Bullying e drogas na adolescência: a ligação que a escola e a família podem quebrar

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026

Bullying e drogas andam juntos com mais frequência do que as famílias imaginam: o adolescente humilhado de forma repetida, e também o que humilha, tem mais risco de usar álcool e outras drogas. A boa notícia é que essa ligação pode ser quebrada quando a escola cumpre a lei e a família percebe cedo os sinais e conversa sem acusar.

Muitas mães nos contam que descobriram as duas coisas na mesma semana: o apelido cruel no grupo da turma e a garrafa escondida no quarto. Se é o seu caso, você não precisa decidir tudo hoje nem sozinha.

O que conta como bullying, segundo a lei?

Nem toda briga entre colegas é bullying. A Lei nº 13.185/2015 define a intimidação sistemática como violência física ou psicológica intencional e repetitiva, feita por uma pessoa ou por um grupo, com o objetivo de intimidar ou agredir e causando dor e angústia à vítima. O que pesa é a repetição e o desequilíbrio: um lado sempre ataca, o outro sempre sofre.

A lei lista formas que vão muito além do empurrão no recreio: apelidos pejorativos, ameaças, boatos, isolamento de propósito, piadas que expõem, assédio sexual e destruição de objetos. E trata à parte o cyberbullying, quando a internet é usada para depreciar, incitar violência ou adulterar fotos e dados para constranger. Para o adolescente, o grupo da turma no celular vai junto para casa, o que deixa a perseguição sem pausa.

Por que o bullying aumenta o risco de álcool e drogas?

Uma revisão sistemática com meta-análise publicada no World Journal of Psychiatry reuniu estudos de vários países sobre as consequências de sofrer bullying na infância e na adolescência. A ligação mais forte foi com depressão e ansiedade, mas os autores também encontraram associação com o uso de cigarro e de drogas ilícitas. Em linguagem simples: o bullying não “empurra” ninguém para a droga sozinho, mas deixa o terreno mais frágil.

O mesmo aparece no mundo digital. Um estudo que acompanhou ao longo do tempo um grande grupo de pré-adolescentes nos Estados Unidos, publicado na Lancet Regional Health — Americas, observou que quem sofria cyberbullying tinha mais chance de experimentar álcool, nicotina e maconha depois.

Na prática, a substância costuma cumprir uma função para o adolescente:

  • anestesiar a vergonha, a raiva e a tristeza que ele não consegue explicar em casa;
  • comprar um lugar num grupo que finalmente o aceita, mesmo que seja o grupo que usa;
  • ganhar coragem para ir à escola ou enfrentar quem o persegue;
  • dormir depois de uma noite inteira lendo mensagens humilhantes.

Entender essa função ajuda a família a não ficar só na proibição. Para aprofundar o lado do grupo, leia sobre pressão dos amigos e drogas na adolescência.

E quando o seu filho é quem pratica o bullying?

É a notícia mais difícil de ouvir, e muitos pais reagem negando. Mas o adolescente que intimida os outros também precisa de atenção: a agressividade com colegas muitas vezes convive com uso de álcool, problemas em casa ou um sofrimento que ele esconde atrás da pose.

A própria Lei nº 13.185/2015, no art. 4º, prevê assistência psicológica, social e jurídica às vítimas e aos agressores e pede que se evite, tanto quanto possível, só punir, preferindo caminhos que levem à responsabilização e à mudança de comportamento. Desde a Lei nº 14.811/2024, o bullying também está no Código Penal (art. 146-A), com pena maior quando é feito pela internet. Se o autor tem menos de 18 anos, o Estatuto da Criança e do Adolescente trata a conduta como ato infracional, com medidas próprias para a idade. Ou seja: é sério, e justamente por isso vale agir antes que chegue a esse ponto.

Quais sinais pedem atenção dos pais?

Um sinal isolado não prova nada. O que chama a atenção é a combinação e a mudança em relação ao jeito de sempre do seu filho.

Pode indicar bullyingPode indicar uso de álcool ou drogas
Não quer ir à escola, dor de barriga toda manhãCheiro de bebida ou de cigarro, olhos vermelhos com frequência
Volta com material estragado ou some com objetosDinheiro sumindo de casa, pedidos de dinheiro sem explicação
Fica tenso ao receber mensagem no celularAmigos novos que ele não quer apresentar
Isolamento, para de falar de colegasMudança brusca de sono, apetite e humor
Queda nas notas sem motivo claroMentiras repetidas sobre onde esteve

Quando as duas colunas aparecem ao mesmo tempo, não espere “passar”. O guia sobre sinais de dependência química ajuda a entender quando o uso já virou um problema maior.

Se o adolescente fala em morrer, em sumir, se machuca ou diz que “não aguenta mais”, não deixe para depois. Fique perto, ligue para o CVV (188, gratuito, 24 horas) e, em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).

