Terapia ocupacional na dependência química: o que faz o terapeuta ocupacional

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026

A terapia ocupacional na dependência química ajuda a pessoa a reconstruir o próprio dia sem a substância: rotina, sono, cuidado consigo, tarefas da casa, estudo, trabalho e lazer. O terapeuta ocupacional é um profissional de nível superior, com profissão regulada por lei, que avalia o que o uso tirou da vida da pessoa e planeja atividades para recuperar, aos poucos, essas capacidades.

O que é terapia ocupacional na dependência química?

Na linguagem da profissão, “ocupação” não é só emprego. É tudo aquilo que a pessoa faz para viver: acordar, tomar banho, comer, cuidar do quarto, pegar um ônibus, pagar uma conta, conversar com o filho, ir à igreja, ver um jogo, aprender algo.

Com o tempo, a dependência vai ocupando esse espaço. O dia passa a girar em torno de conseguir, usar e se recuperar do uso. Tarefas simples ficam abandonadas, e muitas vezes a pessoa nem lembra mais do que gostava de fazer antes.

O trabalho do terapeuta ocupacional é olhar para esse dia real, entender o que foi perdido e o que ainda funciona, e montar um caminho de volta. Não é recreação para passar o tempo: cada atividade tem um porquê.

O que a lei diz sobre essa profissão?

Esta é uma parte que quase ninguém explica às famílias, e ajuda a separar uma profissão de um nome bonito.

NormaO que estabelece
Decreto-Lei nº 938/1969, art. 2ºO terapeuta ocupacional, diplomado em curso reconhecido, é profissional de nível superior
Decreto-Lei nº 938/1969, art. 4ºÉ atividade privativa do terapeuta ocupacional aplicar métodos e técnicas terapêuticas e recreacionais para restaurar, desenvolver e conservar a capacidade mental do paciente
Lei nº 6.316/1975, art. 1ºCria o Conselho Federal (Coffito) e os Conselhos Regionais (Crefito), que fiscalizam a profissão
Lei nº 6.316/1975, art. 12O exercício da profissão só é permitido a quem tem a carteira profissional emitida pelo órgão competente
Lei nº 10.216/2001, art. 4º, § 2ºA internação deve oferecer assistência integral, incluindo serviços médicos, de assistência social, psicológicos, ocupacionais e de lazer

Na prática, isso quer dizer duas coisas. Primeiro: “terapia ocupacional” não é qualquer atividade organizada por qualquer pessoa. Segundo: a lei da saúde mental coloca o cuidado ocupacional ao lado do médico e do psicológico, como parte do que uma internação precisa oferecer.

O que o terapeuta ocupacional faz no dia a dia do tratamento?

O trabalho costuma seguir uma lógica parecida com esta, ajustada a cada pessoa:

  1. Avaliação do cotidiano. Como era o dia antes do uso, como ficou durante e o que a pessoa ainda consegue fazer sozinha. Sono, alimentação, higiene, organização, memória e concentração entram nessa conversa.
  2. Escolha de objetivos concretos. Nada de metas vagas. Exemplos: “acordar no mesmo horário cinco dias seguidos”, “cozinhar uma refeição simples”, “ir sozinho à feira e voltar dentro do horário combinado”.
  3. Atividades com propósito. Podem ser individuais ou em grupo: tarefas práticas, trabalhos manuais, jogos, planejamento da semana, ensaio de situações difíceis, como recusar um convite para beber no fim da tarde.
  4. Treino de habilidades. Lidar com o tempo livre, com o dinheiro do mês, com a convivência e com a frustração quando algo dá errado.
  5. Preparação para a saída. Montar, junto com a família, a rotina que vai continuar em casa, com horários, compromissos e pessoas de apoio.

Um exemplo do que costumamos ver em Salvador e na Região Metropolitana: para muitas pessoas, o caminho do trabalho até em casa passava por bares ou por pontos de uso. Planejar outro trajeto, outro horário de ônibus ou alguém para acompanhar nos primeiros dias é uma tarefa típica desse trabalho.

Qual a diferença entre terapia ocupacional, laborterapia e arteterapia?

As três aparecem nos folhetos de clínicas e causam confusão. A diferença principal está em quem conduz e com que objetivo.

  • Terapia ocupacional: profissão regulamentada, com avaliação individual e objetivos terapêuticos definidos para a vida dentro e fora do serviço.
  • Laborterapia: tarefas de trabalho dentro da instituição, como cozinha, horta ou limpeza. Tem regras próprias e limites claros, explicados em laborterapia: o que é e o que não pode.
  • Arteterapia: uso da expressão artística como recurso terapêutico, tema de arteterapia na recuperação.

Uma atividade não vira terapia ocupacional só porque ocupa o tempo. O que define é a avaliação, o objetivo e o acompanhamento.

