Marido bebe e eu não aguento mais: o que fazer agora
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 20/10/2026
Se o seu marido bebe e você não aguenta mais, a primeira pessoa a ser socorrida agora é você. Não é egoísmo: é o que torna possível qualquer outra decisão. Hoje mesmo dá para fazer três coisas: garantir a sua segurança, procurar um apoio gratuito só seu e parar de carregar a bebida dele como se fosse problema seu de resolver. Ficar ou sair vem depois, com a cabeça mais clara.
Quem digita essa frase no celular, de madrugada, não procura a definição de alcoolismo. Procura alguém que entenda.
Por que “não aguento mais” não é fraqueza
Muitas mulheres chegam até nós dizendo a mesma coisa: “eu aguentei dez, quinze anos, e agora não consigo mais nem olhar para ele”. E logo em seguida pedem desculpa por falar assim.
Não precisa. Um estudo brasileiro que mediu a sobrecarga de familiares que cuidam de pessoas com transtorno psíquico encontrou sobrecarga de verdade em quem cuida: cansaço, falta de descanso e vida pessoal deixada de lado. Pesquisadores de enfermagem da UFMG, ouvindo familiares de pessoas com dependência, descrevem o mesmo de outro ângulo: a família adoece junto, deixa de viver a própria vida para vigiar, esconder e consertar. É a codependência, explicada em codependência: quando a família adoece junto.
Em português de casa: você não está fraca. Você está há anos fazendo o trabalho de duas pessoas, mais o de enfermeira, mais o de vigia. “Não aguento mais” é o corpo avisando que chegou o limite.
Marido bebe e eu não aguento mais: por onde começar hoje
A tentação é começar por ele: esconder a garrafa, discutir, ameaçar. Você já tentou e não deu certo. Comece por você, nesta ordem.
- Veja se está segura. Ele já te empurrou, ameaçou, quebrou coisas, tomou o seu dinheiro, controlou com quem você fala? Se a resposta for sim a qualquer uma, pule para a parte da lei, mais abaixo. Segurança vem antes de qualquer conversa.
- Escolha uma pessoa para saber de tudo. Uma irmã, uma comadre, uma amiga da igreja. Não para resolver, mas para você não estar sozinha. Combine um sinal: uma mensagem curta que significa “vem me buscar”.
- Separe o que é seu. Documentos (RG, CPF, certidão de casamento, certidão das crianças, cartão do SUS), um pouco de dinheiro e as chaves num lugar que só você sabe. Não é plano de fuga: é não ficar na mão.
- Marque um apoio gratuito só para você ainda esta semana. Os caminhos estão no próximo tópico.
- Pare de limpar o rastro dele. Não ligue para o patrão dele inventando doença, não pague a conta do bar, não acorde ele para o trabalho. Quem sente as consequências é quem pode querer mudar. Veja como colocar limites sem abandonar.
- Dê a ele um caminho, uma vez, sem briga. Numa manhã em que ele não bebeu, diga o que você vê e o que você quer: “você vai a uma consulta esta semana, e eu vou junto”. Se ele aceitar, ótimo. Se não aceitar, você já fez a sua parte e volta a cuidar de você.
Uma pergunta que chega muito no WhatsApp: “e se ele prometer parar sozinho, de hoje para amanhã?”. Atenção. Quem bebe todo dia há muito tempo e corta de repente, sem médico, pode passar mal de verdade: tremor forte, confusão, convulsão. Parar é bom; parar sem avaliação médica é arriscado. O posto, o CAPS ou um pronto-socorro avaliam isso.
