Irmão usa cocaína e nega: o que dizer e o que não dizer
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 20/10/2026
Se o seu irmão usa cocaína e nega, não gaste energia tentando provar que ele mente. Ele sabe. A negação não é falta de informação, é medo de olhar para o problema. O que funciona é mudar a conversa: parar de acusar, falar do que você viu e sentiu, cortar o dinheiro que paga o uso e deixar a porta aberta para o dia em que ele ceder. E, se a vida dele estiver em risco, a lei permite que o irmão peça a internação.
O que a lei diz sobre o irmão que quer ajudar
A Lei nº 10.216/2001, no art. 6º, prevê a internação involuntária: a que acontece sem o consentimento da pessoa, a pedido de terceiro, sempre com laudo médico. A Lei nº 11.343/2006, no art. 23-A (incluído pela Lei nº 13.840/2019), diz que esse pedido pode vir de familiar ou responsável legal. Irmão é familiar. Você não precisa ser pai, mãe ou cônjuge. A mesma regra limita essa internação a 90 dias e obriga o médico responsável a avisar o Ministério Público (o órgão que fiscaliza se a internação está sendo feita direito) em até 72 horas, o que protege o seu irmão e protege você.
A outra ponta: o art. 28 da Lei de Drogas trata de quem porta droga para uso próprio. As medidas são advertência, prestação de serviços à comunidade e curso educativo. Não existe prisão por uso. Chamar a polícia “para dar um susto” não trata ninguém.
Por que meu irmão nega mesmo com tudo na cara
A cocaína age rápido e passa rápido, e por isso quem usa tende a repetir em pouco tempo; com o uso continuado, o cérebro se adapta e a vontade passa a mandar nas decisões. Quem está nesse ponto não nega para enganar você. Nega para não se enxergar.
Entre irmãos pesa mais um detalhe: admitir para quem cresceu junto e viu tudo é humilhante. Quanto mais você fala com cara de quem está certo, mais ele fecha. Entenda melhor em por que o dependente químico não admite.
O que dizer para meu irmão que usa cocaína e nega
Conversa curta, de dia, com ele sóbrio e sem plateia:
| Em vez de dizer | Diga |
|---|---|
| “Você está cheirando, eu sei, para de mentir” | “Eu te vi diferente sábado. Fiquei com medo.” |
| “Olha o que você está fazendo com a mãe” | “Eu gosto de você e não quero te ver assim.” |
| “Se não parar, acabou pra mim” | “Quando você quiser, eu vou junto no médico.” |
Fale do que você viu e do que você sente. Se ele disser “não uso”, responda: “Tá. Mesmo assim, o que eu vi me preocupou.” Não precisa vencer. Precisa que ele saia da conversa sabendo que você não é inimigo. Mais roteiros em como conversar com um dependente sem brigar.
O que não fazer, mesmo com raiva
- Não fuce as coisas dele para montar prova. Se achar algo por acaso, use na conversa. Vasculhar vira guerra.
- Não ameace o que não vai cumprir. Ameaça vazia ensina que a sua palavra não vale.
- Não cubra o rastro. Se ele faltou ao trabalho, não invente desculpa para o patrão. Se perdeu dinheiro, não reponha.
- Não pague conta de droga. Dívida com traficante não se resolve com transferência sua. Em caso de ameaça, 190. Veja dívida com traficante: o que fazer.
- Não empreste o carro, o cartão ou o nome. Nada em seu nome para quem está em uso.
Isso não é abandono. Em pesquisa controlada com familiares de pessoas que recusavam tratamento, o método em que a família para de amortecer as consequências e mantém o afeto levou mais gente ao tratamento do que a abordagem com que foi comparado no mesmo estudo. Entenda como funciona em método CRAFT para a família.
Como saber se é uso de festa ou já é dependência
Você não precisa fechar diagnóstico. Olhe quatro coisas, ao longo de semanas:
- Dinheiro. Salário some, pede emprestado, vende coisa, mexe na carteira da mãe.
- Sumiço. Passa a madrugada fora, não atende, aparece segunda de manhã acabado.
- Corpo. Nariz sempre escorrendo, magro, sem dormir dias, depois dorme o dia inteiro.
- Humor. Agitado e falante, depois irritado e desconfiado sem motivo.
Dois ou mais desses, se repetindo, pedem avaliação médica. Veja a lista completa em sinais de uso de cocaína.
Dor no peito, desmaio, convulsão ou agitação com confusão depois do uso: ligue 192 (SAMU) ou vá à emergência. Se ele falar em se matar ou em não aguentar mais, ouça com calma, não deixe sozinho e ligue para o CVV no 188, que atende 24 horas e é gratuito.