O que fazer agora: passo a passo para a família

  1. Escolha a hora certa. Converse quando ele estiver sóbrio e calmo, sem plateia. Um passeio de carro ou a cozinha à noite costumam funcionar melhor que o “precisamos conversar” na sala.
  2. Comece pela dor, não pela droga. “Percebi que você anda triste com a escola. Aconteceu alguma coisa?” abre mais portas do que “você está bebendo?”. Veja outras ideias em como conversar com o filho sobre drogas.
  3. Acredite e agradeça. Se ele contar o bullying, diga que fez bem em contar e que a culpa não é dele. Evite “é só ignorar” ou “revida”.
  4. Guarde as provas. Faça capturas de tela das mensagens, com data, e anote episódios, nomes e testemunhas.
  5. Leve à escola por escrito. Peça reunião com a coordenação, cite o dever previsto no art. 5º da Lei nº 13.185/2015 e combine prazos e responsáveis. Cobre o retorno.
  6. Fale do uso com calma, num segundo momento. Explique o que você viu, sem rotular, e deixe claro o que muda em casa a partir de agora.
  7. Busque apoio para o adolescente. O posto de saúde e o CAPS, que inclui unidades voltadas a crianças e adolescentes (CAPSi), atendem pelo SUS. Em Salvador, Camaçari e no interior da Bahia, o Conselho Tutelar também pode ser acionado quando a escola não age.

Como a escola pode quebrar essa ligação?

A escola que leva o bullying a sério já está fazendo prevenção às drogas. O art. 4º da Lei nº 13.185/2015 pede capacitação de professores, campanhas de conscientização e orientação aos pais diante de vítimas e agressores. Na prática, isso significa ter um canal seguro para o aluno denunciar, agir rápido nos grupos da turma e não expor quem denunciou.

Vale também tratar os dois temas juntos, como parte da mesma conversa sobre convivência, autoestima e pertencimento. Ideias de ações estão em prevenção às drogas na escola. E a família que se sente esgotada com tudo isso também merece cuidado: veja o que é codependência, quando a família adoece junto.

Quando procurar ajuda profissional?

Procure ajuda especializada, sem esperar, quando:

  • o uso de álcool ou drogas ficou frequente, mesmo em dias de aula;
  • o adolescente parou de ir à escola ou se isolou por semanas;
  • há sinais de depressão, falas de morte ou automutilação;
  • surgiram agressividade em casa, furtos ou envolvimento com quem vende droga;
  • a família já tentou conversar e não consegue mais lidar sozinha.

Como podemos ajudar

O Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, orienta famílias que estão vivendo esse momento, com sigilo. Antes de qualquer decisão, pergunte se o serviço atende o perfil do seu filho; quando não for o caso, ajudamos a encontrar o caminho na rede. Conheça o nosso espaço para as famílias. Recebemos famílias de Salvador e de toda a Bahia.

Em resumo

  • Sofrer ou praticar bullying aumenta o risco de álcool e drogas na adolescência.
  • A droga costuma ser uma forma de aliviar dor, vergonha ou solidão, por isso só proibir não basta.
  • A Lei nº 13.185/2015 obriga a escola a prevenir e combater o bullying, e o cyberbullying hoje é crime.
  • Comece a conversa pela dor do seu filho, guarde provas e leve o caso à escola por escrito.
  • Falas de morte ou automutilação: CVV 188 e, em risco imediato, 192.

Perguntas frequentes

Bullying faz o adolescente começar a usar drogas?

Não existe uma causa única. As pesquisas mostram que quem sofre bullying tem mais chance de experimentar cigarro, álcool e outras drogas, em parte porque a substância vira uma forma de aliviar a dor, a vergonha e a solidão. Cuidar do bullying cedo reduz esse risco.

Meu filho é quem pratica o bullying. Ele também corre risco?

Sim. A agressividade com os colegas muitas vezes convive com uso de álcool, problemas em casa ou um sofrimento escondido. Por isso a Lei nº 13.185/2015 prevê assistência psicológica e social também para o autor, e não só punição. Punir sem entender o que está por trás costuma resolver pouco.

A escola é obrigada a agir quando há bullying?

Sim. O art. 5º da Lei nº 13.185/2015 diz que é dever da escola assegurar medidas de conscientização, prevenção, diagnóstico e combate à intimidação sistemática. Peça uma reunião por escrito, registre o que foi combinado e cobre retorno.

Cyberbullying é crime?

Desde a Lei nº 14.811/2024, o Código Penal tem o art. 146-A. A intimidação sistemática pela internet, redes sociais, aplicativos ou jogos on-line tem pena de reclusão de 2 a 4 anos e multa. Quando quem pratica é adolescente, o caso é tratado como ato infracional, pelas regras do Estatuto da Criança e do Adolescente.

Devo mudar meu filho de escola?

Pode ser necessário quando a escola não age ou o ambiente continua inseguro, mas a mudança sozinha não resolve a dor que ficou. Antes, tente as medidas com a escola e garanta acompanhamento psicológico. Se mudar, conte com essa rede de apoio também na escola nova.

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