Alateen: o grupo para adolescentes que convivem com o alcoolismo
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026
Alateen é o grupo do Al-Anon para adolescentes cuja vida foi afetada pelo beber de alguém próximo, quase sempre o pai, a mãe ou um irmão. Nas reuniões, os jovens conversam com outros que vivem o mesmo, sem custo e sem precisar que o familiar pare de beber. Não é tratamento para o adolescente nem terapia: é ajuda mútua.
O que é o Alateen, em palavras simples
O Alateen nasceu dentro do Al-Anon, a irmandade de familiares e amigos de pessoas com problema com álcool. O site do Al-Anon do Brasil descreve o Alateen como a parte formada por pessoas jovens, com o mesmo espírito do grupo dos adultos: não há taxa para ser membro, o grupo não discute religião e o anonimato de cada um é protegido.
A página internacional do Al-Anon dedicada ao Alateen fala em jovens de 13 a 18 anos que usam os Doze Passos e as Doze Tradições adaptadas para lidar com o que vivem em casa. A mesma página deixa claro o que o grupo não é: não é lugar para quem busca ajuda para o próprio problema com bebida ou droga, não é programa de terapia e não é ponto de encontro social.
Na prática, o adolescente descobre ali uma coisa que costuma mudar muito: ele não causou o alcoolismo de ninguém, não consegue controlá-lo e não é o responsável por curá-lo. Tirar esse peso das costas dele já é muito.
Para quem o Alateen faz sentido
Pense no Alateen quando um jovem da família:
- vive em alerta, tentando adivinhar como o pai ou a mãe vai chegar em casa;
- assumiu tarefas de adulto, como cuidar dos irmãos menores ou esconder o problema dos vizinhos;
- tem vergonha de chamar amigos para casa ou inventa desculpas pela família;
- oscila entre raiva e culpa em relação a quem bebe;
- caiu na escola, se isolou ou passou a dizer que “tanto faz”.
Esses sinais não são diagnóstico. São pistas de que o adolescente está carregando algo grande e se beneficiaria de um espaço só dele. No artigo sobre filhos de pais com dependência explicamos o que costuma acontecer com crianças e jovens nessa situação.
Um ponto importante: se o próprio adolescente está bebendo, o Alateen pode até ajudar com o que ele vive em casa, mas não cuida do uso dele. Para isso, leia filho adolescente bebendo: o que fazer.
O que a lei diz sobre proteger o adolescente nessa casa
O Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/1990) coloca a proteção do jovem como dever compartilhado. O art. 4º diz que é dever da família, da comunidade, da sociedade e do poder público assegurar, com prioridade, os direitos à saúde, à dignidade e à convivência familiar. O art. 19 garante o direito de ser criado em ambiente que assegure o desenvolvimento integral.
Isso significa que a dependência de um adulto da casa não tira dele a família, mas também não pode tirar do adolescente a proteção. Quando há maus-tratos ou suspeita deles, o art. 13 manda comunicar o Conselho Tutelar, e o art. 56 obriga os dirigentes das escolas de ensino fundamental a fazer essa comunicação. As atribuições do conselho estão no art. 136. Para entender quando e como acionar, veja o guia sobre o Conselho Tutelar e o adolescente.
Violência contra criança ou adolescente pode ser denunciada pelo Disque 100, de graça e sem se identificar. Em perigo imediato, ligue 190. Se o jovem fala em morrer ou se machuca, procure ajuda já: CVV pelo 188 (24 horas, gratuito) e, em risco imediato, 192 (SAMU).
Alateen, Al-Anon, CAPS ou psicólogo: o que procurar?
| Situação do jovem | Por onde começar |
|---|---|
| Sofre com o beber de alguém da casa, mas está estudando e conversando | Alateen |
| O adulto que cuida dele também está esgotado | Al-Anon para o adulto, junto com o Alateen para o jovem |
| Tristeza que não passa, isolamento forte, autolesão | Avaliação na rede de saúde ou com psicólogo, e o grupo como apoio |
| O próprio adolescente bebe ou usa drogas | Avaliação de saúde; na rede pública, o CAPS indicado para a idade |
| Violência ou abandono em casa | Conselho Tutelar e Disque 100 |
Os grupos se completam. O Al-Anon e outros caminhos para os adultos estão no artigo sobre grupos de apoio para familiares.
Como encontrar um grupo de Alateen na Bahia
O caminho mais seguro é o próprio Al-Anon do Brasil. No site oficial há a opção de encontrar um grupo e um canal de atendimento por telefone e formulário. Pergunte especificamente por reuniões de Alateen, porque nem todo grupo de Al-Anon tem uma sala para jovens.
