber pode ser preso?
Sim. Desde a Lei nº 13.546/2017, o homicídio culposo no trânsito cometido sob influência de álcool tem pena de reclusão de cinco a oito anos (art. 302, § 3º, do Código de Trânsito). Além da pena, a pessoa perde o direito de dirigir por um período.
A família pode fazer alguma coisa do Maio Amarelo em casa, sem ação na rua?
Pode, e é onde faz mais diferença. Usar o mês como pretexto para uma conversa calma, combinar quem dirige nas festas, deixar o aplicativo de transporte pronto no celular de todos e decidir de antemão onde a chave fica já são ações concretas da campanha.
Meu familiar só bebe e dirige no fim de semana. Vale a pena falar disso no Maio Amarelo?
Vale. A campanha abre uma porta para conversar sem acusar, porque o assunto está em toda parte e não parece uma crítica pessoal. Se ele não consegue cumprir o combinado mesmo depois de sustos ou multas, pode ser hora de uma avaliação sobre o uso de álcool.
Passou maio. O combinado da família continua valendo?
Deve continuar. A campanha dura um mês, mas os momentos de mais risco aparecem o ano inteiro, como o São João, as férias, as festas de largo e o Carnaval. Revisar o combinado antes de cada data é o que mantém a ideia viva.
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