Prevenção às drogas na escola: o que funciona e como a família participa
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026
Prevenção às drogas na escola funciona quando é contínua, conversada e treina habilidades, e não quando se resume a uma palestra de susto. As diretrizes da ONU e da OMS apontam três frentes com mais apoio: aulas interativas sobre como lidar com pressão e decisões, regras escolares claras e não punitivas, e a família por perto. Escola e casa precisam combinar a mesma mensagem.
O que é prevenção às drogas na escola, afinal?
Prevenir não é só avisar que droga faz mal. É fortalecer o que protege o aluno: saber dizer não sem perder os amigos, lidar com raiva e tristeza, ter adultos de confiança e sentir que pertence à escola. Por isso boa parte da prevenção nem cita uma substância específica.
A Lei de Drogas reconhece isso. O art. 19 da Lei nº 11.343/2006 coloca o “não uso”, o “retardamento do uso” e a redução de riscos como resultados desejáveis da prevenção. Adiar a primeira experiência já é ganho, porque quem começa cedo tende a correr mais riscos, como explicamos em fatores de risco da dependência química.
O que funciona, segundo as evidências?
O documento de referência no mundo é o conjunto de padrões internacionais de prevenção do UNODC e da OMS, revisado em 2018. Para a escola, ele destaca três tipos de ação:
| Ação | Como é na prática | Para quem |
|---|---|---|
| Ambiente de sala organizado | Professor apoiado para manter regras claras, elogiar o bom comportamento e reduzir a agressividade | Crianças, desde os primeiros anos |
| Habilidades pessoais e sociais | Série de aulas interativas: resistir à pressão, tomar decisões, lidar com emoções, desfazer a ideia de que “todo mundo usa” | Sobretudo o início da adolescência |
| Política escolar sobre substâncias | Regra escrita, que vale para alunos, professores e visitantes, com resposta educativa e de cuidado quando há um caso | Toda a escola |
Os padrões descrevem os programas de habilidades com mais efeito como estruturados, em geral de 10 a 15 encontros semanais, com sessões de reforço nos anos seguintes, conduzidos por um facilitador treinado. Também recomendam falar das consequências imediatas, como vergonha, briga, acidente e queda nas notas, que pesam mais para o adolescente do que doenças que só aparecem muitos anos depois.
O que não funciona e pode até atrapalhar?
Os mesmos padrões listam características associadas à falta de efeito: aula só expositiva, informação isolada sobre as drogas, principalmente com tom de medo, conversas sem roteiro, foco apenas em autoestima ou em valores morais, e depoimento de ex-usuários. Na política escolar, a testagem aleatória de alunos também entra nessa lista.
O Brasil tem um exemplo importante. O programa europeu Unplugged foi adaptado pelo Ministério da Saúde com o nome #Tamojunto. No primeiro estudo de avaliação, com 6.391 alunos de 72 escolas públicas, os estudantes que passaram pelo programa tiveram risco 30% maior de experimentar álcool nos 9 meses seguintes do que os do grupo de comparação. Os pesquisadores atribuíram o resultado a uma adaptação que tirou partes do conteúdo original sobre álcool, e o programa foi reformulado em 2018.
A lição para pais e professores é simples: boa intenção não basta. Programa de prevenção precisa de base científica, fidelidade ao que foi testado e avaliação.
O que a lei brasileira diz sobre prevenção na escola?
Algumas regras ajudam a família a conversar com a escola com segurança:
- Lei nº 11.343/2006, art. 19, X e XI: traz como diretrizes a formação continuada dos profissionais de educação em prevenção e a implantação de projetos pedagógicos de prevenção nas escolas públicas e privadas.
- Lei nº 11.343/2006, art. 19-A: criou a Semana Nacional de Políticas sobre Drogas, na quarta semana de junho, um bom momento para a escola reunir as famílias.
- Decreto nº 6.286/2007, art. 4º, X e XI: o Programa Saúde na Escola, que une saúde e educação na rede pública, inclui a prevenção do consumo de álcool e do uso de drogas entre as suas ações.
- Estatuto da Criança e do Adolescente, arts. 81 e 243: proíbem vender ou fornecer bebida alcoólica a criança ou adolescente, e o fornecimento é crime. Vale lembrar isso antes de festas da escola, formaturas e do São João.
Se o caso já aconteceu e o aluno foi flagrado, o caminho é outro: veja o guia sobre filho pego com droga na escola.
Como a família participa da prevenção na escola?
A escola não substitui a casa, e a casa não substitui a escola. Um estudo com escolares brasileiros, publicado na Revista Brasileira de Epidemiologia, encontrou menos consumo entre os alunos que disseram ter aprendido sobre drogas com os pais ou com professores. Um roteiro para a família:
- Pergunte à escola o que ela faz. Existe um programa com várias aulas ou só um evento por ano? Os professores foram treinados?
