Drogas pelas redes sociais: como o adolescente é abordado e o que os pais podem fazer
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026
A venda de drogas pelas redes sociais chega ao adolescente quase sempre por mensagem direta: um perfil desconhecido, um “amigo de amigo”, um grupo de festa ou de jogo. Os pais não precisam conhecer cada aplicativo para proteger o filho. O que mais protege é conversa aberta, controles parentais bem configurados e saber denunciar sem expor o jovem.
Como o adolescente é abordado pelo celular?
A rua e a porta da escola continuam existindo, mas o celular encurtou o caminho. Quem vende não precisa estar no bairro: basta encontrar o adolescente onde ele já passa o tempo. A abordagem costuma seguir alguns padrões, que valem para qualquer aplicativo:
- Mensagem direta de um perfil sem rosto, recém-criado ou com poucas publicações, que puxa conversa com elogio, brincadeira ou convite;
- Grupos de festa, de jogo ou de “resenha”, em que a oferta aparece no meio de outros assuntos e parece normal porque “todo mundo está lá”;
- Contato que começa amigável e só depois chega à droga, às vezes com a oferta de “experimentar de graça” ou de ganhar dinheiro fazendo entregas;
- Pressa e segredo: pedido para apagar a conversa, mudar de aplicativo ou não contar a ninguém.
Os códigos, as gírias e os símbolos usados mudam o tempo todo, e decorar uma lista não adianta. O sinal mais confiável é o padrão: um adulto desconhecido, insistente, que pede sigilo a um adolescente.
Há um risco que muitas famílias não enxergam: além do consumo, o jovem pode ser chamado para trabalhar para quem vende, como entregador ou divulgador. A proposta chega como “dinheiro fácil” e coloca o adolescente em perigo real.
O que a lei diz sobre oferecer droga a um adolescente?
Vender ou oferecer droga é crime pela Lei de Drogas (Lei nº 11.343/2006), no art. 33. O art. 40, VI, da mesma lei aumenta a pena de um sexto a dois terços quando a prática envolve ou visa atingir criança ou adolescente. O fato de a oferta ter sido feita pela internet não muda isso.
O Estatuto da Criança e do Adolescente, no art. 243, também pune quem vende, fornece ou entrega a criança ou adolescente, mesmo de graça, produtos que possam causar dependência. E o art. 104 do ECA lembra que o adolescente não responde pelo Código Penal: se ele se envolveu, as medidas são as do próprio Estatuto, pensadas para proteger e educar.
Desde 17 de março de 2026 está em vigor o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (Lei nº 15.211/2025). Ele obriga as plataformas usadas por adolescentes a oferecer ferramentas de supervisão parental fáceis de usar (art. 17) e determina que contas de menores de até 16 anos sejam vinculadas à conta de um responsável (art. 24). Ou seja: hoje os pais têm, por lei, mais instrumentos do que tinham há pouco tempo.
Que controles parentais a família pode usar?
Pelo art. 18 do Estatuto Digital, as ferramentas de supervisão devem permitir aos pais, entre outras coisas, o seguinte:
| O que a ferramenta permite | Como isso ajuda contra a oferta de droga |
|---|---|
| Configurar privacidade da conta | Perfil fechado e mensagens só de quem ele segue reduzem o contato de estranhos |
| Identificar os adultos com quem o adolescente conversa | Ajuda a perceber um contato novo e insistente |
| Restringir compras e transações | Dificulta pagamentos feitos pelo próprio aparelho |
| Ver o tempo total de uso | Mostra mudanças bruscas de rotina, como uso de madrugada |
| Ligar e desligar proteções | Permite ajustar o nível de controle conforme a idade e a confiança |
Um cuidado importante: configure junto com o seu filho, não escondido. Explique o que cada opção faz e por que você está ligando. Controle descoberto às escondidas costuma virar briga e incentivar uma segunda conta. Controle combinado vira acordo, e acordo pode ser revisto conforme ele amadurece.
Como conversar sem transformar o celular em campo de batalha?
As diretrizes internacionais de prevenção do UNODC e da OMS apontam os programas que fortalecem o vínculo e a comunicação entre pais e filhos entre as estratégias com evidência de proteção. Na prática, o celular entra nessa conversa como mais um assunto da vida, não como interrogatório.
Algumas frases que costumam abrir caminho:
- “Já te mandaram mensagem oferecendo alguma coisa estranha? Eu queria saber, não para te dar bronca, mas para te ajudar a lidar.”
- “Se alguém te pedir segredo pela internet, é sinal de alerta. Pode me contar, que eu não vou tirar seu celular por causa disso.”
- “Se um dia te oferecerem dinheiro para entregar alguma coisa, me chama antes de responder.”
A promessa de não punir quem conta é o coração da prevenção. O adolescente que é castigado por mostrar uma mensagem aprende a esconder a próxima. Para aprofundar o diálogo, veja como conversar com o filho sobre drogas e o que fazer se você achou droga no quarto do filho.
