Mentir pelo filho que usa droga: ajuda ou risco?

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centroAtualizado em 31/10/2026

Foto real do Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari: vista do centro em Camaçari

Era quase sete da manhã quando o telefone tocou. Era o chefe do filho dela, querendo saber por que ele não apareceu de novo. A mãe respirou fundo e respondeu o que já tinha respondido outras vezes: que ele estava com virose. Desligou aliviada e, logo depois, com a sensação de que tinha feito algo errado.

Mentir para proteger um filho que usa droga costuma aliviar a família na hora e adiar o momento em que ele encara o que está acontecendo. Isso não faz de ninguém uma péssima mãe ou um péssimo pai: quase toda família que convive com a dependência faz isso por amor e por medo. Mas dá para proteger sem esconder, e este texto mostra como.

Por que a gente mente por quem ama

A mentira de proteção quase nunca nasce de má-fé. Ela nasce do medo de ver o filho demitido, expulso da escola, falado na vizinhança ou em perigo. Nasce também da vergonha: contar a verdade parece admitir uma falha da família.

Estudos com familiares de pessoas com dependência, como a pesquisa publicada pela Revista Mineira de Enfermagem, da UFMG, descrevem como a vida da família passa a girar em torno do problema do outro, com a pessoa cuidadora assumindo tarefas e consequências que não são dela. Acobertar é uma das formas mais comuns disso.

Também ajuda saber que a pessoa com dependência costuma pedir a mentira de um jeito que parece pequeno: “só diz que eu estou dormindo”, “fala que eu volto depois”, “paga isso que eu resolvo semana que vem”. Cada pedido isolado parece inofensivo. É a soma deles que sustenta o ciclo.

Quais são os tipos de acobertamento mais comuns?

Nem tudo é mentira falada. Veja a lista e marque o que acontece na sua casa:

  • inventar doença ou desculpa para o trabalho, a escola ou a faculdade;
  • dizer a parentes que “está tudo bem” quando não está;
  • pagar dívida pequena para ninguém bater na porta;
  • limpar, consertar ou esconder o que ele quebrou ou deixou para trás;
  • avisar a ele antes de o assunto chegar, para ele ter tempo de se preparar;
  • cuidar sozinho(a) dos filhos dele para que ninguém note a ausência.

Cada item, sozinho, parece apenas cuidado. O sinal de alerta aparece quando ele se repete e quando só você sabe do segredo.

Mentir ajuda ou atrapalha o tratamento?

Atrapalha em um ponto específico: quando as consequências do uso nunca chegam à pessoa, fica mais difícil ela perceber o tamanho do problema. Isso não significa deixar a pessoa sofrer de propósito, nem “esperar o fundo do poço”, que é uma ideia perigosa; para entender por que, veja por que esperar o fundo do poço não é estratégia.

O que a pesquisa mostra é mais animador do que o caminho do confronto ou do silêncio. Em um estudo clínico com familiares de pessoas que bebiam e recusavam tratamento, o treinamento CRAFT, que ensina a família a mudar o próprio comportamento e a reforçar o que é saudável, levou mais pessoas ao tratamento do que um encontro de confronto e do que o encaminhamento a um grupo de apoio. Um segundo estudo, com pessoas que usavam outras drogas, também testou o treinamento da família como caminho para engajar quem recusa ajuda. Conheça o método em CRAFT: como a família pode ajudar.

Em outras palavras: o que funciona não é mentir nem brigar. É a família parar de esconder e passar a falar com calma, com um plano.

O que dizer no lugar da mentira

Não é preciso expor o diagnóstico de ninguém. Existe uma terceira via entre mentir e contar tudo: dizer o que é verdadeiro e curto. Veja o roteiro:

SituaçãoEm vez deDiga
O chefe liga“Ele está doente.”“Ele não pode falar agora. Peço que o assunto seja tratado direto com ele.”
A escola cobra falta“Teve um problema na família.”“Ele está passando por um momento difícil e estamos buscando ajuda. Posso avisar quando tivermos novidade.”
Um parente pergunta“Está tudo ótimo.”“Estamos cuidando disso, mas prefiro não falar por telefone.”
Um credor aparecePagar para o assunto acabar“Essa dívida é dele. Passe o contato a ele.”
Ele pede para você avisar que está dormindo“Ele está dormindo.”“Não vou dizer isso. Resolva com a pessoa.”

Perceba o padrão: você não ataca, não acusa e não entrega o segredo dele a quem não precisa saber. Apenas deixa de afirmar o que sabe que não é verdade.

E quando ele pede, chora ou ameaça?

A hora mais difícil não é a ligação do chefe. É o pedido do filho, de perto: “se você não falar por mim, eu perco tudo”. Aqui, vale preparar a resposta antes, porque na hora a emoção toma conta.

