Método CRAFT: como a família pode levar o dependente ao tratamento

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026

O método CRAFT (sigla em inglês para Reforço Comunitário e Treinamento Familiar) é uma abordagem em que a família, e não a pessoa que usa, recebe o treino. Em vez de brigas, ultimatos ou confronto surpresa, a família aprende a mudar a rotina da casa e o jeito de conversar, para que ficar sem a substância valha mais a pena do que usar e para fazer o convite ao tratamento na hora certa.

Uma pergunta comum entre as famílias: “ele não quer ajuda, então não há nada que eu possa fazer?”. Há, sim. E começa por você, não por ele.

O que é o método CRAFT, em palavras simples

O CRAFT foi desenvolvido por pesquisadores nos Estados Unidos para atender um grupo que costumava ficar sem resposta: o familiar de quem recusa tratamento. A lógica é de comportamento. O uso continua, em parte, porque traz recompensas e porque as perdas que ele provoca são amortecidas por alguém. O CRAFT mexe nesse equilíbrio.

Na prática, a família passa a fazer três coisas ao mesmo tempo: tornar os momentos sem uso mais agradáveis, deixar de proteger a pessoa das consequências do uso e cuidar da própria vida. Ninguém precisa esperar que o outro “chegue ao fundo do poço”.

Ele também se diferencia de duas coisas parecidas no nome. A entrevista motivacional é uma técnica usada pelo profissional na conversa com a própria pessoa. O CRAFT é um treino para a família, que é quem convive com ela todos os dias.

O que os estudos mostram sobre o CRAFT?

Num ensaio clínico com 130 familiares de pessoas que bebiam e não queriam tratamento, publicado no Journal of Consulting and Clinical Psychology em 1999, cada família recebeu uma de três abordagens. Com o CRAFT, 64% das pessoas que bebiam iniciaram tratamento. Com a preparação para grupos de familiares no modelo do Al-Anon, 13%. Com a intervenção de confronto em reunião familiar, 30%. Um detalhe chama a atenção: a maioria das famílias preparadas para o confronto desistiu de fazê-lo.

O mesmo grupo repetiu a pesquisa com familiares de pessoas que usavam drogas ilícitas, num estudo de 2002, e o CRAFT de novo levou mais pessoas ao tratamento do que a preparação para grupos de apoio. Uma revisão sistemática publicada na revista Addiction em 2010 reuniu quatro ensaios de boa qualidade e concluiu que o CRAFT levou cerca de dois terços das pessoas resistentes a iniciar tratamento, em geral depois de quatro a seis sessões.

O estudo de 1999 trouxe ainda um achado que interessa a famílias em que quem cuida é o pai ou a mãe: o índice de pessoas que começaram tratamento foi maior quando quem fez o treino era pai ou mãe do que quando era o cônjuge. Isso não quer dizer que esposas e maridos não consigam. Quer dizer que a relação de casal costuma trazer mais mágoa acumulada, e vale ter apoio extra nesse caso.

Dois cuidados ao ler esses números. Primeiro: são resultados de pesquisa, com famílias acompanhadas por profissionais treinados, e não uma garantia para cada casa. Segundo: nos três modelos estudados, os familiares melhoraram em bem-estar. Os grupos de apoio para familiares continuam valiosos para quem cuida; eles só não foram desenhados para levar o outro ao tratamento.

Quais são as peças do CRAFT dentro de casa?

PeçaO que a família fazExemplo do dia a dia
Entender o padrão do usoObservar quando, onde, com quem e depois de quê o uso acontecePerceber que a bebida sempre começa no fim de tarde de sexta, depois do pagamento
Conversar de outro jeitoFalar curto, com calma, começando por algo positivo e pelo próprio sentimento“Gostei de ver você no almoço domingo. Fico preocupada quando você chega de madrugada.”
Recompensar o tempo sem usoTornar os momentos sóbrios mais agradáveisConvidar para a praia, o futebol ou o culto justamente nos dias em que ele está sem usar
Deixar a consequência acontecerParar de pagar, mentir ou consertar o que o uso causouNão ligar para o chefe inventando doença depois de uma noite de bebida
Cuidar de siRetomar sono, amigos, trabalho e apoio próprioVoltar à caminhada da manhã que foi largada há meses
Proteger a casaTer um plano para momentos de tensãoSaber para onde ir e quem chamar se a conversa ficar perigosa

Deixar a consequência acontecer não significa castigar. Significa não carregar no colo o peso que é dele. Para colocar isso em prática sem virar guerra, veja como colocar limites com amor.