O que fazer agora, se o seu filho recebeu uma oferta
- Mantenha a calma e agradeça se ele contou. A reação dos pais nesse momento define se ele vai contar de novo.
- Não responda ao perfil. Nada de ameaça nem de “desmascarar”: isso pode fazer as provas sumirem e expor o seu filho.
- Guarde as provas. Faça capturas de tela da conversa, do nome do perfil e, se possível, do endereço da página, com data e hora.
- Denuncie no próprio aplicativo. Toda rede social tem a opção de denunciar perfil ou mensagem.
- Leve às autoridades. Registre ocorrência na delegacia e procure o Disque 100, canal federal que recebe denúncias de violações de direitos de crianças e adolescentes.
- Depois, bloqueie e revise com ele as configurações de privacidade.
- Converse com a escola, se a oferta veio de um grupo ligado a colegas. Outros alunos podem estar recebendo a mesma mensagem.
Se o caso envolve uso frequente ou risco à segurança do adolescente, o Conselho Tutelar é um aliado da família, não um castigo. A prevenção na escola complementa o que acontece em casa; veja como funciona a prevenção às drogas na escola.
Quando procurar ajuda profissional?
A oferta, sozinha, não quer dizer que o seu filho usa droga. Mas vale procurar ajuda quando aparecem sinais como mudança brusca de amigos e de rotina, queda forte nas notas, dinheiro sumindo ou sobrando sem explicação, isolamento, irritação intensa ou sinais de uso. Nesses casos, uma avaliação com profissional de saúde mental ajuda a entender o que está acontecendo. A rede pública conta com o CAPS e com a orientação às famílias. Em Salvador e na região metropolitana, também dá para buscar orientação sobre clínica de reabilitação em Salvador.
Se houver ameaça, violência ou risco imediato à vida, ligue 190 (Polícia Militar) ou 192 (SAMU). Se o adolescente falar em tirar a própria vida, ligue para o CVV no 188, 24 horas e de graça.
Cuidar do filho também cansa quem cuida. Se a família está vivendo em função do problema, vale ler sobre codependência, quando a família adoece junto.
Como podemos ajudar
Nossa equipe orienta famílias que estão com medo e sem saber por onde começar: ouvimos a situação, explicamos os caminhos e, quando há tratamento, trabalhamos com plano terapêutico individual e com a família junto, sempre com sigilo. Pergunte se o serviço atende o perfil do seu familiar. Fale com a equipe pelo WhatsApp.
Em resumo
- A venda de drogas pelas redes sociais chega por mensagem direta, grupos e perfis falsos, e costuma pedir segredo.
- Oferecer droga a adolescente é crime com pena aumentada (Lei nº 11.343/2006, art. 40, VI), também pela internet.
- O Estatuto Digital (Lei nº 15.211/2025), em vigor desde março de 2026, obriga as plataformas a oferecer supervisão parental e a vincular contas de até 16 anos a um responsável.
- Configure os controles junto com o filho e prometa não puni-lo por contar o que recebeu.
- Diante de uma oferta: não responda, guarde as provas, denuncie no aplicativo e às autoridades e só depois bloqueie.
Perguntas frequentes
Devo ler as mensagens do celular do meu filho?
Acompanhar o celular de um adolescente faz parte do cuidado dos pais, mas ler tudo escondido costuma quebrar a confiança e fazer a conversa migrar para outro aparelho. Funciona melhor combinar regras às claras: o que vocês vão acompanhar, por quê e até quando. Diante de um risco concreto, como uma oferta de droga, olhar a conversa junto com ele é uma medida de proteção.
Bloquear as redes sociais resolve o problema?
Raramente. O adolescente pode criar outra conta, usar o celular de um amigo ou migrar para um aplicativo que os pais não conhecem. Os controles ajudam a reduzir a exposição, mas a proteção que acompanha o jovem para fora de casa é a confiança de que ele pode contar o que recebeu sem ser punido por isso.
Se eu denunciar o perfil, meu filho pode ter problema com a polícia?
A denúncia tem como alvo quem vende ou oferece a droga. Receber uma oferta não é crime. Se o adolescente chegou a comprar ou usar, ele não responde pelo Código Penal: o ECA prevê medidas próprias, voltadas à proteção e à educação. Em caso de dúvida, procure orientação jurídica antes de agir.
Com que idade o adolescente pode ter conta em rede social sem vínculo com os pais?
Pelo Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (Lei nº 15.211/2025, art. 24), as redes sociais devem garantir que contas de crianças e adolescentes de até 16 anos estejam vinculadas à conta de um responsável legal. Isso não substitui a conversa, mas dá aos pais acesso às ferramentas de supervisão.
Vale a pena responder ao perfil que ofereceu droga para ameaçar ou desmascarar?
Não. Responder pode alertar quem vende, fazer o perfil sumir antes da denúncia e expor o seu filho. O mais seguro é registrar as provas com capturas de tela, denunciar no próprio aplicativo e às autoridades e só então bloquear.
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