Onde encontrar apoio de graça na Bahia
Você não precisa pagar nada para começar a ser cuidada.
| Para quem | O que é | Como chegar |
|---|---|---|
| Esposas e familiares de quem bebe | Grupos de família do Al-Anon: reuniões gratuitas, ninguém pergunta o seu nome inteiro, ninguém julga | Procure a reunião mais perto de você no site do Al-Anon Brasil, que lista os grupos por cidade |
| Você, com uma psicóloga | Atendimento psicológico pelo SUS (posto e CAPS) e nas clínicas-escola de Psicologia, como a da UFRB no Recôncavo | Peça encaminhamento no posto ou vá ao CAPS da sua cidade; na clínica-escola, o pedido é feito na universidade |
| Ele, quando aceitar | CAPS AD (álcool e outras drogas) do SUS, sem custo, com médico, psicólogo e grupo | Vá ao CAPS AD da sua cidade e peça o acolhimento; a família também é atendida lá |
| Você, em situação de violência | Ligue 180, 24 horas, de graça, para orientação e encaminhamento | Do celular ou do fixo, de qualquer lugar do Brasil |
Para entender melhor cada uma dessas portas, veja grupos de apoio para familiares e psicólogo gratuito para a família do dependente.
O que a lei garante para você
Como advogado, vejo muitas esposas que acham que só podem pedir ajuda da Justiça “se ele bater”. Não é assim.
A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), no art. 7º, lista as formas de violência contra a mulher dentro de casa, e a agressão física é só uma delas. A lei inclui a violência psicológica (humilhação, ameaça, isolamento, vigilância, chantagem), a violência patrimonial (tirar o seu dinheiro, quebrar ou vender as suas coisas, sumir com documentos), a violência moral (xingar, caluniar) e a violência sexual. Marido que bebe e, depois de beber, xinga, ameaça, controla o salário ou quebra a casa está dentro dessa lista, mesmo sem nunca ter levantado a mão.
Quando isso acontece, o art. 22 permite ao juiz, de imediato, afastar ele de casa, proibir que se aproxime de você, dos seus familiares e das testemunhas, proibir contato por qualquer meio e fixar pensão provisória. O mesmo artigo prevê mandar o agressor a programa de recuperação e a acompanhamento psicossocial. Ou seja: a medida protetiva pode proteger você e, ao mesmo tempo, empurrar ele para o tratamento.
Pelo art. 23, o juiz também pode encaminhar você e os filhos a programa de proteção, garantir vaga escolar para as crianças perto de onde vocês forem morar e conceder auxílio-aluguel por até seis meses. E diz expressamente que, se for você quem sair de casa, isso não prejudica os seus direitos sobre bens, guarda dos filhos e alimentos. O art. 24 protege o patrimônio: devolução do que ele tirou de você, suspensão de procurações e proibição de vender ou alugar bens do casal sem autorização do juiz.
Em risco atual à sua vida ou integridade, o art. 12-C manda afastar o agressor de casa de imediato, pelo juiz ou, em cidade que não é sede de comarca, pelo próprio delegado ou policial. Isso importa no interior da Bahia, onde o fórum às vezes fica a uma hora de estrada.
Em perigo agora, ligue 190. Para orientação sobre violência contra a mulher, Ligue 180, 24 horas, gratuito. Se você sentir que não quer mais viver, o CVV atende pelo 188, de graça, a qualquer hora. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU). Veja também quando o dependente fica agressivo em casa.
E a internação? A Lei nº 10.216/2001 permite internar sem o consentimento da pessoa, a pedido de familiar, quando há indicação médica e os cuidados fora do hospital não bastam. Não é castigo nem solução para o casamento; é recurso para quando a vida dele está em risco. Veja os critérios em internação involuntária é legal?.
Ficar ou sair: como pensar sem culpa
Essa é a pergunta que ninguém responde por você. Mas dá para organizar o pensamento. Pegue um papel e responda, sozinha, com sinceridade:
- Eu e as crianças estamos seguras nesta casa? Se não, a resposta vem antes de qualquer outra: sair, com apoio da lei.
- Ele aceita alguma ajuda, por menor que seja? Uma consulta, uma reunião, uma conversa com o CAPS. Quem aceita um passo está em lugar diferente de quem recusa tudo há anos.
- O que eu já deixei de ser por causa disso? Trabalho, amigas, sono, saúde, fé. Faça a lista. Ela mostra o tamanho do que a bebida já levou.
