Meu pai bebe todo dia, o que eu faço: por onde começar

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 20/10/2026

Meu pai bebe todo dia, o que eu faço? Comece por três coisas que dependem só de você: cuide da sua segurança e da sua cabeça, fale com ele num momento em que esteja sóbrio, sem acusar, e procure quem entende do assunto, como o posto de saúde ou o CAPS AD (o serviço do SUS para álcool e outras drogas). Você não consegue fazer seu pai parar sozinho, mas pode mudar o que acontece a partir de hoje.

Por que meu pai não para de beber, mesmo vendo o que faz com a família?

Porque, a essa altura, não é mais uma escolha simples. Beber todo dia, por muito tempo, muda a forma como o cérebro funciona. A Organização Mundial da Saúde trata o uso nocivo de álcool como problema de saúde, ligado a dezenas de doenças e a acidentes, violência e morte precoce. Dependência não é falta de vergonha na cara. É uma doença que tem tratamento.

Isso importa para você por um motivo prático: se é doença, a resposta é médico, acompanhamento e rede de apoio. Não é sermão. E também não é culpa sua. Filho não causa o alcoolismo do pai, e não é o filho que vai “curar” o pai na base do amor ou da raiva.

Um jeito de entender o que acontece em casa: o seu pai sente o corpo pedindo bebida (o que os médicos chamam de abstinência) e bebe para aliviar. A família, por sua vez, vai se organizando em volta dessa rotina, escondendo, desculpando, pagando conta, e vai adoecendo junto (isso tem nome, codependência, e explicamos no artigo sobre a família que adoece junto com quem usa).

O que eu faço hoje, antes de qualquer conversa?

Antes de tentar mudar seu pai, proteja o seu dia.

  1. Se há agressão, saia da frente. Se ele fica violento quando bebe, o momento da bebedeira não é hora de discutir. Vá para outro cômodo, para a casa de um vizinho ou de um parente. Se bateu ou ameaçou, ligue 190.
  2. Não seja o fiscal da garrafa. Despejar bebida na pia, vasculhar bolso e cobrar a cada gole só cria mais briga e não tira a vontade dele de beber.
  3. Pare de cobrir os buracos. Ligar para o patrão dizendo que ele está gripado, pagar a conta do bar, mentir para a família. Cada vez que alguém segura as consequências, o problema fica mais fácil de esconder.
  4. Anote o que você vê. Quantas vezes por semana ele chegou alterado, quedas, faltas no trabalho, discussões. Isso ajuda na conversa com o médico e, se um dia for preciso, na parte legal.
  5. Fale com alguém. Um irmão, um tio, uma professora, o pastor ou padre, uma amiga. Guardar isso sozinho adoece.

Como falar com meu pai sobre a bebida sem virar briga?

A conversa mais rara nas casas em que o pai bebe é a conversa com ele sóbrio. Em geral só se fala quando ele já bebeu, e aí ninguém ouve nada.

Escolha uma manhã tranquila, de preferência em um dia em que ele esteja bem. Sem plateia: só você, ou você e sua mãe, ou você e um irmão. Vá direto ao que você sente e ao que você viu, com situações concretas, sem rótulo.

Um exemplo de como pode soar: “Pai, no sábado o senhor caiu no quintal e eu fiquei com medo. Eu te amo e não quero te ver assim. Vamos no posto comigo? Só pra o médico olhar.”

Repare no que esse jeito de falar tem:

  • fala de um fato, não de “você é um bêbado”;
  • fala do seu medo, não do erro dele;
  • faz um pedido pequeno e possível (ir ao médico), não exige que ele “pare para sempre” hoje.

Se ele disser não, não insista naquele dia. Deixe a porta aberta: “Tudo bem. Quando o senhor quiser, eu vou junto.” É comum o sim só vir depois de algumas conversas, não na primeira. Temos um roteiro mais completo em como convencer um dependente a se tratar.