O que fazer agora, passo a passo
- Conte para quem precisa saber. Se ele mora com a mãe ou o pai, eles estão dentro do problema. Alinhe com eles antes, para a família não dar recados diferentes.
- Combinem uma regra só. Nenhum dinheiro na mão, nenhuma desculpa no trabalho, nenhuma dívida paga. Todos iguais.
- Faça a conversa curta do jeito descrito acima. Uma vez. Sem repetir toda semana.
- Procure o CAPS AD da sua cidade (o posto do SUS para álcool e drogas, de graça) mesmo que ele não vá. A família pode ser atendida e orientada. Veja como funciona o CAPS AD.
- Procure um grupo de familiares como o Nar-Anon. Irmão também adoece junto, e isso tem nome: codependência. Veja quando a família adoece junto.
- Se houver risco de vida, o irmão pode pedir a internação involuntária com laudo médico. Entenda os caminhos em internação involuntária é legal?.
- Cuide de você. Você não é o pai dele. Ser o irmão que ficou lúcido já é muito. Veja irmãos de dependentes químicos.
Quando procurar ajuda profissional
Não espere o “fundo do poço”. Procure avaliação médica quando o uso vira coisa de semana, quando ele perde o emprego ou o dinheiro da casa, quando aparece violência ou quando mistura cocaína com bebida todo fim de semana. Com urgência se houver ideia de suicídio, agressividade ou confusão mental que não passa com o fim do efeito. A família pode dar o primeiro passo sozinha.
Como podemos ajudar
No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a família fala primeiro com a equipe, que orienta a conversa em casa e conduz a parte legal quando a internação involuntária é o caminho. O tratamento tem avaliação psiquiátrica presencial, plano terapêutico individual e a família participando. Conheça o tratamento para dependência química. Atendemos famílias de Salvador e de toda a Bahia. Leia também como convencer um dependente a se tratar.
Em resumo
- Não tente provar que ele mente. Fale do que você viu e do que sente.
- Corte o dinheiro, o cartão e as desculpas. Mantenha o afeto.
- Irmão pode pedir internação involuntária, com laudo médico, pela Lei nº 10.216/2001 e pelo art. 23-A da Lei de Drogas.
- Chamar a polícia não trata e não prende quem usa; vale para violência e ameaça.
- Procure o CAPS AD e um grupo de familiares, mesmo que ele não vá.
Perguntas frequentes
Devo contar para minha mãe que meu irmão usa cocaína?
Se ele mora com ela ou pega dinheiro dela, sim, porque ela está dentro do problema e precisa saber. Fale com calma, sem drama e sem pedir que ela o pressione. Se ela já desconfia, você só vai confirmar o que ela sente. O segredo costuma proteger o uso, não o seu irmão.
Ele diz que só cheira em festa e que tem controle. Pode ser verdade?
Pode ser verdade hoje e não ser daqui a seis meses. A cocaína age rápido e passa rápido, o que leva a repetir o uso na mesma noite, e o controle vai sumindo sem a pessoa perceber. Não discuta se ele controla ou não. Olhe o que muda na vida dele: dinheiro, sono, humor, sumiços.
Se eu chamar a polícia, meu irmão vai preso por usar?
Quem é pego com droga para uso próprio não vai para a cadeia pela lei de drogas: as medidas são advertência, prestação de serviços e curso educativo. Chamar a polícia vale para violência e ameaça, não para forçar tratamento. Para tratamento, o caminho é médico, o CAPS AD (posto do SUS para álcool e drogas) ou, em caso grave, internação com laudo.
Joguei fora a cocaína que achei nas coisas dele. Fiz certo?
Você não fez nada de errado, mas isso sozinho não muda o uso: ele compra de novo e a confiança entre vocês piora. Se encontrar droga, use o fato na conversa, sem gritar, e não guarde nada em casa. E nunca leve a droga a lugar nenhum para “provar” alguma coisa.
Falei e ele me bloqueou no celular. E agora?
Deixe uma mensagem só: que você não vai ficar vigiando, que está ali quando ele quiser e que isso não muda nada entre vocês. Depois, espere. Enquanto isso, cuide de quem está em volta, em especial da sua mãe, e procure um grupo de familiares. A porta fica aberta pelo seu silêncio tranquilo, não pela insistência.
Mais sobre família e codependência
- Codependência: quando a família adoece junto com quem usa
- Intervenção familiar: como fazer a conversa em grupo sem virar emboscada
- Irmão bebe e mora com a minha mãe: como proteger ela
- Irmão usa crack e minha mãe passa a mão na cabeça: como agir
- Irmãos de quem usa drogas: o filho que ninguém vê
- Livros sobre dependência química para quem tem alguém em casa