- Se eu ficar, o que muda a partir de hoje? Ficar do mesmo jeito não é decisão; é cansaço. Ficar com limites, com apoio seu e com ele em tratamento é outra coisa.
- Se eu sair, para onde, com quem, com que dinheiro? Sair sem plano assusta mais do que precisa. A Defensoria Pública atende de graça quem não pode pagar advogado.
Não existe resposta errada entre ficar e sair. Existe decisão tomada no desespero e decisão tomada com apoio. Se a separação entrar no horizonte, a parte prática está em divórcio de cônjuge dependente químico. Se a dúvida for o que fazer com ele, e não com você, veja marido alcoólatra: o que fazer e o que evitar.
Quando a sua situação virou emergência
Procure ajuda sem esperar o fim de semana passar quando:
- houve ameaça de morte, arma em casa, agressão ou tentativa de impedir que você saia;
- você não dorme, não come direito ou chora todo dia há semanas;
- você pensou em sumir ou em “acabar com tudo”;
- ele bebe até apagar, teve convulsão, vomitou sangue ou falou em se matar;
- as crianças têm medo de ficar em casa ou presenciaram agressão.
A emergência sua conta tanto quanto a dele.
Como podemos ajudar
No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a esposa é ouvida desde o primeiro contato, com sigilo. O tratamento do acolhido tem avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas e plano terapêutico individual, e a família participa. O Diretor Jurídico orienta sobre medida protetiva, internação e documentos. Conheça o tratamento para alcoolismo e o espaço para famílias. Recebemos famílias de Camaçari, de Salvador e de toda a Bahia.
Em resumo
- “Não aguento mais” é aviso de sobrecarga, não defeito seu.
- Hoje: segurança, uma pessoa de confiança, documentos separados e um apoio gratuito só seu.
- Al-Anon, CAPS, clínica-escola e Ligue 180 não custam nada.
- A Lei Maria da Penha protege contra humilhação, ameaça e controle do dinheiro, não só contra agressão física, e pode afastar ele de casa.
- Ficar ou sair se decide com apoio, não no desespero.
Perguntas frequentes
Sinto raiva do meu marido e depois sinto culpa. Isso é normal?
É muito comum. Raiva, pena, vergonha e culpa se revezam em quem vive anos ao lado de alguém que bebe. Não quer dizer que você é má, nem que deixou de amar. Quer dizer que você está cansada. Falar disso num grupo de familiares ou com uma psicóloga tira um peso enorme.
Se eu sair de casa com as crianças, perco algum direito?
Sair para se proteger não é abandono. Quando há violência, a Lei Maria da Penha diz com todas as letras que o afastamento da mulher do lar não prejudica os direitos sobre bens, guarda dos filhos e pensão. Fora dessa situação, o melhor é conversar antes com a Defensoria Pública ou um advogado para sair organizada.
Posso pedir medida protetiva mesmo sem ele ter me batido?
Pode. A Lei Maria da Penha não protege só contra agressão física. Humilhação, ameaça, xingamento, controle do dinheiro, quebrar as suas coisas e perseguição também são formas de violência previstas na lei. Você pode registrar a ocorrência e pedir a medida na delegacia.
Ele promete parar toda vez e não para. O que eu respondo?
Responda com o que você vai fazer, e não com o que ele promete. Em vez de discutir a promessa, diga uma coisa concreta: “quero que você marque uma consulta esta semana; se precisar, eu vou junto”. Promessa feita de ressaca, sem ajuda, raramente se sustenta, e a culpa disso não é sua.
Tenho vergonha de contar para a minha família que ele bebe. Preciso contar?
Não precisa contar para todo mundo. Mas precisa de pelo menos uma pessoa de confiança que saiba o que está acontecendo, por segurança e para você não carregar tudo sozinha. Pode ser uma irmã, uma amiga, alguém da igreja ou o grupo de apoio, onde ninguém é julgado.
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