Vício em jogos eletrônicos: quando o videogame passa do limite

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026

Vício em jogos eletrônicos é o nome popular do transtorno do jogo eletrônico, reconhecido pela OMS na CID-11. Ele não se mede em horas de tela: o que pesa é perder o controle, colocar o jogo acima de tudo e continuar jogando mesmo com prejuízo na escola, no sono e na família. Tem tratamento, e a família pode começar a agir hoje.

O que a OMS chama de transtorno do jogo eletrônico

Na página de perguntas e respostas da OMS sobre o tema, o transtorno do jogo eletrônico (em inglês, *gaming disorder*) aparece como um padrão de comportamento com três marcas:

  • controle prejudicado: a pessoa não consegue decidir quando começa, quanto tempo fica e quando para;
  • prioridade crescente: o jogo passa na frente de outros interesses e das tarefas do dia;
  • continuação ou aumento apesar das consequências: notas caindo, brigas, noites sem dormir, e o jogo segue.

Para o diagnóstico, a OMS pede que o padrão seja grave a ponto de causar prejuízo importante na vida pessoal, familiar, social ou escolar e que, em regra, esteja presente há pelo menos 12 meses. É a mesma lógica que a CID-11 usa para o transtorno do jogo de apostas. A diferença é que, aqui, o centro não é o dinheiro, e sim o tempo e a vida que o jogo vai ocupando.

A mesma página traz um dado que acalma: o transtorno atinge só uma pequena parte de quem joga. Gostar de videogame não é doença. O problema começa quando o jogo deixa de ser escolha.

Fase de empolgação ou perda de controle? Compare

Todo adolescente passa por fases de empolgação com um jogo novo. O que diferencia uma fase de um quadro que precisa de atenção é o que acontece com o resto da vida. Esta tabela ajuda a família a observar com calma, sem diagnóstico caseiro:

SituaçãoMais perto de lazerMais perto de perda de controle
EscolaJoga depois das tarefas, as notas se mantêmFalta, dorme na aula, abandona os estudos
SonoExagera num fim de semanaVira a noite com frequência e troca o dia pela noite
AmigosJoga com amigos e também encontra pessoas fora da telaSó se relaciona dentro do jogo e evita sair de casa
Quando é interrompidoReclama, mas paraExplode, quebra coisas ou ameaça
Outros interessesAinda tem esporte, música, igreja, famíliaNada mais tem graça além do jogo
DinheiroGasta pouco e com combinadoUsa o cartão dos pais escondido, vende coisas para comprar itens
PromessasCumpre o combinado na maior parte das vezesPromete diminuir e não consegue, várias vezes

Se a coluna da direita descreve o seu filho, e isso já dura meses, é hora de procurar uma avaliação. Não é preciso esperar “piorar mais”.

Por que alguns jogos prendem mais do que outros

Muitos jogos são feitos para que a pessoa não queira parar: missões diárias que “vencem” se você não entrar, recompensas que chegam em horários incertos, partidas que sempre pedem “só mais uma”, ranking que cai se você ficar fora. Isso não transforma todo jogador em doente, mas explica por que a força de vontade sozinha costuma perder a briga.

Um recurso merece atenção especial: as caixas de recompensa (*loot boxes*), em que se paga por um prêmio sorteado. A lógica é a mesma da aposta, só que com itens virtuais. Quem já perdeu o controle num sorteio pago dentro do jogo pode ficar mais exposto às apostas de dinheiro. Para entender esse outro lado, veja o artigo sobre vício em apostas e bets.

Também vale saber que um comportamento pode tomar o lugar de outro. Em famílias que já convivem com álcool ou drogas, é comum o jogo virar a nova “fuga”. Explicamos isso no texto sobre dependência cruzada.

O que a lei mudou para crianças e adolescentes

Desde março de 2026 está em vigor o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (Lei nº 15.211/2025), que vale também para jogos eletrônicos conectados à internet. Para a família, os pontos mais úteis são estes:

  • Art. 20: ficam proibidas as caixas de recompensa em jogos direcionados a crianças e adolescentes ou de acesso provável por eles;
  • Art. 17 e 18: os fornecedores devem oferecer ferramentas de supervisão parental fáceis de usar, que permitam aos pais restringir compras, ver o tempo total de uso, gerenciar a conta e a privacidade e saber com quais adultos a criança conversa;
  • Art. 21: jogos com bate-papo entre usuários devem, por padrão, limitar essas interações e depender do consentimento dos pais.

Na escola, a Lei nº 15.100/2025 proíbe o uso de celular e outros aparelhos portáteis pelos alunos durante a aula, o recreio e os intervalos na educação básica, com exceções previstas na própria lei, como uso pedagógico. O objetivo declarado é proteger a saúde mental, física e psíquica de crianças e adolescentes.

A lei ajuda, mas não substitui a conversa em casa. Ferramenta de controle sem combinado costuma virar jogo de gato e rato.