Em Salvador, Lauro de Freitas e Camaçari, se não houver Alateen perto, vale perguntar sobre reuniões a distância e se o adulto pode começar pelo Al-Anon enquanto isso. Para quem mora na capital, o guia onde buscar ajuda para dependência em Salvador reúne a rede pública e os grupos.
Desconfie de qualquer grupo que cobre mensalidade, peça dados demais do adolescente ou prometa resolver o problema do familiar que bebe. Não é assim que a ajuda mútua funciona.
Passo a passo: como apresentar o Alateen ao adolescente
- Escolha um momento calmo. Nada de propor o grupo logo depois de uma briga ou de uma noite difícil.
- Fale do que você vê, não do que ele “tem”. Por exemplo: “Percebi que você anda cansado de cuidar de tudo. Existe um lugar onde outros jovens falam disso.”
- Deixe claro que ninguém vai ficar sabendo. O anonimato é um princípio do grupo, e ele não precisa contar nada que não queira.
- Ofereça, não obrigue. Proponha ir a uma reunião e decidir depois. Grupo imposto costuma virar castigo.
- Combine a logística. Quem leva, quem busca, como volta. Para o jovem, ter esse cuidado garantido já diz muito.
- Cuide também de você. O adulto que protege os filhos precisa de apoio. Se a vida da casa passou a girar em torno do beber, leia sobre codependência.
Se você é professor ou coordenador, o roteiro é parecido, mas com um cuidado a mais: converse em particular, nunca diante da turma, e envolva a família e a coordenação. O artigo para professores que percebem algo com um aluno traz orientações para a escola.
Quando o grupo não basta
O Alateen é apoio, não atendimento de saúde. Procure avaliação profissional quando o adolescente:
- fala em morrer, em sumir, ou se machuca;
- parou de comer, de dormir ou de sair do quarto por semanas;
- começou a beber ou a usar drogas;
- sofre agressão em casa ou presencia violência com frequência.
Nesses casos, o grupo continua útil, mas ao lado do cuidado profissional, nunca no lugar dele.
Como podemos ajudar
Nós cuidamos do adulto que bebe, para que a casa volte a ser um lugar seguro para os filhos. Temos equipe com nome e função, enfermagem 24 horas, avaliação psiquiátrica presencial e plano terapêutico individual, com a família junto no processo e sigilo. Conheça o tratamento do alcoolismo ou fale com a gente. Atendemos famílias de Salvador e de toda a Bahia.
Em resumo
- O Alateen é o grupo do Al-Anon para adolescentes afetados pelo beber de alguém próximo, sem taxa e com anonimato.
- O familiar não precisa parar de beber nem concordar para o jovem participar.
- O grupo não trata o uso do próprio adolescente e não substitui psicólogo.
- O ECA garante ao jovem proteção prioritária; violência se comunica ao Conselho Tutelar ou ao Disque 100.
- Ofereça o grupo com calma, sem obrigar, e cuide também de quem cuida.
Perguntas frequentes
Meu filho precisa beber para participar do Alateen?
Não. O Alateen é para o jovem afetado pelo beber de outra pessoa, como o pai, a mãe, um irmão ou um avô. Se o próprio adolescente está bebendo ou usando drogas, o caminho é outro: avaliação de saúde e tratamento adequado à idade.
Qual é a idade para entrar no Alateen?
A página internacional do Al-Anon fala em jovens de 13 a 18 anos. Como a organização dos grupos pode variar de um lugar para outro, confirme a faixa de idade com o Al-Anon do Brasil ou com o grupo da sua cidade antes de levar o adolescente.
O familiar que bebe precisa autorizar ou ficar sabendo?
O grupo existe para o jovem, não para quem bebe, e a reunião não depende de a pessoa aceitar tratamento. Quem leva o adolescente costuma ser o outro responsável ou um adulto de confiança da família. Se houver conflito sobre isso em casa, converse antes com o grupo sobre como funciona a participação de menores de idade.
O Alateen basta quando o adolescente está muito triste ou se machucando?
Não. O grupo acolhe, mas não é terapia nem atendimento de saúde. Tristeza que não passa, isolamento, autolesão ou fala sobre morrer pedem avaliação profissional, e o CVV atende pelo 188, 24 horas, de graça. Em risco imediato, ligue 192.
Um professor pode indicar o Alateen a um aluno?
Pode apresentar a ideia com cuidado, sem expor o aluno diante da turma, e de preferência junto com a coordenação e a família. Se houver sinal de violência ou de abandono em casa, o art. 56 do ECA obriga os dirigentes de escolas de ensino fundamental a comunicar o Conselho Tutelar.
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