Irmãos de quem usa drogas: o filho que ninguém vê

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 18/10/2026

Quem tem um irmão dependente químico costuma sofrer em silêncio: os pais se voltam para o filho que usa, e o outro filho vira o “que não dá trabalho”. Esse irmão também precisa de cuidado. Ele pode ajudar no tratamento, inclusive pedir uma internação quando há risco, mas não deve carregar o problema sozinho nem esquecer da própria vida.

Se você é irmão ou irmã de alguém que está usando álcool ou drogas, este texto é para você, e não só para os seus pais.

Por que o irmão vira “o filho que ninguém vê”?

Quando a dependência entra numa família, tudo começa a girar em torno de quem usa: as conversas, o dinheiro, o humor da casa, o medo do telefone tocar de madrugada. Os pais, exaustos, guardam a pouca energia que têm para a emergência do dia. O filho que vai bem na escola, que trabalha e que não cria problema acaba ficando de lado, sem que ninguém tenha decidido isso.

Esse adoecimento coletivo tem nome. Pesquisadores da UFMG que ouviram familiares de dependentes descreveram como a codependência aparece em quem convive com o uso, com sobrecarga, controle e anulação das próprias necessidades. O irmão está dentro desse sistema, mesmo quando parece estar “de fora”. Para entender o quadro completo, veja codependência: quando a família adoece junto.

O que os irmãos costumam sentir

Uma pergunta frequente de quem está nessa posição é: “é normal eu sentir isso?”. É. Os sentimentos mais comuns, quase sempre misturados, são:

  • Raiva, por ver o irmão destruindo a própria vida e a paz da casa;
  • Ciúme ou abandono, porque os pais parecem só ter olhos para ele;
  • Culpa, por sentir raiva de alguém doente ou por estar bem enquanto o outro sofre;
  • Vergonha, diante dos amigos, dos vizinhos ou da igreja;
  • Medo, de uma overdose, da violência, da polícia ou de acabar igual;
  • Pressão para ser perfeito, para não dar mais um desgosto aos pais.

Nenhum desses sentimentos faz de você uma pessoa ruim. O problema não é sentir; é ter de esconder tudo isso para não “pesar” ainda mais em casa.

Os papéis que o irmão assume sem perceber

Sem ninguém combinar, os irmãos costumam ocupar alguns lugares fixos na família. Reconhecer o seu ajuda a sair dele:

PapelComo apareceO custo para você
O perfeitoNotas altas, nenhum problema, nunca reclamaAnsiedade e medo de errar
O mediadorSepara brigas, acalma os pais, defende o irmãoVive em alerta e sem descanso
O segundo pai ou mãeCuida, vigia, paga contas, busca o irmão na ruaAbre mão de estudo, trabalho e namoro
O que somePassa o dia fora, se afasta da famíliaSolidão e culpa por ter ido embora

Há também o irmão que acaba usando junto, às vezes por pressão, às vezes para se sentir próximo. Se isso está acontecendo com você, não espere: procure ajuda para você também, sem vergonha.

O irmão pode tomar decisões sobre o tratamento?

Pode participar, e a lei dá a ele um lugar. A Lei de Drogas, no art. 23-A, incluído pela Lei nº 13.840/2019, diz que a internação involuntária é aquela feita sem o consentimento do dependente, a pedido de familiar ou do responsável legal. Irmão é familiar. A mesma lei exige que a internação só aconteça depois da decisão formal de um médico responsável.

Ou seja: o irmão pode levar o pedido, mas não decide sozinho, e a internação não é castigo nem forma de “se livrar” de alguém. Ela é para quando há risco e os outros caminhos não funcionaram. A Lei nº 10.216/2001 garante à pessoa internada ser tratada com humanidade e respeito, no interesse da própria saúde. Para os detalhes, leia se a internação involuntária é legal e como funciona.

Na prática, o melhor é que a decisão seja da família junta: pais e irmãos alinhados, em vez de cada um agir por conta própria.

O que fazer agora: um roteiro para o irmão

  1. Dê nome ao que está acontecendo. Dependência é doença tratável, não falta de caráter. Isso não tira a responsabilidade do seu irmão, mas tira o peso da sua culpa.
  2. Fale com seus pais sobre você, não só sobre ele. Escolha um momento calmo e diga algo como: “eu também estou sofrendo e preciso de um tempo de vocês”.
  3. Saia do papel de vigia. Você não precisa revistar quarto, seguir o irmão nem cobrir as faltas dele. Isso cabe ao tratamento e aos adultos responsáveis.
  4. Não guarde segredos que alimentam o uso. Dinheiro escondido, mentiras para os pais e “só desta vez” costumam prolongar o problema. Veja por que dar dinheiro ao dependente químico costuma piorar a situação.
  5. Combine limites com a família. Um limite que todos cumprem vale mais do que ameaças. Há um passo a passo em como colocar limites no dependente químico.
  6. Proteja a sua rotina. Estudo, trabalho, amizades, fé e lazer não são traição ao irmão. São o que mantém você de pé para ajudar.
  7. Tenha um lugar só seu para falar. Grupos como o Al-Anon, que tem o Alateen para jovens, no caso de álcool, e o Nar-Anon, no caso de drogas, recebem familiares, inclusive irmãos. Veja também os grupos de apoio para familiares.

