Quais são as drogas mais usadas no Brasil, segundo o levantamento da Fiocruz
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026
As drogas mais usadas no Brasil são o álcool e o tabaco, bem à frente das ilícitas. Pelo III Levantamento Nacional da Fiocruz, 30,1% das pessoas de 12 a 65 anos tinham bebido no último mês e 13,6% tinham fumado cigarro. Entre as ilícitas, a maconha lidera, seguida da cocaína. O uso de remédio controlado sem receita também aparece com peso.
O que é o levantamento da Fiocruz e por que ele é a referência
O III Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira foi encomendado pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e coordenado pela Fiocruz, com participação do IBGE e do INCA. Foram cerca de 17 mil entrevistas em 351 municípios, com pessoas de 12 a 65 anos, inclusive da zona rural.
Ele virou a referência por um motivo simples: foi o primeiro com amostra de fato nacional. As pesquisas anteriores olhavam só para cidades grandes. O sumário executivo publicado pela Fiocruz explica o método e traz os principais números, que usamos aqui sem arredondar para mais nem para menos.
Como ler “uso na vida”, “no ano” e “no mês”
Antes do ranking, vale entender a régua. A pesquisa pergunta sobre três períodos, e cada um conta uma história diferente:
- Uso na vida: a pessoa usou pelo menos uma vez, mesmo que há 20 anos. Mostra experimentação.
- Uso nos últimos 12 meses: mostra quem usou recentemente.
- Uso nos últimos 30 dias: é o retrato mais próximo de um uso atual.
Nenhum desses três é sinônimo de dependência. Alguém que bebeu uma taça no casamento do primo entra no “mês” tanto quanto quem bebe todo dia. A dependência foi medida à parte, com critérios clínicos. Para entender essa diferença, veja o nosso texto sobre por que a dependência química é uma doença.
Quais são as drogas mais usadas no Brasil, em números
A tabela junta os indicadores que o sumário executivo da Fiocruz apresenta para cada substância, sempre para a população de 12 a 65 anos.
| Substância | O que a pesquisa encontrou |
|---|---|
| Álcool | 66,4% beberam alguma vez na vida; 30,1% no último mês (cerca de 46 milhões de pessoas) |
| Tabaco (cigarro industrializado) | 33,5% fumaram alguma vez; 13,6% no último mês (20,8 milhões de pessoas) |
| Maconha | 7,7% na vida; 2,5% no último ano (3,8 milhões de pessoas) |
| Cocaína em pó | 3,1% na vida; 0,9% no último ano (cerca de 1,3 milhão) |
| Remédios controlados sem receita ou fora da receita | 3,0% no último ano |
| Solventes | 2,8% na vida; 0,2% no último ano |
| Crack e similares | 0,9% na vida (cerca de 1,4 milhão); 0,3% no último ano |
| Ecstasy | 0,7% na vida; 0,2% no último ano |
| Heroína | 0,3% na vida; 0,1% no último ano |
Somando as ilícitas, 3,2% dos brasileiros usaram alguma no ano anterior à pesquisa, o equivalente a 4,9 milhões de pessoas. Entre jovens de 18 a 24 anos, esse número sobe para 7,4%.
O álcool e o cigarro, as drogas que ninguém estranha
O dado que mais chama atenção não é o da droga proibida. É o da bebida. Cerca de 2,3 milhões de pessoas tinham critérios de dependência de álcool no ano anterior à pesquisa. Entre os homens que bebiam, a proporção foi mais que o dobro da observada entre as mulheres.
O consumo no último mês foi maior entre adultos de 25 a 34 anos (38,2%). E 8,8% dos adolescentes de 12 a 17 anos disseram ter bebido no mês, mesmo sendo proibido vender para eles. Se a dúvida em casa é sobre a frequência, leia o que explicamos sobre beber todo dia.
No caso do cigarro, os 20,8 milhões de pessoas que fumaram no último mês mostram que o tabaco continua no topo. Quem quer parar tem caminho no SUS: o tratamento do tabagismo oferecido pela rede pública é gratuito e pode ser procurado na unidade de saúde do bairro.
Maconha, cocaína e o remédio da gaveta
A maconha é a ilícita mais citada, com uso na vida três vezes maior entre homens (11,9%) do que entre mulheres (3,7%). A cocaína em pó vem em segundo. Se a sua pergunta é se a maconha leva à dependência, temos um texto só sobre isso: maconha vicia?.
O ponto menos comentado é o do remédio controlado. Os mais usados sem receita, ao longo da vida, foram os calmantes benzodiazepínicos (3,9%), os analgésicos opiáceos (2,9%) e os anfetamínicos (1,4%). Aqui o padrão se inverte: o uso de calmantes sem prescrição no último ano foi mais comum entre mulheres (1,9%) do que entre homens (0,8%).
Muitas famílias nos contam que “não tem droga em casa”, mas tem a caixinha de calmante da avó que some mais rápido do que deveria. Esse uso merece a mesma atenção, com uma cautela extra: não suspenda nem mude o remédio de ninguém por conta própria. Procure o médico que acompanha a pessoa ou a unidade de saúde.
O que o levantamento não mostra
Nenhuma pesquisa é perfeita, e conhecer os limites evita conclusões erradas:
- Os dados têm idade. As entrevistas foram de maio a outubro de 2015. O padrão de consumo pode ter mudado desde então.
- Só entrou quem tinha casa. A pesquisa foi domiciliar. Pessoas em situação de rua, em abrigos ou presas ficaram de fora, e a própria Fiocruz alerta que o uso de crack provavelmente está muito subestimado.
