Depois da internação: como atravessar os primeiros 90 dias em casa

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 18/10/2026

Depois da internação, o tratamento não acaba: ele muda de lugar. Nos primeiros 90 dias em casa, a pessoa reencontra os gatilhos de antes com uma rotina que ainda é frágil. O que mais protege nessa fase é ter o acompanhamento marcado antes da alta, uma rotina simples, combinados claros com a família e um plano para os sinais de alerta.

Se o seu familiar está para receber alta, ou acabou de voltar e você não sabe direito como agir, isso é normal.

O que muda depois da internação

Durante a internação, quase tudo é organizado por outras pessoas: horários, refeições, atividades, quem entra e quem sai. Em casa, essa estrutura some de um dia para o outro. A pessoa volta para o mesmo bairro, o mesmo celular, os mesmos contatos e as mesmas cobranças, mas agora sem a droga ou a bebida que usava para lidar com tudo isso.

O NIDA, instituto de pesquisa sobre drogas do governo dos Estados Unidos, explica que a dependência é uma condição crônica e que a desintoxicação, sozinha e sem tratamento depois, costuma ser seguida de volta ao uso. É por isso que o período depois da alta não é um intervalo, é uma etapa do tratamento, como descrevemos no guia sobre as etapas do tratamento da dependência química.

Por que 90 dias? Não existe um relógio científico que marque o fim do risco no dia 90. Usamos esse prazo como um marco prático: é tempo suficiente para a rotina nova virar hábito, para os primeiros testes reais acontecerem (uma festa, uma briga, um pagamento) e para a família perceber o que funciona e o que precisa mudar.

Antes de sair: o que precisa estar resolvido

Muitas famílias nos perguntam: “ele vai sair na sexta, e agora?”. A resposta começa antes da alta. Leve esta lista para a conversa com a equipe:

  • Próximo atendimento marcado, com data, local e nome do profissional: psiquiatra, psicólogo ou o CAPS AD do seu município.
  • Receitas e orientações por escrito, se houver medicação. Remédio receitado se toma como o médico mandou, sem suspender nem mudar por conta própria.
  • Plano de prevenção de recaída: quais são os gatilhos daquela pessoa, quais sinais indicam perigo e o que fazer em cada caso.
  • Grupos de ajuda mútua escolhidos, como Narcóticos Anônimos ou Alcoólicos Anônimos, com dia e endereço de uma primeira reunião.
  • Combinados da casa conversados com a equipe presente: dinheiro, horários, visitas, bebida em casa.
  • Um contato da equipe para a família ligar se algo sair do previsto.

Quem cuida depois da alta

Pelo SUS, os Centros de Atenção Psicossocial são serviços abertos à comunidade que, segundo o Ministério da Saúde, oferecem cuidado contínuo a quem enfrenta problemas com álcool e outras drogas, inclusive no processo de volta à vida comunitária, com apoio também aos familiares. Existe a modalidade CAPS AD, voltada a álcool e drogas; pergunte na Secretaria de Saúde qual atende o seu bairro e entenda como funciona o CAPS AD. Os grupos de ajuda mútua e o acompanhamento com psiquiatra e psicólogo completam a rede. As normas internacionais da OMS e do UNODC descrevem o tratamento como um sistema com diferentes serviços e modalidades, e não como um único lugar.

O que a lei diz sobre a continuidade do cuidado

A família tem base legal para pedir esse planejamento. A Lei nº 10.216/2001, no art. 4º, § 1º, diz que o tratamento tem como finalidade permanente a reinserção social do paciente em seu meio. Ou seja, a meta não é só a pessoa ficar bem lá dentro, mas voltar a viver aqui fora.

A Lei de Drogas (Lei nº 11.343/2006), no art. 23-B, incluído pela Lei nº 13.840/2019, prevê o Plano Individual de Atendimento (PIA). Pelo texto da lei, o plano deve contemplar a participação dos familiares e ser atualizado ao longo das diversas fases do atendimento. Entre o conteúdo mínimo estão as atividades de integração social ou capacitação profissional e as formas de participação da família. As informações do plano são sigilosas.

Na prática, isso quer dizer que é legítimo a família perguntar, na alta: “como fica o plano agora que ele vai para casa?”.

Um roteiro para os primeiros 90 dias depois da internação

Cada pessoa tem o seu ritmo, e o plano da equipe vem antes de qualquer roteiro geral. Mas, em linhas gerais, os três meses costumam ter focos diferentes:

PeríodoFoco principalO que a família pode fazer
Dias 1 a 30Proteger a rotina e manter o acompanhamentoAjudar a cumprir horários, consultas e reuniões; manter a casa sem álcool; evitar cobranças sobre o passado
Dias 31 a 60Enfrentar os primeiros testes reaisConversar antes de festas, encontros e datas difíceis; observar sinais de alerta sem interrogatório
Dias 61 a 90Devolver responsabilidades aos poucosCombinar a volta gradual do dinheiro, do trabalho e dos estudos; rever os combinados com a equipe

Primeiro mês: rotina antes de tudo

Horário para dormir e acordar, refeições, uma atividade física leve, a consulta da semana e as reuniões do grupo. Parece pouco, mas uma agenda previsível reduz o tempo vazio, que é quando a fissura, a vontade intensa de usar, costuma aparecer com mais força.

Não é hora de resolver tudo de uma vez: dívidas antigas, mágoas, a conversa sobre o casamento. Esses assuntos existem e vão ser tratados, de preferência com apoio profissional e no momento certo.

