Filho usuário de crack: como proteger a casa sem abandonar

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 18/10/2026

Ter um filho usuário de crack é viver entre o medo de perder a casa e o medo de perder o filho. Dá para proteger os dois: guardar dinheiro, documentos e objetos de valor, combinar regras claras, ter um plano para crises e manter o vínculo vivo, sem financiar o uso, enquanto se busca avaliação e tratamento.

O que o crack muda dentro de casa?

O crack é uma forma de cocaína. Segundo o NIDA, o instituto dos EUA que estuda drogas, quando a droga é fumada o efeito chega muito rápido e passa também rápido, o que empurra a pessoa a repetir o uso em sequência. Na vida da família, isso costuma aparecer como um ciclo: dias de uso intenso, sumiços, dinheiro e objetos desaparecendo, depois dias dormindo, com fome, irritado ou arrependido.

Entender esse ciclo ajuda a não levar tudo para o lado pessoal. A mentira, o pedido insistente de dinheiro e a promessa quebrada fazem parte da doença, e não significam que seu filho deixou de gostar de você. Isso não quer dizer aceitar tudo: quer dizer agir com método, e não só com raiva ou culpa. Se você ainda está na dúvida sobre o que está acontecendo, veja os sinais de uso de cocaína, que também valem para o crack.

Proteger a casa é abandonar o filho?

Não. Essa é a dúvida que mais chega à nossa equipe, quase sempre com estas palavras: “se eu esconder as coisas e não der dinheiro, ele vai achar que eu desisti dele”. Proteger e abandonar são coisas diferentes:

ProtegerAbandonar
Guardar o que pode virar droga e manter o carinhoCortar contato e não querer saber
Dizer “dinheiro, não; comida e tratamento, sim”Dizer “se vira” e fechar a porta
Ter regras claras e cumprir sem humilharMudar de regra a cada crise, com gritos
Cuidar de quem mora na casa, inclusive de vocêDeixar irmãos e avós expostos ao risco

Você pode amar seu filho e, ao mesmo tempo, recusar-se a sustentar a doença dele. Os detalhes de como fazer isso sem virar guerra estão em como colocar limites para um dependente químico.

O que fazer agora para proteger a casa

Um passo a passo que pode começar hoje:

  1. Tire de circulação o que vira dinheiro. Cartões, senhas, documentos, joias, celulares velhos, ferramentas e eletrônicos pequenos ficam guardados em lugar trancado ou na casa de um parente de confiança.
  2. Guarde também os remédios da casa, principalmente calmantes e remédios para dormir, e as chaves do carro e da moto.
  3. Separe a ajuda do dinheiro vivo. Se ele precisa comer, ofereça o prato; se precisa de passagem para uma consulta, compre a passagem ou leve você mesmo.
  4. Combine três ou quatro regras simples e diga cada uma num momento calmo, quando ele não estiver sob efeito: por exemplo, nada de droga dentro de casa, ninguém de fora entra sem avisar, e sempre haverá um prato de comida e uma conversa sobre tratamento.
  5. Monte um plano para a crise. Quem liga para quem, qual cômodo tem chave, onde ficam os irmãos menores e os avós, e para onde ir se a situação ficar perigosa.
  6. Mantenha um canal aberto. Uma mensagem curta por dia, sem sermão (“estou aqui, te amo, quando quiser ajuda eu vou junto”), vale mais do que uma discussão longa.
  7. Busque apoio para você. Grupos como o Nar-Anon reúnem familiares que passam pelo mesmo, e o acompanhamento da família faz parte do tratamento.

E quando há ameaça, dívida ou violência?

Algumas famílias contam que o filho chegou dizendo que deve dinheiro e que alguém vai cobrar. Pagar no impulso costuma alimentar o ciclo, e a ameaça que envolve terceiros é assunto para a polícia, não para negociação dentro de casa. Se ele quebra coisas, empurra ou ameaça alguém da família, a segurança vem primeiro: saia do ambiente, leve junto quem estiver vulnerável e peça ajuda. Explicamos as medidas protetivas e o plano de segurança em dependente químico agressivo em casa.

Uma coisa que a família não deve fazer, por mais desesperada que esteja, é trancar o filho em casa ou amarrá-lo para impedir que saia. Além do risco físico, privar alguém da liberdade pode ser crime de cárcere privado, e o art. 148 do Código Penal prevê pena maior quando a vítima é descendente de quem pratica o ato. O caminho legal para quem não aceita ajuda é outro, e está logo abaixo.

O que a lei permite quando ele não aceita tratamento?

