Musicoterapia na dependência química: como a música entra no tratamento

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026

A musicoterapia na dependência química usa a música (ouvir, cantar, tocar, compor e improvisar) com objetivo terapêutico, conduzida por um profissional, para ajudar a pessoa a lidar com emoções, estresse e vínculos sem a substância. Não exige talento nem é passatempo: é uma prática complementar, reconhecida pelo SUS, que soma ao tratamento e não o substitui.

O que é musicoterapia, em palavras simples?

É o uso da música e dos seus elementos (ritmo, melodia, letra, silêncio) como ferramenta de cuidado. A Lei nº 14.842/2024, no art. 2º, define o musicoterapeuta como o profissional que faz intervenção terapêutica com a música, com indivíduos, grupos ou famílias, buscando melhorar a qualidade de vida e a saúde física, mental e social.

No SUS, a musicoterapia entrou na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares pela Portaria nº 849/2017 do Ministério da Saúde, ao lado da arteterapia e de outras práticas. Para quem já leu sobre arteterapia na recuperação, a diferença é o meio: lá o centro é a imagem e a argila; aqui, o som.

Como a música entra no tratamento, na prática?

Cada sessão é planejada para o momento da pessoa. Algumas formas comuns de trabalho:

AtividadeComo costuma serPara que serve
Escuta guiadaO grupo ouve uma faixa e conversa sobre o que ela despertouDar nome a emoções que antes eram “resolvidas” com o uso
Canto em grupoTodos cantam juntos, sem cobrança de afinaçãoReduzir o isolamento e criar pertencimento
Improviso com percussãoTambor, pandeiro, chocalho ou palmas, sem partituraDescarregar tensão e treinar escuta do outro
Composição de letraA pessoa escreve versos sobre a própria históriaOrganizar o que viveu e pensar no que quer daqui para frente
Linha do tempo musicalUma música para cada fase da vidaPerceber quais canções estão ligadas ao uso e quais são de outros momentos

Ao fim, quase sempre há conversa. É ali que a música vira palavra, e o que surgiu pode ser levado para a terapia individual e para os grupos terapêuticos.

O que a pesquisa já mostra sobre musicoterapia e dependência química?

Um estudo brasileiro publicado na Revista Latino-Americana de Enfermagem mediu o cortisol na saliva (um hormônio ligado ao estresse) de 18 pessoas em tratamento, antes e depois de uma única sessão de musicoterapia em grupo. Uma hora depois, o nível tinha caído de forma significativa; com duas horas, a queda continuava, mas sem significância estatística.

Em linguagem simples: há sinal de que a música, bem conduzida, ajuda a baixar o estresse no curto prazo. Mas o estudo é pequeno e avaliou uma sessão só. Ainda não dá para dizer quanto isso protege de recaída ao longo do tempo. O NIDA lembra que o tratamento eficaz combina várias frentes e é ajustado a cada pessoa. A musicoterapia é uma dessas frentes, não a principal.

Quem pode conduzir a musicoterapia, segundo a lei?

Desde 2024, a profissão tem lei própria. Pelo art. 3º da Lei nº 14.842/2024, pode exercer a musicoterapia, entre outros casos, quem tem graduação em Musicoterapia reconhecida no Brasil ou diploma estrangeiro revalidado.

Isso ajuda a família a separar as coisas. Um culto com louvor, uma roda de samba com voluntários ou um violão no fim da tarde podem fazer muito bem, e muitas vezes fazem. Mas são momentos de convivência e lazer. Musicoterapia, no sentido da lei, é intervenção planejada por profissional habilitado. Na rede pública, a oferta varia por município; vale perguntar no CAPS AD da sua cidade se há oficinas com música.

Como a família pode usar a música a favor da recuperação?