  1. Escolha um momento calmo, longe de uma crise e de um episódio de uso, para combinar a mudança. Fale de si, não dele: “eu não vou mais mentir por você, porque isso não está te ajudando”.
  2. Ofereça o que você pode dar: ir junto a uma consulta, procurar um serviço de saúde, ficar ao lado dele numa conversa difícil. Veja como colocar limites sem romper o vínculo.
  3. Não negocie na hora do pedido. “Eu entendo que você está com medo. Vamos conversar sobre isso mais tarde” é uma resposta completa.
  4. Mantenha o combinado, mesmo que ele fique bravo. Voltar atrás ensina que a pressão funciona.
  5. Cuide de você: a pessoa que sustenta o segredo costuma estar exausta. Um grupo para familiares ajuda a manter a decisão.
Se ele falar em se machucar ou tirar a própria vida, ou se houver risco imediato, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU). Para conversar com alguém sobre sofrimento emocional, o CVV atende pelo 188, 24 horas, de graça.

Se a ameaça for séria ou houver violência

Há uma diferença entre pedir que você minta e ameaçar você. Se existe agressão, intimidação ou medo real dentro de casa, a prioridade é a sua segurança e a de quem mora com você, não o segredo. Veja o que fazer com um dependente agressivo em casa.

Onde pedir ajuda para a família na Bahia

Ninguém precisa sustentar isso sozinho(a). A rede pública oferece portas de entrada para a família:

  • o CRAS do seu bairro orienta sobre benefícios e serviços de assistência social (veja como o CRAS ajuda a família);
  • o CAPS AD acompanha quem tem problemas com álcool e outras drogas, e costuma escutar também os familiares (veja como o CAPS AD funciona).

Em Salvador e na região metropolitana, vale perguntar na unidade de saúde mais próxima qual CAPS atende o seu endereço.

Se você quiser conversar com a nossa equipe sobre como parar de acobertar sem romper o vínculo, mande uma mensagem pelo WhatsApp. A conversa é reservada.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, o tratamento envolve a família junto e o sigilo é parte do cuidado. Para conhecer as modalidades, veja a página de tratamento da dependência química e, se mora na região, a página clínica de reabilitação em Camaçari.

Perguntas que a família faz depois que decide parar

“E se ele perder o emprego por minha causa?” A perda do emprego, quando acontece, vem do que aconteceu no trabalho. A sua decisão não cria o problema; ela apenas deixa de escondê-lo. Se ele precisar de afastamento, existem caminhos formais, e vale ler como funciona a declaração de tratamento para trabalho e Justiça.

“Isso é abandono?” Não. Abandonar é sumir. Parar de mentir é continuar presente, de outra forma: com verdade, com limite e com a porta aberta para o tratamento. Se o seu caso também envolve dinheiro, veja por que dar dinheiro costuma piorar o quadro.

“Será que eu sou codependente?” Acobertar é um dos comportamentos descritos quando se fala em codependência. Se você se reconheceu, leia codependência: quando a família adoece junto e, para a conversa com ele, como lidar com as mentiras do dependente.

Quando buscar avaliação profissional

Se o uso está aumentando, se há risco para ele ou para quem mora com ele, ou se a família não consegue mais sustentar a rotina, é hora de uma avaliação com profissional de saúde. A decisão sobre qualquer forma de internação depende de avaliação médica e de os cuidados fora do hospital serem insuficientes, e não é promessa de vaga nem de resultado. Para entender as opções, veja os tipos de internação.

A internação pode ser uma possibilidade?

Sim. A internação pode fazer parte do tratamento da dependência química, do alcoolismo ou de quadros de saúde mental quando os cuidados fora do hospital são insuficientes. A indicação depende de avaliação médica individual — não é necessária para todas as pessoas e não deve ser decidida apenas pela leitura de um artigo.

No Centro Terapêutico Amor em Cristo Bahia, você pode conversar com a equipe sobre essa possibilidade e os próximos passos. Antes de qualquer decisão, confirme se o serviço atende à idade, ao perfil e às necessidades da pessoa, além das condições de atendimento. O contato pelo WhatsApp não garante vaga nem substitui a avaliação médica.

Conforme o art. 4º da Lei 10.216/2001. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).

Perguntas frequentes

Contar a verdade ao patrão ou à escola faz meu filho perder a vaga?

Você não precisa dar detalhes de saúde para ninguém. Dizer “ele não pode atender agora, e a resposta virá dele” é verdadeiro e não expõe diagnóstico. O que muda é que você deixa de ser a voz que esconde o problema.

Minha mãe e meus irmãos acham que eu exagero ao parar de acobertar. Como lidar?

Combine uma conversa só sobre isso, com um pedido simples: que ninguém invente desculpas pelo seu filho. Se a família diverge, vale levar a divisão para um grupo de familiares ou para a equipe de tratamento, onde ela pode ser conversada sem acusação.

Parar de mentir por ele pode piorar o uso?

Pode haver tensão nos primeiros dias, porque as consequências passam a chegar a ele. Por isso o ideal é mudar com apoio, combinar o que será dito e ter um plano para o caso de crise. Em risco imediato à vida, procure a emergência ou o 192.

Esconder a droga ou a bebida dele dos outros também é acobertar?

Esconder o problema de quem convive com ele costuma manter o segredo e o isolamento da família. Proteger a intimidade é diferente: você não precisa divulgar nada, mas também não precisa afirmar o que sabe que não é verdade.

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