Como conversar com o seu irmão

Irmãos têm uma vantagem que os pais às vezes perdem: a conversa de igual para igual. Algumas frases que costumam abrir caminho, sempre com ele sóbrio:

  • “Eu sinto falta de você. Do você de antes.”
  • “Não vou te julgar, mas também não vou fingir que não estou vendo.”
  • “Se um dia você quiser ajuda, eu vou junto.”

E o que costuma fechar a porta: sermão, comparação (“olha eu, que nunca dei trabalho”), ameaça que você não vai cumprir e conversa no meio de uma crise ou com ele sob efeito.

Quando é emergência e quando procurar ajuda profissional

Se o seu irmão está desmaiado, com convulsão, respirando mal ou ameaçando a vida de alguém, ligue 192 (SAMU) ou procure a emergência mais próxima. Se ele, você ou outra pessoa da casa tem pensamentos de suicídio, ligue para o CVV no 188 (24 horas, gratuito) ou acesse cvv.org.br.

Fora da emergência, é hora de buscar ajuda profissional quando:

  • o uso já trouxe perdas sérias, como emprego, estudo, saúde ou dívidas;
  • há agressividade em casa, furtos ou ameaças;
  • ele já tentou parar sozinho e não conseguiu;
  • você percebe que está adoecendo junto: sem dormir, sem estudar, ansioso o tempo todo.

Nesse último caso, a ajuda é para você também. Terapia individual e grupos de familiares cuidam de quem está ao lado. O Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA (NIDA) lembra que a dependência resulta de uma mistura de fatores biológicos, ambientais e de desenvolvimento, e que nenhum deles sozinho define quem vai ou não desenvolver o problema. Cuidar de si é também prevenção.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a família participa do tratamento, e os irmãos são bem-vindos nessa conversa. O acolhido tem avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas e um plano terapêutico individual, sempre com sigilo. Conheça o tratamento para dependência química. Recebemos famílias de Salvador e de toda a Bahia.

Em resumo

  • O irmão de quem usa drogas costuma ficar em segundo plano e sofre calado.
  • Raiva, ciúme, culpa e medo são reações comuns, não defeitos.
  • Pela Lei de Drogas, irmão é familiar e pode pedir a internação involuntária, que depende de decisão médica.
  • Ajudar não é vigiar, esconder ou bancar o uso: é apoiar o tratamento e proteger a própria vida.
  • Em emergência, 192; pensamentos de suicídio, CVV 188.

Perguntas frequentes

Sou irmão. Posso pedir a internação involuntária do meu irmão?

Pode. A Lei de Drogas diz que a internação involuntária é feita a pedido de familiar ou do responsável legal, e irmão é familiar. Mas quem decide é o médico, depois de avaliar a pessoa; o pedido da família abre a porta, não substitui a avaliação.

Meus pais só falam do meu irmão. É errado eu sentir raiva ou ciúme?

Não é errado. É uma reação comum de quem passou a ficar em segundo plano dentro de casa. Sentir raiva não quer dizer que você não ama seu irmão; quer dizer que você também precisa de atenção, e vale dizer isso aos seus pais com calma, fora de um momento de crise.

Meu irmão me pede dinheiro e pede para eu não contar aos nossos pais. O que faço?

Segredo sobre dinheiro costuma alimentar o uso e deixa você carregando sozinho um peso que é da família inteira. Você pode dizer não sem brigar e avisar que não vai esconder isso dos pais. Se ele ameaçar ou ficar agressivo, sua segurança vem primeiro.

Dependência é de família? Tenho medo de acontecer comigo.

Ter um parente com dependência é um dos fatores de risco conhecidos, ao lado do ambiente e das experiências de vida, mas não é destino. Muitos irmãos nunca desenvolvem o problema. Cuidar da sua saúde emocional e conversar com alguém de confiança sobre esse medo já é proteção.

Moro em outra cidade. Como posso ajudar meu irmão de longe?

Dá para ajudar bastante sem estar perto: ligar com regularidade sem cobrar, apoiar os pais nas decisões, pesquisar opções de tratamento e participar das conversas de família por vídeo. O que não ajuda é mandar dinheiro sem saber o destino ou tomar decisões sozinho, sem combinar com quem está no dia a dia.

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