Onde a terapia ocupacional entra no tratamento?

Ela não trabalha sozinha. Faz parte de uma equipe multidisciplinar na dependência química, ao lado de médico, enfermagem, psicologia e serviço social, e conversa com eles sobre o que observa.

Na internação, o foco costuma ser dar estrutura ao dia e testar, em ambiente protegido, as habilidades que vão ser necessárias lá fora. Depois da alta, o trabalho pode seguir no acompanhamento ambulatorial. Para entender onde cada fase se encaixa, veja as etapas do tratamento da dependência química.

Na rede pública, o terapeuta ocupacional pode compor equipes de saúde mental. O Ministério da Saúde cita esse profissional entre os que podem formar o Consultório na Rua, e os CAPS trabalham com equipe multiprofissional. Em qualquer cidade da Bahia, o primeiro passo é procurar o CAPS AD do município. Veja como funciona o CAPS AD.

Como a família pode participar?

Uma pergunta que chega muito à nossa equipe é: “quando ele voltar, o que ele vai fazer o dia inteiro?”. É exatamente aí que a família e a terapia ocupacional se encontram. Algumas atitudes que ajudam:

  1. Conte como era a rotina antes do uso. Do que ele gostava, em que era bom, que tarefas assumia em casa. Isso ajuda a equipe a escolher objetivos realistas.
  2. Pergunte qual é o plano de rotina para depois da alta. Horários, atividades e quem acompanha cada parte.
  3. Prepare a casa para essa rotina. Um canto para os objetos dele, horário de refeições, tarefas combinadas e não impostas.
  4. Valorize os pequenos avanços. Acordar na hora, cumprir um combinado, terminar uma tarefa. Para quem perdeu tudo isso, é muito.
  5. Não tente fazer tudo por ele. Proteger demais tira justamente a chance de treinar a autonomia.

Para os primeiros meses em casa, vale ler como montar a rotina em casa na recuperação.

Quando procurar ajuda profissional com urgência?

A terapia ocupacional faz parte do tratamento, mas não substitui a avaliação médica. Procure a equipe de saúde quando:

  • o uso voltou ou está aumentando;
  • a pessoa não consegue manter nenhuma rotina mínima, como dormir, comer e fazer a higiene;
  • aparecem tristeza profunda, agitação intensa, confusão ou falas de desesperança;
  • houve uso pesado de álcool ou de calmantes: parar de repente, sem médico, pode ser perigoso e pede avaliação médica.
Se surgirem falas sobre não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a família conhece a equipe pelo nome e pela função. Há avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas e um plano terapêutico individual, construído com a família junto e com sigilo. Conheça o tratamento para dependência química. Recebemos famílias de Salvador e de toda a Bahia.

Em resumo

  • A terapia ocupacional ajuda a pessoa a reconstruir o dia a dia sem a substância.
  • É profissão de nível superior, regulada pelo Decreto-Lei nº 938/1969 e fiscalizada pelo Coffito e pelos Crefitos.
  • A Lei nº 10.216/2001 inclui o cuidado ocupacional na assistência integral da internação.
  • Ela é diferente de laborterapia e de arteterapia, e trabalha junto com o resto da equipe.
  • A família ajuda contando a história da pessoa e preparando a rotina para depois da alta.

Perguntas frequentes

Terapia ocupacional é o mesmo que laborterapia?

Não. Laborterapia é o nome dado às tarefas de trabalho dentro do serviço, como cozinha, horta ou limpeza. A terapia ocupacional é uma profissão de nível superior, com conselho próprio, que avalia a pessoa e escolhe atividades com um objetivo terapêutico definido, inclusive para a vida depois da alta.

Toda clínica de recuperação tem terapeuta ocupacional?

Não necessariamente. A composição da equipe varia de serviço para serviço. Vale perguntar, antes da internação, quais profissionais acompanham as atividades do dia e quem planeja a rotina de cada pessoa.

O terapeuta ocupacional pode receitar remédio?

Não. Medicamento é indicado e acompanhado pelo médico. O terapeuta ocupacional trabalha com atividades, rotina e habilidades do dia a dia, e conversa com o restante da equipe sobre o que observa.

Dá para ter acompanhamento de terapia ocupacional pelo SUS na Bahia?

Em muitos municípios, sim. O terapeuta ocupacional pode fazer parte da equipe dos CAPS e do Consultório na Rua, conforme o serviço. O caminho é procurar o CAPS AD ou a unidade de saúde do seu município e perguntar quem atende essa área.

A terapia ocupacional ajuda a pessoa a voltar a trabalhar?

Ela pode ajudar a preparar esse retorno: organizar horários, treinar a convivência, reconhecer limites e planejar como lidar com situações de risco no ambiente de trabalho. A decisão sobre o momento de voltar é tomada junto com a equipe e com a própria pessoa.

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