- A resposta depende de quem responde. Ninguém fez exame: a pessoa contou o que quis contar a um entrevistador. Uso de droga proibida tende a ser declarado a menos.
- A faixa é de 12 a 65 anos. Idosos acima disso não aparecem.
- Não há número da Bahia no sumário. A pesquisa permite recortes por região, detalhados no livro completo, mas o resumo divulgado traz só o total do país.
Pesquisas de outras instituições usam idades, perguntas e anos diferentes. Por isso, comparar um número de uma com o de outra, como se fosse a mesma régua, costuma dar errado.
O que a lei diz sobre essas substâncias
Álcool e cigarro são legais para adultos, mas não para crianças e adolescentes. O art. 81 do Estatuto da Criança e do Adolescente proíbe vender a eles bebidas alcoólicas e produtos que possam causar dependência. O art. 243 transforma em crime vender, fornecer ou servir esses produtos a menores, ainda que de graça. Isso vale para o bar e também para o adulto da família que oferece o copo.
Para as ilícitas, o art. 28 da Lei 11.343/2006 trata de quem é flagrado com droga para consumo próprio com medidas como advertência, prestação de serviços à comunidade e curso educativo, sem prisão. O caso da maconha teve mudanças no Supremo, que explicamos em porte de maconha: o que o STF decidiu. A distinção entre permitido e proibido está em drogas lícitas e ilícitas.
O que fazer se os números saíram da tela e entraram na sua casa
Estatística ajuda a entender o país. Para a sua família, o que importa é o que você está vendo. Um roteiro para começar hoje:
- Anote fatos, não rótulos. Em vez de “ele não tem jeito”, escreva o que viu: quantos dias bebeu na semana, se faltou ao trabalho, se o dinheiro sumiu.
- Olhe também para o que é legal. Álcool, cigarro e remédio sem receita estão no topo da lista. Não descarte a preocupação porque a substância é vendida na farmácia ou no mercado.
- Escolha a hora da conversa. Fale quando a pessoa estiver sóbria e calma, em particular, sem plateia.
- Procure a rede pública da sua cidade. Os CAPS AD, do Ministério da Saúde, atendem pessoas com problemas com álcool e outras drogas. Em Salvador, existe também o CETAD, ligado à UFBA.
- Cuide de você. Quem convive com o uso também adoece. Grupos de familiares e atendimento psicológico fazem diferença.
Quando procurar ajuda profissional sem esperar
Procure avaliação logo se a pessoa não consegue reduzir mesmo querendo, se o uso já trouxe prejuízo no trabalho, nos estudos ou na família, se ela mistura álcool com calmantes ou outras substâncias, ou se surgiu agressividade em casa.
Em risco imediato à vida, como desmaio, convulsão ou falta de ar, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU). Se alguém fala em tirar a própria vida, ligue também para o CVV, no 188 (24 horas, gratuito).
Como podemos ajudar
O Centro Terapêutico Amor em Cristo fica em Monte Gordo, Camaçari, e atende famílias de Salvador e de toda a região metropolitana. Temos enfermagem 24 horas, avaliação psiquiátrica presencial, plano terapêutico individual e a família participando do processo, sempre com sigilo. Veja como funciona o tratamento para dependência química.
Em resumo
- Álcool e tabaco são as drogas mais usadas no Brasil; entre as ilícitas, a maconha vem primeiro e a cocaína em segundo.
- Cerca de 2,3 milhões de pessoas tinham dependência de álcool, segundo a Fiocruz.
- O uso de remédio controlado sem receita atingiu 3,0% da população no ano, com calmantes mais comuns entre mulheres.
- Os dados são de 2015, só de quem tinha casa e sem recorte da Bahia no resumo; o crack está subestimado.
- Para a sua família, vale mais o que você observa em casa do que a posição da substância no ranking.
Perguntas frequentes
Qual é a droga ilícita mais consumida no Brasil?
Pelo III Levantamento Nacional da Fiocruz, é a maconha: 7,7% das pessoas de 12 a 65 anos disseram ter usado alguma vez na vida e 2,5% no ano anterior à pesquisa. A cocaína em pó aparece em segundo lugar entre as ilícitas.
De quando são os dados oficiais sobre uso de drogas no Brasil?
As entrevistas do III Levantamento Nacional foram feitas de maio a outubro de 2015, e o relatório foi divulgado depois. É o retrato nacional mais amplo feito pela Fiocruz, mas tem mais de dez anos. Use os números como ordem de grandeza, não como fotografia de hoje.
O levantamento da Fiocruz traz números só da Bahia?
O desenho da pesquisa permite estimativas por região, como o Nordeste, e o livro completo detalha esses recortes. O sumário executivo, porém, apresenta apenas o total do Brasil, e não há um número próprio para a Bahia ou para Salvador nesse documento.
Por que o crack aparece tão baixo no ranking?
Porque a pesquisa entrevistou pessoas em domicílios. Quem vive na rua, em abrigos ou no sistema prisional ficou de fora, e a própria Fiocruz avisa que, por isso, o uso de crack provavelmente está bem subestimado.
Usar calmante sem receita conta como uso de droga?
Para a pesquisa, sim: ela mediu o uso de remédios controlados sem prescrição ou de forma diferente da receitada. Se alguém da família faz isso, não pare nem mude o remédio por conta própria; procure avaliação médica para planejar qualquer mudança com segurança.
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