Álcool na faculdade: festas, calouradas e quando se preocupar

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026

Revisão clínica: Dra. Maria Carolina Ferreira Lattaro — Médica psiquiatra, CRM 235769/SP

Álcool na faculdade preocupa quando a bebida deixa de ser parte da festa e passa a comandar a rotina: beber muito em pouco tempo, toda semana, apagar, faltar às aulas, se colocar em risco ou não conseguir ir a um evento sem beber. As primeiras semanas do curso pedem atenção redobrada, e a família continua tendo um papel importante, mesmo de longe.

Por que o álcool na faculdade pede atenção especial?

A entrada na universidade junta várias mudanças de uma vez. O jovem ganha liberdade de horários, muitas vezes sai da casa dos pais, faz amigos novos e encontra bebida fácil e barata em calouradas, chopadas, festas de república e open bar.

O Instituto Nacional sobre Abuso de Álcool e Alcoolismo dos EUA (NIAAA) aponta, em seu material sobre o consumo de álcool entre universitários, que tempo livre sem estrutura, bebida amplamente disponível e pouco contato com os pais e outros adultos podem levar a problemas. O mesmo material destaca que as primeiras seis semanas do primeiro ano são um período vulnerável para o beber pesado, por causa das expectativas e da pressão social do começo das aulas.

Na Bahia, esse cenário tem cores próprias. Muitos estudantes do interior se mudam para Salvador, Feira de Santana ou outras cidades com campus, e o calendário das festas de largo, do São João e do Carnaval se soma ao da faculdade. A saudade de casa e a vontade de pertencer ao grupo novo pesam.

Quando se preocupar: sinais de alerta no universitário

Nenhum sinal sozinho fecha diagnóstico. O que acende a luz amarela é a repetição e a soma. Fique atento quando aparecem:

ÁreaO que observar
EstudosFaltas por ressaca, provas perdidas, notas em queda, trancamento sem explicação clara
RotinaBebida em dias de semana, sono trocado, festas em sequência, dinheiro que some antes do fim do mês
Memória e riscoLapsos de memória depois de beber, voltar dirigindo ou de carona com quem bebeu, brigas, quedas
RelaçõesAmizades que giram só em torno da bebida, afastamento da família, mentiras sobre onde estava
HumorAnsiedade ou tristeza que melhoram só com álcool, irritação quando falta bebida
ControlePromete beber “só um pouco” e não consegue, não vai a evento sem beber

Os lapsos de memória merecem atenção à parte, porque não são “só um porre”: explicamos por que em apagão alcoólico como sinal de alerta. Para entender quando o padrão já sugere dependência, veja como saber se alguém é alcoólatra.

O que a lei diz sobre o calouro menor de 18 anos

Parte dos calouros entra na faculdade com 17 anos. Para eles, a regra é clara: o Estatuto da Criança e do Adolescente proíbe, no art. 81, a venda de bebida alcoólica a crianças e adolescentes, e o art. 243 define como crime vender, fornecer, servir ou entregar bebida alcoólica a quem tem menos de 18 anos, ainda que de graça.

Na prática, quem organiza a festa, quem vende o ingresso com open bar e quem entrega o copo é quem pode responder. O adolescente não comete crime por beber. Detalhamos esse ponto em vender bebida para menor é crime. Se o seu filho ainda é adolescente, o guia filho adolescente bebendo: o que fazer é o mais indicado.

Como conversar com o filho universitário sobre a bebida

Com um jovem adulto, a conversa muda de tom. Proibir já não funciona do mesmo jeito, mas a influência da família não acaba. O NIAAA cita pesquisas mostrando que estudantes que escolhem não beber muitas vezes o fazem porque os pais conversaram com eles sobre o álcool e suas consequências.

Um roteiro simples para essa conversa:

  1. Escolha a hora. Nunca durante a ressaca, nem quando ele chega de madrugada. Um almoço tranquilo ou uma caminhada funcionam melhor.
  2. Comece pelo cuidado, não pela acusação. “Fiquei preocupado com você depois daquela festa” abre mais portas do que “você está bebendo demais”.
  3. Fale do que viu. Fatos concretos (a falta na prova, o apagão, a volta de carona) evitam discussão sobre rótulos.
  4. Pergunte e escute. Como estão as amizades, a solidão, a ansiedade com o curso? Muitas vezes a bebida está tapando outra coisa.
  5. Combine segurança sem sermão. Não voltar dirigindo nem de carona com quem bebeu, ter um amigo de confiança na festa, avisar quando chegar.
  6. Deixe a porta aberta. Diga que ele pode ligar a qualquer hora, inclusive se algo der errado, sem bronca naquele momento.