Uma dúvida que chega muito à nossa equipe: “meu marido só escuta música de bebedeira, devo proibir?”. Proibir costuma gerar briga e pouco resultado. Um caminho mais leve, passo a passo:

  1. Pergunte antes de opinar. “Que música te lembra a época do uso? E qual te lembra uma fase boa?” Escute sem corrigir.
  2. Identifiquem juntos as faixas-gatilho. Na Bahia, muitas vezes é o pagode do paredão do bairro, o arrocha da barraca de praia ou a trilha do Carnaval. Não é o estilo que faz mal, é a lembrança colada nele.
  3. Montem uma lista nova no mesmo ritmo. Quem gosta de pagode não precisa trocar por música clássica. Basta escolher faixas que não puxem o uso. Isso conversa com o seu mapa de gatilhos de recaída.
  4. Use a música em horários difíceis. O fim da tarde de sexta, o caminho para casa, a insônia. Uma lista pronta para esses momentos ajuda a atravessar a vontade.
  5. Cante ou toque junto, se ele quiser. Fazer música em família cria memória nova, sem bebida no meio.
  6. Leve o que perceber para a equipe. Se uma música sempre traz choro, raiva ou vontade de usar, isso é informação útil para o tratamento.

Quem gosta de práticas de atenção ao presente pode combinar a escuta com exercícios de mindfulness na recuperação.

Quando a música pede atenção da equipe?

Procure quem acompanha o tratamento quando:

  • ouvir certas músicas vem sempre seguido de vontade forte de usar, ou já houve uso;
  • a pessoa passa horas sozinha ouvindo músicas tristes e se afasta de todos;
  • as letras escolhidas ou escritas falam de não querer viver;
  • a festa, o show ou o ensaio virou ocasião de recaída.
Se surgirem falas sobre não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, cada pessoa tem um plano terapêutico individual, com avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas, a família participando e sigilo. Pergunte à equipe quais atividades fazem parte do plano do seu familiar. Conheça o tratamento para dependência química e veja como funcionam as etapas do tratamento. Recebemos famílias de Camaçari e de toda a Bahia.

Em resumo

  • Musicoterapia usa a música com objetivo terapêutico, conduzida por profissional, e não exige talento.
  • É prática reconhecida pelo SUS desde 2017 e a profissão tem lei própria desde 2024.
  • Há sinal de redução do estresse no curto prazo, mas ela complementa o tratamento e não o substitui.
  • Músicas ligadas ao uso podem ser gatilho; a saída é trocar a lista junto, não proibir.
  • Choro, isolamento ou letras sobre não querer viver merecem conversa com a equipe.

Perguntas frequentes

Precisa saber tocar um instrumento ou cantar bem para fazer musicoterapia?

Não. A sessão não é avaliação de talento nem aula de música. Bater palmas, escolher uma faixa para ouvir ou dizer o que uma letra lembrou já é participação, e o profissional adapta a atividade a quem está no grupo.

Ouvir música em casa já é musicoterapia?

Não. Ouvir música pode acalmar e fazer bem, mas musicoterapia é uma intervenção com objetivo terapêutico, conduzida por musicoterapeuta, com planejamento e acompanhamento. Em casa, a música é um apoio da rotina, não o tratamento.

A musicoterapia substitui o psicólogo ou o psiquiatra?

Não. Ela entra como prática complementar, junto com o acompanhamento médico e psicológico, os grupos e o trabalho com a família. A pesquisa sobre o tema ainda é pequena, por isso ela soma ao plano, mas não ocupa o lugar dele.

E se a pessoa só gosta de músicas que falam de beber ou usar?

Isso é comum e não precisa virar briga. Vale conversar sobre quais faixas puxam lembranças do uso e montar, junto com ela, uma lista alternativa no mesmo ritmo que ela gosta. Se o assunto pesar, leve para a equipe que acompanha o tratamento.

Como saber se quem conduz a atividade é musicoterapeuta?

Pergunte com naturalidade sobre a formação. A Lei nº 14.842/2024 diz quem pode exercer a profissão, como quem tem graduação em Musicoterapia reconhecida. Uma roda de música com voluntários pode fazer bem, mas é outra coisa.

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