O que fazer agora: um roteiro para a família

  1. Observe por duas semanas antes de agir. Anote, sem acusar, horários de jogo, sono, faltas e reações. Fatos ajudam mais do que impressões na hora da conversa.
  2. Escolha a hora certa para conversar. Nunca no meio da partida nem logo depois de uma briga. Comece pelo que você nota: “percebi que você tem dormido às 4 da manhã e faltado à escola. Estou preocupado”.
  3. Pergunte o que o jogo resolve para ele. Muitas vezes o videogame é o lugar onde o adolescente se sente bom em algo, tem amigos ou foge de ansiedade, tristeza ou bullying. Ouvir isso muda o rumo da conversa.
  4. Combinem regras juntos, por escrito. Horário de parar, nada de tela no quarto na hora de dormir, jogo depois das obrigações. Regra combinada pesa mais do que regra imposta.
  5. Use as ferramentas de supervisão. Ative o controle de compras e o relatório de tempo de uso no console, no celular e na loja de aplicativos. Explique ao seu filho que isso existe e por quê.
  6. Ofereça algo no lugar. Tirar sem colocar nada cria vazio. Esporte, curso, trabalho voluntário, tempo com o pai ou a mãe. O artigo sobre tédio e tempo livre traz ideias que servem também aqui.
  7. Olhe para a casa inteira. Se os adultos passam a noite no celular, a regra perde força. Às vezes o combinado precisa valer para todos.

Se depois de algumas semanas nada mudar, ou se a situação já começou grave, o próximo passo é uma avaliação profissional.

Quando procurar ajuda profissional

Procure médico ou psicólogo se houver:

  • prejuízo importante na escola ou no trabalho, como reprovação, abandono ou muitas faltas;
  • isolamento: deixar de sair, de ver amigos e de participar da vida da família;
  • agressividade ou ameaças quando o jogo é interrompido;
  • sinais de tristeza profunda, ansiedade forte ou uso de álcool e drogas junto;
  • gastos escondidos ou dívidas ligadas ao jogo.

Na rede pública, comece pela unidade básica de saúde ou pelo Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), que tem modalidade voltada a crianças e adolescentes. O tratamento costuma ser feito com psicoterapia e com a família por perto. Quando há outros quadros juntos, como depressão, a avaliação de saúde mental é ainda mais importante.

Se o seu filho falar em se machucar, em morrer ou disser que “não vê saída”, não espere: ligue para o CVV no 188 (24 horas, gratuito) ou, em risco imediato, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Camaçari, orientamos famílias que estão perdidas diante de uma dependência, seja de substância, seja de comportamento. Cada caso começa por uma avaliação psiquiátrica presencial, com plano terapêutico individual, família junto e sigilo. Pergunte se o serviço atende o perfil do seu familiar. Atendemos famílias de Camaçari e de toda a região.

Em resumo

  • O vício em jogos eletrônicos é reconhecido pela OMS na CID-11 como transtorno do jogo eletrônico.
  • O que define o problema não são as horas, e sim perda de controle, prioridade para o jogo e continuação apesar do prejuízo, em geral por pelo menos 12 meses.
  • Desde março de 2026, o Estatuto Digital proíbe caixas de recompensa em jogos voltados a crianças e adolescentes e obriga ferramentas de supervisão para os pais.
  • Conversa, regras combinadas e alternativas funcionam melhor do que o corte brusco.
  • Isolamento, agressividade, abandono da escola ou fala de morte pedem avaliação profissional, e o CVV (188) atende 24 horas.

Perguntas frequentes

Quantas horas de videogame por dia é demais?

Não existe um número que separe o normal do problema. A OMS não define o transtorno por horas, e sim por perda de controle, prioridade para o jogo e continuação apesar dos prejuízos. Um adolescente que joga muito nas férias e mantém escola, sono e amigos está numa situação bem diferente de quem já larga tudo para jogar.

Tirar o videogame de uma vez resolve?

Raramente resolve sozinho e costuma gerar briga forte. Quando já existe perda de controle, o corte brusco sem conversa e sem alternativa tende a virar disputa de poder. Funciona melhor combinar regras claras, reduzir aos poucos e buscar avaliação se o prejuízo for grande.

Jogos com caixas de recompensa podem levar às apostas?

As caixas de recompensa funcionam como um sorteio pago dentro do jogo, com prêmio incerto, o que lembra a lógica da aposta. Por isso o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente proibiu esse recurso em jogos voltados ao público infantojuvenil ou de acesso provável por ele. Se o seu filho gasta dinheiro tentando a sorte dentro do jogo, vale conversar sobre isso cedo.

Gostar muito de videogame já é sinal de vício?

Não. A própria OMS diz que o transtorno atinge só uma pequena parte de quem joga. Paixão por jogos, até competitiva, não é doença. O sinal de alerta é quando o jogo passa a tomar o lugar de tudo o resto e a pessoa não consegue parar mesmo vendo o estrago.

Quem trata o vício em jogos eletrônicos?

O diagnóstico é feito por médico psiquiatra ou psicólogo, depois de conversar com a pessoa e com a família. Na rede pública, o caminho começa na unidade básica de saúde ou no CAPS, que tem modalidade voltada a crianças e adolescentes. O tratamento costuma ser feito com psicoterapia e envolve a família.

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