Atenção: se seu pai bebe muito todo dia, não peça para ele parar de uma vez por conta própria. A parada brusca pode causar tremor forte, confusão, alucinação e convulsão. Parar de beber, nesses casos, é com médico. Se ele já está assim, ligue 192 (SAMU) ou leve-o à emergência.

O que a lei permite ao filho de um pai que bebe?

Como advogado, essa é uma pergunta que chega muito de filhos. A resposta muda conforme a sua idade e a situação do seu pai.

Se você é adulto. Você pode procurar atendimento para ele e pode pedir avaliação médica. Se o seu pai não aceita tratamento e já está colocando a própria vida ou a de outros em risco, a Lei nº 10.216/2001 prevê a internação involuntária, feita sem o consentimento do paciente a pedido de terceiro, mas sempre com laudo médico que justifique (art. 6º). Para dependência de álcool e outras drogas, a Lei nº 13.840/2019 incluiu na Lei de Drogas o art. 23-A, que permite ao familiar pedir a internação involuntária, com avaliação de médico e prazo de até 90 dias. Não é o filho que decide se o pai interna: é o médico. O filho tem o direito de pedir. Explicamos cada tipo em internação voluntária, involuntária e compulsória.

Se você é adolescente. O Estatuto da Criança e do Adolescente diz que você tem direito a ser criado em um ambiente que garanta o seu desenvolvimento (art. 19) e que a sua proteção vem em primeiro lugar (arts. 3º e 4º). Isso não significa que alguém vai “tirar você de casa” porque seu pai bebe. Significa que você pode pedir ajuda: na escola, no posto de saúde, no CRAS ou no Conselho Tutelar, sem precisar da autorização dele. O Conselho Tutelar existe para proteger você, não para punir sua família.

Se há violência contra a sua mãe. A Lei Maria da Penha permite medidas protetivas de urgência (ordens do juiz para proteger a mulher na hora), como o afastamento do agressor da casa (art. 22, II). O boletim de ocorrência pode ser feito em qualquer delegacia, e a Defensoria Pública atende de graça quem não pode pagar advogado.

Se seu pai já tem 60 anos ou mais. O Estatuto da Pessoa Idosa diz que família, sociedade e poder público têm o dever de garantir a saúde e a dignidade dele (art. 3º). Alcoolismo em idoso tem particularidades próprias, que tratamos em alcoolismo em idosos.

Onde buscar ajuda de graça na Bahia?

Nem toda família tem dinheiro para clínica, e isso não pode ser motivo para não fazer nada.

  • CAPS AD. É o serviço do SUS para quem tem problema com álcool e outras drogas. Não precisa de encaminhamento: vai lá e pede acolhimento. O Ministério da Saúde explica como funciona, e nós detalhamos em CAPS AD: como funciona. As cidades maiores da Bahia têm unidade; nas pequenas, o posto de saúde diz para onde ir.
  • Posto de saúde (UBS). Serve para o primeiro passo: avaliação, exames e encaminhamento. Muitas vezes o pai aceita ir “ver a pressão” e o médico aproveita para falar da bebida.
  • Al-Anon e Alateen. São grupos gratuitos para quem convive com alguém que bebe. O Al-Anon é para adultos; o Alateen, para adolescentes. Você vai mesmo que seu pai nunca vá a lugar nenhum. Veja como funciona o Alateen.
  • CRAS. É o centro da assistência social do bairro. Ajuda a família com cadastro, benefícios e encaminhamento. Se você é adolescente, é um dos lugares onde pode pedir ajuda. Outros caminhos para quem tem pai ou mãe que bebe estão em filhos de pais com dependência e pai alcoólatra: o que fazer.
  • Defensoria Pública. Para a parte legal, quando a família não tem como pagar advogado.

Quando é emergência e eu preciso agir agora?

