Como fazer meu filho parar de usar crack: o que funciona
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 20/10/2026
Como fazer meu filho parar de usar crack? A resposta honesta é: você não consegue fazer ele parar, mas consegue fazer ele chegar ao tratamento. O que funciona é tirar o combustível de casa, manter a porta aberta e usar a lei quando ele recusa e corre risco. O que não funciona é gritar, trancar e esperar a vontade dele aparecer sozinha.
Você está lendo isso provavelmente depois de mais uma noite em claro, olhando para a porta.
Por que ele não para de usar crack mesmo prometendo?
Porque a promessa é dele, mas a fissura é da droga. O crack é a cocaína em pedra, que a pessoa fuma. O efeito bate forte e passa em poucos minutos, e é por isso que ele usa uma pedra atrás da outra, até acabar o dinheiro. O instituto americano que estuda as drogas, o NIDA, explica que o uso repetido muda o circuito de recompensa do cérebro: a droga passa a valer mais do que comida, sono e família.
Na prática, isso é o que você vê em casa. Ele chora, pede perdão, jura que acabou. No dia seguinte some de novo. Não é que ele mente para você de propósito. É que a parte do cérebro que faz promessa não é a mesma que decide na hora da fissura. Entender isso não é passar a mão na cabeça. É parar de gastar energia com a pergunta errada (“por que ele não para?”) e começar a gastar com a certa: o que faz ele aceitar ajuda.
Se você ainda está no começo e não tem certeza do que ele usa, o artigo sobre cocaína: efeitos, sinais e tratamento ajuda a reconhecer.
O que não adianta para fazer meu filho parar de usar crack
Vale listar primeiro o que não funciona, porque é o que a família tenta primeiro, com todo o amor do mundo:
- Sermão e briga. Ele já sabe tudo o que você vai dizer. A briga só dá a ele um motivo para sair de casa e usar.
- Trancar em casa. Além de não funcionar, prender alguém contra a vontade, mesmo filho adulto, pode ser o crime de cárcere privado do art. 148 do Código Penal. E a mãe que acorrenta o filho vira notícia, não vira solução.
- Pagar a dívida com o traficante. Compra uma semana de paz e uma dívida maior. Veja o que fazer na dívida com traficante.
- Dar “só o dinheiro da passagem”. Vira pedra. Toda vez.
- Esperar ele cair. Com crack, o fundo do poço pode ser uma parada cardíaca ou a rua. Não dá para esperar.
- Remédio escondido. Perigoso e pode ser crime. Nunca.
- Comparar com o primo que parou. Cada pessoa tem o seu tempo, e a comparação só gera vergonha.
O que funciona de verdade
Existe um jeito de a família agir que tem estudo por trás. Nos Estados Unidos, pesquisadores testaram ensinar familiares a mudar o próprio comportamento em casa, em vez de tentar mudar o usuário à força. Em um estudo com famílias de pessoas que recusavam tratamento, as famílias treinadas desse jeito conseguiram levar mais gente para o tratamento do que as famílias que receberam só orientação tradicional. Essa abordagem tem nome, CRAFT, e nós explicamos ela por inteiro em método CRAFT para a família.
Em voz de casa, funciona assim:
- Tire o combustível. Dinheiro, cartão, documentos, celular velho, botijão, ventilador. Tudo que vira pedra fica trancado ou fora de casa. Não é castigo, é proteção. O artigo sobre filho usuário de crack e como proteger a casa tem o passo a passo.
- Recompense o dia limpo, não a promessa. Ele acordou em casa, tomou banho, almoçou com você? Esse é o dia de fazer o prato que ele gosta e conversar com calma. Ele chegou de madrugada depois de usar? Esse é o dia de não ter conversa, não ter dinheiro e não ter drama. Ele vai aprender que a casa boa está do lado da sobriedade.
- Fale no momento certo. Nunca na fissura, nunca chapado, nunca de ressaca brava. Fale de manhã, depois do café, quando ele está mais parecido com o seu filho. Frase curta: “Eu te amo. Eu marquei uma avaliação para quinta. Eu vou junto.”
- Tenha a vaga antes da conversa. O “sim” dele dura horas, às vezes minutos. Se você diz “vou procurar um lugar” e demora três dias, o sim morreu. Procure antes: CAPS AD da sua cidade, médico, centro terapêutico. Com o endereço na mão, o sim vira carro saindo.
- Pare de limpar o rastro. Não ligue para o patrão inventando desculpa, não pague a conta que ele deixou no bar, não conserte o que ele quebrou. Ele precisa sentir o peso do uso para querer sair dele.
- Cuide de você. A família de quem usa crack adoece junto: não dorme, não come, grita com todo mundo. O Nar-Anon é um grupo gratuito para familiares; no site dá para achar a reunião mais perto de você.
O que a lei permite quando ele não quer tratamento?
Essa é a parte que o Diretor Jurídico do centro mais explica para as famílias. Existem dois caminhos, e os dois exigem médico.
A Lei nº 10.216/2001, no art. 6º, diz que a internação pode ser voluntária, quando a pessoa aceita; involuntária, quando é pedida por outra pessoa, sem o consentimento dela; ou compulsória, quando é ordem de juiz. Em todas elas, só acontece com laudo de médico. E no caso da involuntária, o serviço tem de comunicar o Ministério Público em até 72 horas (art. 8º, § 1º).