Quando o filho é maior de idade, recusa ajuda e está em risco, a família pode pedir a internação involuntária. A Lei nº 10.216/2001 define essa internação como a que acontece sem o consentimento da pessoa e a pedido de terceiro (art. 6º), exige laudo médico que explique os motivos (art. 6º) e autorização de médico com registro no CRM do estado (art. 8º), e manda comunicar o Ministério Público em até 72 horas (art. 8º, § 1º).

A Lei de Drogas, no art. 23-A, incluído pela Lei nº 13.840/2019, acrescenta que o pedido pode ser feito por familiar ou responsável legal, que a internação só é indicada quando outras alternativas da rede de saúde não forem possíveis, e que ela dura apenas o tempo necessário à desintoxicação, com prazo máximo de 90 dias (§ 5º). Ou seja: não é castigo nem depósito, é uma etapa médica com regras.

Antes de chegar a esse ponto, vale conhecer a rede pública. Os CAPS AD, do SUS, atendem pessoas em sofrimento ligado ao uso de álcool, crack e outras drogas, e são um bom primeiro passo quando ele aceita conversar. Em Salvador e na região metropolitana, a unidade de referência depende do bairro onde vocês moram.

Quando é emergência

Procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU) se o seu filho:

  • tiver dor ou aperto no peito, falta de ar, desmaio ou convulsão;
  • estiver muito agitado, confuso, vendo ou ouvindo coisas que não existem, ou achando que alguém quer matá-lo;
  • tiver febre alta e muito suor depois de dias de uso;
  • ameaçar alguém com faca ou outra arma: nesse caso, afaste-se e ligue também para a polícia.
Se ele falar em não querer mais viver, leve a sério. O CVV atende 24 horas pelo 188, de graça, e também por chat no site do CVV. Em risco imediato, ligue 192 (SAMU).

Fora da emergência, a recaída e os sumiços não significam que nada adianta. O NIDA lembra que a dependência é tratável e que voltar a usar é sinal para retomar ou ajustar o tratamento, não para desistir dele.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, recebemos famílias que vivem com o crack dentro de casa. Há avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas, plano terapêutico individual e a família participando, sempre com sigilo. Na internação involuntária, orientamos a família sobre a chegada e os passos que a lei exige. Conheça a internação involuntária e o atendimento a famílias de Camaçari e de toda a Bahia.

Em resumo

  • Proteger a casa não é abandonar: é guardar o que vira droga e manter o vínculo.
  • Ajude com comida, passagem e tratamento, nunca com dinheiro vivo.
  • Combine poucas regras, em momento calmo, e tenha um plano para a crise.
  • Trancar o filho em casa é perigoso e pode ser crime; o caminho legal é a avaliação médica e, se indicada, a internação involuntária.
  • Dor no peito, convulsão, confusão intensa ou fala sobre morrer: 192 e CVV 188.

Perguntas frequentes

Posso trancar meu filho em casa para ele não sair para usar crack?

Não. Manter alguém preso contra a vontade, mesmo um filho adulto e com boa intenção, pode configurar cárcere privado (art. 148 do Código Penal), e a situação ainda costuma terminar em briga e risco para todos. Quando ele não aceita ajuda e está em risco, o caminho legal é a avaliação médica e, se indicada, a internação involuntária.

Meu filho sumiu há dias usando crack. O que eu faço?

Tente contato por mensagem curta, sem cobrança, dizendo que quer saber se ele está bem. Avise pessoas próximas e, se houver sinal de perigo à vida ou nenhuma notícia, procure a delegacia para registrar o desaparecimento. Quando ele voltar, acolha primeiro e deixe a conversa sobre tratamento para quando ele estiver sóbrio e descansado.

Devo trocar a fechadura e tirar a chave do meu filho?

Depende do que está acontecendo. Se há furtos repetidos, gente estranha entrando ou ameaças, trocar a fechadura pode ser uma medida de proteção, desde que dita com calma e junto com uma porta aberta para o tratamento. O ideal é combinar a regra antes, e não no meio de uma crise.

Por quanto tempo pode durar uma internação involuntária por crack?

Pela Lei de Drogas, a internação involuntária dura apenas o tempo necessário à desintoxicação, com prazo máximo de 90 dias, e o término é decidido pelo médico responsável. A família pode pedir ao médico a interrupção a qualquer momento. Depois disso, o tratamento continua em outras etapas.

Ele jura que vai largar o crack sozinho. Dá para confiar?

A promessa costuma ser sincera na hora, mas a dependência mexe com o controle sobre o uso, e muitas pessoas não conseguem parar só com força de vontade. Uma boa resposta é acolher a intenção e propor um passo concreto junto, como uma consulta no CAPS AD ou uma avaliação, já marcada.

Mais sobre cocaína e crack

Ver todos os artigos sobre cocaína e crack

Preencha a ficha de acolhimento online