E se quem está lendo é o próprio estudante, desconfiado de que a bebida passou do ponto? Um teste honesto é tentar passar algumas festas sem beber e observar o que acontece: se a ideia parece impossível, se a ansiedade dispara ou se o grupo só funciona com álcool, isso já é uma informação valiosa para levar a um profissional.

Se a conversa já foi tentada e ele nega tudo, há caminhos em como convencer um dependente a se tratar.

O que fazer quando a festa vira emergência?

Beber muito em pouco tempo pode levar à intoxicação grave. O NIAAA lista, entre os sinais de overdose de álcool, confusão mental, dificuldade para continuar acordado ou não conseguir acordar, vômitos, convulsões, respiração lenta ou irregular e pele fria, pálida ou azulada. Diante de qualquer um deles, a pessoa precisa de atendimento médico imediato.

Se alguém não acorda, respira com dificuldade ou convulsiona depois de beber, ligue 192 (SAMU) e não deixe a pessoa sozinha. Esperar “passar dormindo” pode ser perigoso.

Vale combinar isso com o jovem antes das festas: chamar ajuda para um amigo é cuidado, não traição.

Quando procurar ajuda profissional?

Procure avaliação quando os sinais da tabela se repetem por semanas, quando já houve apagões, acidentes ou brigas, quando o jovem tenta diminuir e não consegue, ou quando a bebida vem junto com tristeza profunda, crises de ansiedade ou isolamento.

Na rede pública, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), em especial o CAPS AD, atendem pessoas com problemas ligados ao álcool, em geral sem precisar largar os estudos. Muitas universidades também têm serviço de apoio ao estudante; vale perguntar na coordenação. Para a família, grupos como o Al-Anon ajudam a não carregar a preocupação sozinha, e o jovem pode conhecer o Alcoólicos Anônimos.

Se surgirem falas sobre não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).

Se o tratamento levar a uma pausa no curso, saiba que dá para retomar: mostramos como em voltar a estudar depois da internação.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, conversamos com a família antes de qualquer decisão. Quando o tratamento é indicado, há avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas, plano terapêutico individual e a família participando, sempre com sigilo. Conheça o tratamento para alcoolismo. Recebemos famílias de Salvador e de toda a Bahia.

Em resumo

  • Beber em festa não é, por si só, dependência; o padrão que se repete é o que preocupa.
  • O início do curso, a mudança de cidade e a bebida fácil aumentam o risco.
  • Fornecer bebida a calouro menor de 18 anos é crime pelo art. 243 do ECA.
  • A conversa com o jovem adulto funciona melhor com fatos, escuta e combinados de segurança.
  • Não acordar, respirar mal ou convulsionar depois de beber é emergência: 192.

Perguntas frequentes

Beber nas festas da faculdade já é motivo para preocupação?

Nem sempre. O que pesa é o padrão: beber muito em pouco tempo, toda semana, perder a memória, faltar às aulas por causa da ressaca ou se colocar em risco. Quando esses sinais se repetem, a conversa e a avaliação profissional deixam de ser exagero.

Calouro com menos de 18 anos pode receber bebida em festa universitária?

Não. O Estatuto da Criança e do Adolescente proíbe vender ou fornecer bebida alcoólica a menores de 18 anos, e o art. 243 trata isso como crime, mesmo quando a bebida é dada de graça. Quem responde é quem fornece, não o adolescente.

Meu filho estuda em outra cidade. Como acompanhar sem invadir a vida dele?

Combine um contato regular que não seja interrogatório, como uma ligação por semana, e pergunte da rotina, das amizades e do sono, não só da bebida. Mudanças grandes de humor, sumiços e notas em queda dizem mais do que a pergunta “você está bebendo?”.

Tratar o problema com o álcool obriga a largar a faculdade?

Não necessariamente. Muitos casos começam com acompanhamento ambulatorial, como no CAPS AD, que permite seguir estudando. Quando a equipe indica internação, o curso pode ser retomado depois, e vale conversar com a coordenação sobre as opções da instituição.

A culpa de o jovem beber demais é das festas?

As festas facilitam, mas raramente explicam tudo sozinhas. Ansiedade, solidão de quem mudou de cidade, pressão do grupo e histórico de álcool na família também contam. Por isso a conversa precisa olhar para a pessoa, e não só para o calendário de eventos.

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