A Lei nº 11.343/2006 ganhou o art. 23-A em 2019 e passou a tratar da internação por drogas em separado. Ela diz que a internação involuntária pode ser pedida por escrito por um familiar ou responsável, só é feita depois que um médico avalia e atesta que é preciso, e tem prazo máximo de 90 dias. A família pode pedir que ela termine a qualquer hora, por escrito.
Traduzindo: você pode pedir a internação do seu filho adulto mesmo contra a vontade dele. Quem decide se cabe é o médico que avalia, não você e não a clínica. É por isso que ninguém sério vai “buscar” o seu filho em casa sem avaliação. Se alguém oferecer isso, desconfie. Veja mais em internação involuntária é legal?.
Se o seu filho é menor de 18 anos, os pais respondem por ele, mas a avaliação médica continua obrigatória, e nem todo serviço atende adolescente. Pergunte antes se o serviço atende o perfil dele.
Por onde começar na Bahia?
Comece pelo que é de graça e perto de casa. O CAPS AD é o serviço do SUS para álcool e outras drogas, e atende sem precisar de encaminhamento. Cidades como Lauro de Freitas, Feira de Santana e Vitória da Conquista têm o seu; na sua cidade, pergunte no posto de saúde ou na secretaria de saúde onde fica o mais perto. A família pode ir sozinha, sem o filho, para ser orientada. Explicamos o funcionamento em CAPS AD: como funciona.
Para a avaliação médica, serve o próprio psiquiatra do CAPS, um psiquiatra particular ou a avaliação presencial de um centro terapêutico. É esse laudo que abre a porta da internação quando ele recusa.
E para o dia da crise, o ponto de partida é sempre o mesmo: UPA ou SAMU, não a clínica. Internação se decide com calma; emergência se resolve agora.
Quando é emergência e não dá para esperar?
Ligue 192 (SAMU) ou leve à UPA mais próxima se ele tiver: dor forte no peito, convulsão, desmaio, falta de ar, febre alta com agitação, ou se estiver vendo e ouvindo coisas que não existem e ameaçando alguém ou a si mesmo. Se ele falar em se matar, não deixe sozinho e ligue 188 (CVV, 24 horas, gratuito) ou 192.
O crack força o coração mesmo em gente jovem, e a paranoia (ele achar que estão atrás dele, sem ser verdade) pode fazer ele reagir com violência a quem está tentando ajudar. Nesses momentos, a sua segurança vem primeiro. Saia de perto, chame ajuda, e deixe a abordagem com quem é treinado.
Como podemos ajudar
No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, recebemos famílias que vivem o crack dentro de casa. Há avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas, plano terapêutico individual e a família acompanhando, com sigilo. Quando a família precisa pedir a internação involuntária, o Diretor Jurídico orienta a parte legal, e orientamos a chegada. Conheça o tratamento para dependência química e o atendimento a famílias de Salvador e de toda a Bahia.
Em resumo
- Você não faz ele parar; você faz ele chegar ao tratamento.
- Tire o combustível de casa e recompense o dia limpo, não a promessa.
- Fale de manhã, frase curta, com a vaga já na mão.
- Se ele recusa e corre risco, a lei permite a internação involuntária a pedido da família, sempre com avaliação médica.
- Dor no peito, convulsão, paranoia com violência ou fala de morte: 192 agora.
Perguntas frequentes
Meu filho jura que vai parar de usar crack sozinho, em casa. Isso funciona?
Quase nunca dura. A vontade dele é verdadeira, mas o crack mexe na parte do cérebro que decide, e a fissura vence a promessa. O que funciona é a promessa virar um compromisso com data: uma avaliação médica marcada, um CAPS AD ou uma internação. Você pode dizer “acredito em você, e por isso vou junto amanhã”.
Se eu cortar o dinheiro, ele para de usar crack?
Cortar o dinheiro não faz parar, mas tira o combustível. Sem o dinheiro da casa, o uso fica mais difícil e o tratamento fica mais atraente. Por isso cortar dinheiro só funciona quando vem junto com uma porta aberta: “dinheiro não, mas consulta, comida e carona para o tratamento, sim”.
Dar remédio escondido na comida faz ele parar?
Não faça isso. Nenhum remédio tira o crack da pessoa sem ela saber, e dar medicamento escondido pode causar reação grave e ainda ser crime. Remédio só existe com receita e acompanhamento de um médico, dentro de um tratamento que ele conhece.
Levar ele para a casa da avó no interior ou para a igreja resolve?
Pode ajudar como parte do caminho, nunca como o caminho inteiro. Mudar de lugar afasta das pessoas e dos pontos de uso por um tempo, e a fé dá força para muita gente. Mas sem avaliação médica e sem acompanhamento, a fissura volta na primeira volta para casa.
Meu filho é maior de idade e não quer tratamento. Posso internar mesmo assim?
Pode pedir. A Lei nº 11.343/2006, no art. 23-A, permite a internação involuntária a pedido escrito de familiar, desde que um médico avalie e ateste que é preciso. Ela tem prazo máximo de 90 dias e é comunicada ao Ministério Público. Não é a família que decide sozinha: é a família que pede e o médico que confirma.