- Peça a regra por escrito. Ela vale também para eventos, passeios e formaturas? O que acontece quando um aluno é flagrado?
- Repita em casa a mesma mensagem. Se a escola trabalhou pressão do grupo, pergunte ao seu filho o que ele faria naquela situação. Veja ideias em como conversar com seu filho sobre drogas.
- Cuide do exemplo e das festas. Combine com outras famílias que não haverá bebida para os adolescentes nos aniversários, no Carnaval e nas festas juninas.
- Esteja presente. Saber com quem o filho anda, com afeto e sem vigilância sufocante, aparece entre os fatores de proteção citados pelos padrões internacionais.
O que o professor pode fazer na sala de aula?
O professor não precisa ser especialista em drogas. Ele já previne quando mantém uma sala com regras claras, chama o aluno pelo nome e percebe quem está se isolando. Na hora de tratar do tema:
- troque a palestra única por atividades em grupo, com situações do dia a dia para os alunos resolverem;
- corrija a ideia de que “todo mundo usa”, que costuma aumentar a curiosidade;
- evite mostrar imagens chocantes ou contar casos trágicos como principal estratégia;
- nunca exponha um aluno diante da turma, e encaminhe uma suspeita com discrição à coordenação e à família.
Quando a prevenção já não basta?
Prevenção é para todos; alguns alunos precisam de mais. Procure a coordenação, a família, a equipe de saúde ou o CAPS da cidade quando houver:
- queda brusca de notas, faltas frequentes ou troca repentina de amigos;
- tristeza, irritação ou isolamento que duram semanas;
- sinais repetidos de uso, como cheiro, objetos ou dinheiro sumindo;
- conflitos em casa que a família não consegue mais resolver sozinha.
Os sinais mais comuns estão em sinais de dependência química. E a própria família também sofre: o guia sobre codependência ajuda a cuidar de quem cuida.
Se um aluno ou filho falar em não querer viver, leve a sério e não o deixe sozinho. O CVV atende 24 horas pelo 188, de graça. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).
Como podemos ajudar
O Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, orienta famílias e educadores com sigilo. Quando já há dependência, oferecemos tratamento da dependência química com avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas, plano terapêutico individual e a família junto no processo. Atendemos famílias de Camaçari e de toda a Bahia.
Em resumo
- Prevenção que funciona é contínua e interativa, com treino de habilidades, e não uma palestra de susto.
- Aula só expositiva, medo, depoimento de ex-usuário e teste aleatório de alunos aparecem entre as práticas sem efeito.
- O caso do #Tamojunto mostra que até programa bem-intencionado pode atrapalhar se for mal adaptado.
- A Lei de Drogas e o Programa Saúde na Escola preveem prevenção nas escolas, e a família pode cobrar isso.
- Escola e casa precisam falar a mesma língua, com regras claras e adultos presentes.
Perguntas frequentes
Palestra com ex-usuário ajuda a prevenir o uso de drogas?
As diretrizes internacionais da ONU e da OMS listam o depoimento de ex-usuários entre as práticas associadas à falta de efeito. A história pode emocionar, mas não ensina o aluno a lidar com a pressão do grupo. Se a escola quiser convidar alguém, o encontro funciona melhor como parte de um programa com várias aulas, e não como evento isolado.
A escola pode fazer teste de drogas aleatório nos alunos para prevenir?
Nas mesmas diretrizes, a testagem aleatória de alunos aparece como característica associada à falta de efeito das políticas escolares. O que tem mais apoio é uma regra clara, que vale para todos, e uma resposta educativa e de cuidado quando acontece um caso, em vez de punição pura.
Já dá para fazer prevenção com crianças do ensino fundamental I?
Dá, e não precisa falar de drogas o tempo todo. Nessa fase, o que protege é um ambiente de sala organizado, regras claras e o ensino de convivência e de lidar com frustração. As aulas específicas sobre álcool e drogas, com treino de habilidades, parecem render mais no início da adolescência.
A escola pública é obrigada a ter um projeto de prevenção às drogas?
A Lei de Drogas coloca entre as diretrizes da prevenção a implantação de projetos pedagógicos nas escolas públicas e privadas e a formação continuada dos professores. O Programa Saúde na Escola, nas escolas que participam dele, também prevê ações de prevenção ao álcool e às drogas. A família pode perguntar à direção como isso está sendo feito.
Como a família pode propor um projeto de prevenção se a escola não tem nenhum?
Leve o assunto ao conselho escolar ou à reunião de pais, de forma propositiva e sem apontar culpados. Sugira começar pequeno, por uma política clara sobre álcool e cigarro em eventos da escola e por um encontro com as famílias. Vale também pedir apoio à equipe de saúde da família ou ao CAPS da cidade.
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