Segundo mês: os primeiros testes

É comum que, passado o primeiro mês, todos relaxem: a pessoa se sente forte e a família, aliviada. Justamente aí chegam os primeiros convites, o reencontro com antigos amigos de uso, o primeiro salário. Na Bahia, o calendário pesa: festas de largo, São João, Carnaval e as festas de fim de ano trazem bebida em todo lugar. Planejar essas datas com antecedência ajuda muito; veja como em festas de fim de ano sem recaída.

Terceiro mês: responsabilidade de volta, aos poucos

Dinheiro, chave do carro, horários livres e trabalho voltam por etapas combinadas, não de uma vez. Cada passo cumprido é motivo para reconhecer o esforço. Esse também é um bom momento para rever, com a equipe, o que funcionou e o que precisa mudar no plano.

Como a família ajuda sem virar fiscal

Entre os dois extremos, desconfiar de tudo ou fingir que nada aconteceu, existe um caminho do meio:

  1. Fale do presente. “Como foi o seu dia?” abre mais do que “você está usando de novo?”.
  2. Combine sinais e respostas antes. Por exemplo: se ele deixar de ir às consultas por duas semanas, a família liga para a equipe. Combinado antes, isso não vira acusação depois.
  3. Reconheça o que está dando certo. Ir à reunião num dia difícil é uma vitória, mesmo que pareça pequena.
  4. Não assuma o tratamento dele. Você pode lembrar da consulta; quem vai é ele.
  5. Cuide de você também. A família costuma chegar a esta fase exausta. Grupos de familiares e orientação psicológica ajudam a sustentar a fase longa. Os limites com quem está em recuperação continuam valendo depois da alta.

Sinais de alerta e quando é emergência

Alguns sinais pedem uma conversa e um contato rápido com a equipe ou com o serviço que acompanha a pessoa:

  • faltar a consultas e reuniões, ou dizer que “não precisa mais”;
  • voltar a procurar as antigas companhias ou os lugares de uso;
  • pedir dinheiro sem explicar o destino, ou objetos sumindo de casa;
  • isolamento, irritação fora do comum, insônia que não passa;
  • romantizar o uso (“no fundo, era bom”) ou testar “só uma cerveja”.

Uma recaída não apaga o tratamento, mas pede ação rápida; veja o que fazer numa recaída. E há um risco que toda família precisa conhecer: segundo o NIDA, com algumas drogas, depois de um período sem uso o corpo perde a adaptação, e voltar a usar a quantidade de antes pode levar facilmente a uma overdose.

Sonolência extrema, respiração lenta, convulsão, confusão intensa ou desmaio são emergência: ligue 192 (SAMU) ou vá à emergência mais próxima. Se houve uso pesado de álcool ou de calmantes e a pessoa quer parar de novo, procure avaliação médica: parar de uma vez, sem acompanhamento, pode ser perigoso, com risco de convulsão e confusão mental grave, e é caso de avaliação médica urgente.

Os primeiros meses também podem trazer tristeza, culpa e desânimo. Se a pessoa falar em desistir da vida, leve a sério: o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça e em sigilo, e, em risco imediato, ligue 192.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a alta é preparada durante o tratamento: avaliação psiquiátrica presencial, plano terapêutico individual, enfermagem 24 horas, equipe identificada com nome e função e a família junto em cada etapa, com sigilo. Conheça o tratamento para dependência química. Atendemos famílias de Camaçari, Salvador e de toda a Bahia.

Em resumo

  • Depois da internação, o tratamento continua em casa; a alta é uma mudança de fase.
  • Antes de sair, deixe marcados o próximo atendimento, os grupos e os combinados da casa.
  • A lei prevê um plano individual atualizado nas fases do atendimento, com a família participando.
  • Nos 90 dias, a ordem é rotina, primeiros testes planejados e responsabilidades devolvidas aos poucos.
  • Com algumas drogas, depois de um tempo sem uso, voltar à quantidade de antes aumenta o risco de overdose: em emergência, 192.

Perguntas frequentes

Por que se fala tanto nos primeiros meses depois da alta?

Porque é quando a pessoa sai de um ambiente protegido e reencontra, de uma vez, os lugares, as pessoas e as emoções ligados ao uso, e a rotina nova ainda não virou hábito. Os 90 dias são um marco prático para organizar essa travessia, não um prazo depois do qual o risco acaba.

Posso manter bebida alcoólica em casa quando ele voltar?

O mais prudente é não manter, pelo menos nos primeiros meses, mesmo que o problema dele não tenha sido o álcool. Converse sobre isso com a equipe antes da alta, levando em conta o plano daquela pessoa, e trate como um combinado da casa, não como castigo.

Devo revistar o quarto e o celular dele depois da alta?

Vigilância constante costuma gerar desconfiança dos dois lados e não impede o uso. Funciona melhor combinar, de forma clara, quais sinais preocupam a família e o que acontece se eles aparecerem. Em situação de risco concreto, como sinais de intoxicação, a segurança vem antes da privacidade.

Quem acompanha a pessoa depois que ela sai da clínica?

O ideal é que a saída já tenha data e local definidos para o próximo atendimento: consulta com psiquiatra ou psicólogo, CAPS AD do município, grupos de ajuda mútua como AA e NA e o contato com a equipe que fez a internação. Sair sem nenhum desses passos marcado é um sinal de alerta.

Por que voltar a usar depois de um tempo sem uso pode ser mais perigoso?

Com algumas drogas, durante o tempo sem uso, o corpo perde a adaptação a elas. Se a pessoa volta a usar a quantidade de antes, o risco de overdose aumenta, segundo o NIDA, instituto de pesquisa sobre drogas dos Estados Unidos. Sonolência extrema, respiração lenta, confusão ou desmaio são emergência: ligue 192.

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