Existe diferença entre “meu pai bebe todo dia” e “meu pai está em perigo hoje”. Chame socorro, pelo 192, quando:

  • ele desmaiou e não acorda, ou está respirando de um jeito estranho;
  • vomitou e está desacordado;
  • tremor forte, suor, confusão, está vendo ou ouvindo coisas depois de ficar sem beber;
  • caiu, bateu a cabeça ou se machucou e está alterado;
  • falou em se matar ou tentou. Nesse caso, fique com ele, tire de perto o que possa machucar e ligue 192. Se você mesmo estiver sem esperança, o CVV atende de graça pelo 188, 24 horas.

Se há agressão em andamento, 190.

Como podemos ajudar

O Centro Terapêutico Amor em Cristo fica em Monte Gordo, Camaçari, e atende famílias de toda a região metropolitana de Salvador. O tratamento de alcoolismo inclui avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas e plano terapêutico individual, com a família acompanhando. Na internação involuntária, conduzimos a parte legal e orientamos a chegada. A modalidade é particular; entregamos recibos e relatório com CID para quem busca reembolso. Se você é de Camaçari ou da região, converse com a gente.

Em resumo

  • Você não faz seu pai parar de beber. Você pode mudar o que faz a partir de hoje: proteger-se, parar de cobrir os buracos e buscar ajuda.
  • Converse com ele sóbrio, com fato e sentimento, pedindo algo pequeno: ir ao médico.
  • Parar de beber de uma vez, sem médico, pode ser perigoso. Isso é tarefa de profissional.
  • Filho adulto pode pedir internação involuntária, mas quem decide é o médico (Lei 10.216/2001 e Lei de Drogas, art. 23-A).
  • Adolescente pode pedir ajuda na escola, no posto, no CRAS ou no Conselho Tutelar, sem autorização do pai.
  • CAPS AD, Al-Anon, Alateen e Defensoria Pública são de graça. Em perigo de vida, 192.

Perguntas frequentes

Tenho 15 anos e moro com meu pai que bebe. Posso pedir ajuda sem ele saber?

Pode. Você pode falar com um adulto de confiança, com a escola, com o posto de saúde ou com o Conselho Tutelar da sua cidade, e ninguém precisa da autorização do seu pai para isso. O Estatuto da Criança e do Adolescente garante que você seja protegido em primeiro lugar. O Alateen também recebe adolescentes sem precisar avisar o familiar que bebe.

Sou filho adulto e moro em outra casa. Dá para ajudar meu pai de longe?

Dá. Você pode marcar a consulta no posto e ir junto no dia, combinar com quem mora com ele um jeito de agir nas crises e procurar o CAPS AD da cidade dele para saber como funciona o acolhimento. Visitar num horário em que ele costuma estar sóbrio ajuda mais do que ligar à noite para cobrar.

Meu pai bebe todo dia e eu sinto raiva dele. Isso é normal?

É normal e não faz de você uma pessoa ruim. Raiva, pena e amor costumam vir juntos quando o pai bebe. O que não ajuda é descontar essa raiva na hora em que ele está bêbado, porque ele não vai lembrar e você sai pior. Grupos como o Al-Anon e o Alateen existem justamente para você colocar isso para fora com quem entende.

Minha mãe defende meu pai e diz que é só cansaço. O que eu faço?

É muito comum. Quem vive anos ao lado de alguém que bebe se acostuma e passa a proteger, por amor e por medo. Não brigue com ela. Conte o que você vê, com exemplos concretos, e convide-a a ir junto a um grupo de família como o Al-Anon ou ao posto de saúde. Às vezes ela precisa ouvir de outra pessoa o que você já percebeu.

Meu pai parou de beber de repente e está tremendo, suando e vendo coisas. É normal?

Não é normal e é urgente. Quem bebe muito todo dia e para de uma vez pode ter uma reação forte do corpo, com tremor, confusão, alucinação e até convulsão. Isso precisa de médico na hora. Leve-o ao pronto-socorro ou ligue 192 (SAMU).

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