Como começar o CRAFT em casa: um roteiro de quatro semanas

  1. Semana 1, observar: anote os dias e horários de uso e o que vem antes. Sem cobrar, sem comentar. Você está montando o mapa.
  2. Semana 2, trocar o tom: escolha uma conversa por dia num momento sóbrio. Comece por algo bom que ele fez, diga o que você sente e termine sem sermão.
  3. Semana 3, mexer nas recompensas: combine com a família o que deixa de acontecer quando há uso, como o carro emprestado ou o dinheiro extra, e o que fica melhor quando não há.
  4. Semana 4, preparar o convite: tenha à mão um caminho concreto, como um contato de serviço e um horário possível, para quando surgir uma “janela”.

A janela costuma aparecer depois de uma consequência pesada, num momento de arrependimento ou quando ele pergunta por que você anda diferente. Nessa hora, o convite é curto: “Eu achei um lugar para a gente conversar com alguém. Quer ir comigo?”. Se ele recusar, você não discute; volta ao plano e tenta de novo mais adiante. Outras ideias de conversa estão em como convencer um dependente a se tratar.

Quando o CRAFT não é suficiente?

O CRAFT é um caminho para quem tem tempo. Ele não serve para esperar quando há perigo. Procure ajuda profissional sem demora quando:

  • há ameaça, agressão ou armas em casa;
  • a pessoa fala em morrer ou em não ter mais saída;
  • surgem sinais de intoxicação grave, confusão ou convulsão;
  • quem bebe muito todos os dias tenta parar de repente, o que pode ser perigoso e pede avaliação médica;
  • a família está esgotada e não consegue mais seguir plano nenhum.

Quando a recusa vem junto com risco sério à vida, a Lei nº 10.216/2001 prevê, no art. 6º, a internação involuntária, feita a pedido de terceiro e com laudo médico. Entenda os requisitos em internação involuntária.

Se houver falas sobre não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, ouvimos a família antes mesmo de a pessoa aceitar ajuda e conversamos sobre os próximos passos. Quando ela chega, há avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas e um plano terapêutico individual, com a família participando e sigilo. Saiba mais na página para famílias. Recebemos famílias de Salvador e de toda a Bahia.

Em resumo

  • O CRAFT treina a família, não a pessoa que usa, para mudar a rotina da casa e a conversa.
  • Em estudos, levou mais pessoas resistentes ao tratamento do que o confronto ou só os grupos de apoio.
  • As peças centrais são entender o padrão do uso, recompensar o tempo sem uso, deixar a consequência acontecer e cuidar de si.
  • O convite ao tratamento é feito numa janela de oportunidade, com um caminho já pronto.
  • Com risco à vida ou violência, o plano é outro: ajuda profissional imediata. Veja também as etapas do tratamento da dependência química.

Perguntas frequentes

Preciso de um terapeuta para usar o método CRAFT?

Nos estudos, o CRAFT foi aplicado em sessões com um profissional treinado, que ajuda a família a planejar cada passo e a ajustar o que não deu certo. Os princípios, como elogiar os momentos sem uso e parar de amortecer as consequências, podem começar em casa. O ideal é ter acompanhamento, principalmente quando há conflito ou risco.

O CRAFT serve para álcool e também para outras drogas?

Sim. Os primeiros ensaios foram com familiares de pessoas que bebiam, e depois o método foi testado com familiares de pessoas que usavam drogas ilícitas, com resultados parecidos. O que muda é o plano de cada casa, não a lógica da abordagem.

Em quanto tempo a família vê alguma mudança?

Nos estudos, quando a pessoa aceitou o tratamento, isso costumou acontecer depois de quatro a seis sessões com a família. Cada caso tem seu ritmo, e o próprio familiar também tende a se sentir melhor no caminho, mesmo antes de o outro aceitar ajuda.

Parar de proteger não é o mesmo que abandonar?

Não. No CRAFT a família continua presente e afetuosa, mas deixa de pagar, esconder ou consertar o que o uso provocou. A ideia é que a pessoa sinta o peso real do uso e, ao mesmo tempo, perceba que a vida sem a substância é recebida com carinho.

O que fazer se ele ficar agressivo quando a família mudar de atitude?

A segurança vem antes de qualquer estratégia. Se houver ameaça ou histórico de violência, combine um lugar para ir e alguém para chamar, evite conversas quando ele estiver sob efeito e procure orientação profissional. Em perigo imediato, ligue 190 ou procure ajuda.

Mais sobre tratamento e recuperação

Ver todos os artigos sobre tratamento e recuperação

Preencha a ficha de acolhimento online